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EX-COVEIRO REVELA O QUE ACONTECEU NO TÚMULO 1001 EM 1982

EX-COVEIRO REVELA O QUE ACONTECEU NO TÚMULO 1001 EM 1982

Depois de passar mais de quarenta anos trabalhando como coveiro, aprendi que a morte possui mil rostos, mas o silêncio que ela deixa é sempre o mesmo. Já sepultei homens abastados em caixões de madeira nobre cobertos de coroas de flores, e já enterrei despossuídos em caixas de tábua crua sem que ninguém estivesse por perto para dizer um único adeus. Sempre cumpri o meu dever com o mesmo respeito, pois acreditava que, diante da terra fria, todos nós voltamos a ser exatamente iguais. No entanto, houve um sepultamento em especial que marcou a minha jornada de uma forma que o tempo jamais conseguirá apagar.

Meu nome é Nivaldo Correia Lima. Hoje tenho sessenta e sete anos e carrego no corpo e na memória as marcas de uma vida inteira dedicada ao descanso alheio. Era uma manhã cinzenta e silenciosa do ano de 1982 quando o encarregado do Cemitério Municipal de Chapecó, no interior de Santa Catarina, me chamou até a sua sala. Ele trazia na testa um vinco de preocupação e na mão uma folha de papel dobrada ao meio. Ao meu lado estava um colega de trabalho, e ambos percebemos que não se tratava de um serviço rotineiro.

O administrador nos explicou com poucas palavras o que havia acontecido. O corpo de um homem desconhecido tinha sido encontrado à beira da estrada, nos arredores da cidade, alguns dias antes. Ninguém sabia dizer quem ele era, de onde tinha vindo ou o que de fato causara a sua morte. Não havia carteira, documento, bilhete ou qualquer pista que pudesse revelar o seu nome. O corpo permanecera por dias no necrotério local à espera de que algum parente ou conhecido aparecesse para reconhecê-lo, mas o telefone nunca tocou e ninguém atravessou aquela porta.

A prefeitura, então, determinou que o sepultamento fosse realizado como indigente. Sem velório, sem orações, sem flores e sem lágrimas. O chefe nos avisou, com a insensibilidade própria de quem lida apenas com papéis burocráticos, que não haveria lápide com nome. Na cabeceira da cova, fincaríamos apenas uma placa simples de metal gravada com o número mil e um. A sepultura escolhida ficava na ala mais distante do cemitério, um canto isolado, cercado por árvores altas e raramente visitado pelas famílias da cidade.

Aquele canto era calmo, de terra batida e sombra constante. O encarregado falou rápido, como quem trata de mais uma tarefa qualquer no meio da rotina, e retornou para o seu escritório. Para ele, era apenas mais um número num livro de registros. Para mim e meu companheiro de serviço, porém, era o dever de carregar o peso final de uma existência que o mundo decidira esquecer.

Fui buscar as ferramentas na dispensa enquanto aguardávamos a chegada do carro funerário. Eu já exercia aquele ofício há tempo suficiente para não me impressionar com facilidade. Sempre tratei cada sepultado com a mesma dignidade, tivesse a pessoa um sobrenome famoso ou fosse um completo desconhecido. Para mim, a morte exige respeito irrestrito.

Perto do meio da manhã, o veículo encostou trazendo a caixa simples de madeira crua, sem verniz e sem adorno algum. Era apenas uma caixa de tábuas pregadas às pressas, do jeito que se faz quando não há ninguém para escolher algo melhor. Ao ver aquele caixão descer da carroceria, senti um aperto esquisito no peito. Foi um calafrio diferente, algo que eu nunca tinha experimentado em nenhum outro enterro. Guardei aquela sensação comigo, achando que seria apenas um cansaço passageiro ou uma tontura boba.

Seguramos as alças de madeira e começamos a caminhar lentamente pelo corredor do cemitério. A distância até a ala afastada era curta, mas naquele dia cada passo parecia pesar o dobro do normal. No meio do caminho, um vento frio soprou de repente, forte o bastante para sacudir as folhas das árvores mais próximas. Estranhei o fato imediatamente, pois o dia estava parado e abafado, sem uma brisa sequer. O vento veio do nada, balançou os galhos e sumiu com a mesma rapidez.

Meu colega parou por um instante, ainda segurando a alça do caixão com firmeza, e olhou ao redor com aquele olhar incerto de quem sente a presença de alguém observando de longe. Fiquei em silêncio esperando que ele dissesse algo, mas ele apenas balançou a cabeça, como quem afasta um pensamento ruim, e continuou a andar. Eu também sentia aquela mesma sensação de estar sendo vigiado por olhos invisíveis, mas preferi calar e seguir em frente.

Chegando à beira da cova, colocamos o caixão no chão de terra batida. Fiquei parado por alguns segundos olhando para aquela madeira humilde, pensando na dor de morrer sem ter quem chore por você ou guarde a sua memória. Passamos as cordas de sisal por baixo da caixa e começamos a descê-la devagar. Naquele instante, um silêncio profundo tomou conta do local, um silêncio pesado que parecia abafar até mesmo o som das nossas mãos trabalhando nas cordas.

Terminado o descimento, olhei para o meu colega e ele retribuiu o olhar, mas nenhum dos dois teve coragem de verbalizar o que estava sentindo. Pegamos as pás e começamos a jogar as primeiras camadas de terra. Pá após pá, a cova foi se fechando até restar apenas um monte reto de terra revolvida. Sem uma pétala de flor, sem um nome, sem uma oração. Guardamos o material e deixamos o cemitério em silêncio.

Nos dias seguintes, tentei esquecer aquele episódio, mas aquela sensação permaneceu guardada num canto da minha mente. Quatro dias após o sepultamento, precisei retornar àquele túmulo para fixar a placa de identificação definitiva de metal. Peguei o martelo, os pregos e fui caminhando sozinho até o setor afastado sob um sol fraco de tarde.

No caminho, um cachorro vira-lata que vivia livre pelo cemitério veio caminhando ao meu lado. O animal era querido por todos os funcionários. Não tinha dono certo, mas recebia comida, água e carinho de todos nós. Passava os dias deitado nas sombras das lápides e acompanhando quem estivesse trabalhando.

Quando nos aproximamos da tumba 1001, o cachorro parou de repente. Fincou as patas no chão e recusou-se a dar mais um passo em minha direção. Achei estranho, pois ele nunca agira daquela forma. Chamei seu nome e bati palmas leves, mas o cão permaneceu imóvel, com o corpo tenso e as orelhas levantadas, encarando a sepultura.

Segui até a lápide e ajoelhei-me para pregar a placa de metal com o número. Enquanto me concentrava nos pregos para garantir que a chuva não os soltasse, o cachorro começou a rosnar. Era um rosnado baixo, contínuo e ameaçador. Olhei para trás e ele continuava no mesmo lugar, fixando o olhar em um ponto vazio logo ao meu lado.

Em seguida, ele começou a latir com violência, como se estivesse diante de um estranho provocador que eu era incapaz de enxergar. Procurei ao redor e não vi absolutamente nada. Porém, uma sensação incômoda e gélida tomou conta do meu peito e desceu pelos meus braços. Apressadamente, terminei de fixar a placa, juntei os materiais e me afastei do local com o coração acelerado. Somente quando me distanciei alguns metros, o animal parou de latir e voltou a caminhar ao meu lado serenamente, abanando o rabo.

No dia seguinte, comentei o ocorrido com um colega antigo de trabalho. Para a minha surpresa, ele escutou com extrema gravidade e revelou que passara por uma experiência assustadora dois dias antes naquele mesmo canto. Ele estava podando árvores por volta das seis da tarde quando sentira uma dor de cabeça súbita e avassaladora. Ao parar para massagear as têmporas, vira um homem desconhecido caminhando devagar entre as sepulturas. Quando fechou e reabriu os olhos, o homem havia simplesmente evaporado, sem deixar rastro ou som de passos.

Cerca de uma semana após o enterro, ao fim da tarde, eu retornava ao vestiário quando avistei uma figura parada diante do túmulo 1001. Era uma senhora idosa de cabelos grisalhos presos num coque simples, de cabeça baixa, sozinha naquele setor isolado. Fiquei intrigado, pois em todos aqueles dias ninguém jamais visitara aquela tumba desprovida de nome.

Aproximei-me devagar para não sobressaltá-la. À medida que encurtava a distância, ouvi um choro baixinho e dolorido, abafado pelas suas próprias mãos. O ar ao redor parecia denso e triste. Respirei fundo e perguntei com voz suave se ela estava bem ou se precisava de auxílio.

A senhora enxugou as lágrimas e virou-se lentamente. Tinha o rosto marcado por rugas profundas e olhos vermelhos de tanto chorar. Ela encarou-me com gravidade e disse uma frase que jamais esquecerei:

— Essa alma precisa de ajuda.

Surpreso, perguntei a quem ela se referia. A idosa olhou para a placa com o número 1001 e explicou que era uma mulher de profunda fé. Relatou que, há várias noites consecutivas, vinha tendo o mesmo sonho perturbador. No sonho, via um homem caminhando desorientado no meio da neblina de um cemitério, procurando por algo sem encontrar. Ele tentava falar e pedir socorro, mas som algum saía de sua boca.

Achando que o sonho pudesse ser uma mensagem de seu filho falecido, sepultado ali há anos, ela fora rezar na tumba dele naquela tarde. Porém, ao terminar a oração, sentira um impulso forte e inexplicável no peito que a guiara até aquela ala remota. Ao chegar diante da cova 1001, compreendeu com clareza espiritual que o homem do sonho era aquele indigente esquecido por todos.

A senhora tirou da bolsa uma vela branca e disse que iria acendê-la ali para trazer luz e encaminhar aquela alma que vagava na escuridão. Com as mãos trêmulas, acendeu a vela e a colocou com cuidado ao pé da placa de metal. Antes de ir embora, pediu-me com a voz embargada que, sempre que possível, eu deixasse uma luz acesa para aquele falecido.

Prometi a ela que cuidaria daquele local com o devido respeito. A velhinha sorriu com alívio e despediu-se, caminhando calmamente em direção à saída. Fiquei ali observando a pequena chama brilhar suavemente na penumbra do fim de tarde, aquecendo o frio daquele metal.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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