EU RIA DAS HISTÓRIAS DO CEMITÉRIO… ATÉ O ENTERRO DE UMA JOVEM EM 1991

EU RIA DAS HISTÓRIAS DO CEMITÉRIO… ATÉ O ENTERRO DE UMA JOVEM EM 1991

Meu nome é Aparecido Alves da Silva. Hoje tenho 69 anos, mas durante seis anos trabalhei como coveiro no cemitério municipal de Porto Velho. Naquele tempo eu me considerava um homem prático. Ouvia meus colegas contarem histórias de vultos, vozes e passos entre os túmulos e sempre ria. Para mim, tudo tinha explicação. Vento, cansaço, imaginação, medo. Foi assim até 1991, quando participei do enterro de uma jovem chamada Cristiane Almeida Rocha, de 29 anos.
Naquele dia, o cemitério parecia diferente. Talvez fosse apenas a tristeza de ver uma pessoa tão nova sendo enterrada. A família permanecia reunida em silêncio, com os olhos baixos, enquanto o padre dizia palavras de conforto. Eu e outro funcionário aguardávamos à distância. Quando chegou a hora de baixar o caixão, segurei a corda com cuidado, como fazia em todos os enterros.
Assim que o caixão começou a descer, a mãe de Cristiane soltou um grito que atravessou o cemitério.
— Minha filha! Minha filha!
Ela quase caiu de joelhos. Parentes correram para ampará-la. A cerimônia continuou, mas ninguém parecia respirar direito. Depois, pouco a pouco, os familiares foram embora. A mãe ficou por último. Parada diante da cova aberta, abaixou-se perto da terra e sussurrou:
— Quem fez isso com você, minha filha? Quem?
Eu estava perto demais para não ouvir. Naquele instante, um frio atravessou meu corpo. Não era o arrepio comum de uma manhã fria. Minhas mãos ficaram imóveis, e por alguns segundos não consegui mover a pá. Meu colega percebeu minha expressão. Olhou para mim, sério, mas nenhum de nós disse nada.
Quando todos saíram, terminei de fechar a sepultura sozinho. Foi então que notei o silêncio. Não havia vento, pássaros ou folhas se mexendo. Apenas um vazio pesado, diferente de tudo que eu conhecia naquele lugar. Tentei me convencer de que era consequência da cena que acabara de presenciar.
Quando meu colega voltou, observou o túmulo e comentou:
— Esse aí não vai ser dos tranquilos.
Eu ri e respondi que ele estava deixando o cemitério mexer com sua cabeça. Contudo, naquela tarde, fui para casa sem conseguir esquecer a pergunta daquela mãe.
Na manhã seguinte, encontrei o vigia noturno na sala dos funcionários. Ele estava mais calado que de costume. Enquanto terminava o café, contou que, por volta das três da madrugada, ouvira um som vindo da direção da sepultura recém-fechada. Pegara a lanterna e fora verificar. Não encontrou ninguém, nada fora do lugar.
Brinquei dizendo que precisava dormir melhor antes do plantão. Por dentro, porém, o desconforto voltou.
Naquela tarde, fui fazer um reparo perto do túmulo de Cristiane. O sol estava forte e havia poucos visitantes. Uma senhora arrumava flores alguns metros adiante quando, de repente, cambaleou e caiu.
Corri para ajudá-la. Depois de alguns instantes, ela recuperou a consciência. Sentei-a em um banco de pedra e ofereci água. Ainda assustada, contou que nunca tinha desmaiado antes. Disse que, segundos antes de perder os sentidos, ouvira um sussurro muito perto do ouvido. Em seguida, sentira pressão no peito e falta de ar.
Enquanto ela falava, olhei involuntariamente para o lado. O túmulo de Cristiane estava a poucos passos.
O arrepio voltou, mais forte.
Perto das seis da tarde, quase na hora de fechar os portões, outro colega entrou apressado na sala dos funcionários. Estava pálido. Disse que vira uma jovem parada diante de uma sepultura. Aproximou-se para avisar que o cemitério fecharia, mas, quando chegou ao local, não havia ninguém.
Tentei brincar.
— E qual era o túmulo?
Ele respondeu imediatamente:
— O da moça que você enterrou ontem.
Minhas pernas tremeram.
No dia seguinte, percebi que evitava passar por aquela área. Dava voltas maiores, mesmo sem admitir meu medo. No fim da tarde, porém, recebi uma tarefa justamente ali: consertar uma lápide rachada.
Caminhei tentando repetir para mim mesmo que tudo não passava de imaginação. Quando me aproximei, senti o ar pesado. As flores deixadas no enterro de Cristiane estavam completamente murchas, embora apenas dois dias tivessem se passado.
Comecei o serviço. O som do martelo na pedra me ajudava a pensar em outra coisa. Até que surgiu uma sensação estranha: alguém parecia observar cada movimento meu.
Olhei ao redor.
Não havia ninguém.
Mesmo assim, a sensação crescia. Minhas mãos começaram a tremer. Respirei fundo e tentei continuar. Então, sem aviso, uma rajada de vento passou exatamente sobre o túmulo de Cristiane.
Larguei a ferramenta e saí dali quase correndo.
Encontrei um colega e contei tudo. Pela primeira vez, ele não riu de mim. Escutou em silêncio e depois disse algo que nunca esqueci:
— É fácil debochar daquilo que a gente nunca sentiu na própria pele.
Ele acreditava que algumas pessoas morriam deixando algo pendente: uma injustiça, uma culpa, uma verdade não esclarecida. Nesses casos, segundo ele, certos sinais poderiam permanecer. Não para machucar os vivos, mas talvez para pedir atenção, oração ou justiça.
Eu perguntei se aquilo poderia estar acontecendo com Cristiane.
Meu colega respondeu que não tinha certeza de nada, mas que já presenciara situações parecidas naquele cemitério.
Suas palavras ficaram comigo o resto do dia.
Antes de ir embora, fiz uma última ronda. Foi então que vi uma mulher parada diante da sepultura de Cristiane. Reconheci imediatamente a mãe dela.
Aproximei-me devagar e fiz questão de produzir algum barulho para não assustá-la. Quando ela me percebeu, apresentei-me e disse que eu havia participado do sepultamento.
Depois de alguns minutos, perguntei, com cuidado, o que tinha acontecido com a filha.
A mulher ficou em silêncio. Então contou que o corpo de Cristiane havia sido encontrado no rio que cortava a cidade. A polícia ainda não tinha identificado o responsável.
Tentei oferecer algum conforto e mencionei a possibilidade de acidente.
Ela balançou a cabeça.
— Eu não acredito que foi acidente.
Seu olhar mudou. Disse que sempre desconfiara do marido de Cristiane, um homem muito ciumento. Dias antes da morte, o casal tivera uma discussão grave. Cristiane chegara a passar alguns dias na casa da mãe, mas depois decidira voltar para o marido.
A polícia investigava o rapaz, porém ainda não havia conseguido reunir provas concretas.
— Eu sei que ele sabe de alguma coisa — disse ela.
Enquanto a escutava, lembrei das palavras do meu colega sobre injustiças que permaneciam sem resposta. Sem entender direito por quê, contei àquela mãe que, desde o enterro, eu também sentia algo estranho perto do túmulo.
Ela não demonstrou medo. Pelo contrário, pareceu encontrar algum consolo naquilo.
Ajoelhou-se diante da lápide, juntou as mãos e começou a rezar baixinho. Permaneci a certa distância, respeitando seu momento. Quando terminou, levantou-se, agradeceu pela conversa e caminhou lentamente até a saída.
Fiquei olhando enquanto ela se afastava. O sol descia sobre Porto Velho, tingindo o céu de laranja, e eu percebi que alguma coisa dentro de mim havia mudado.
Nos dias que se seguiram, continuei trabalhando como sempre, mas minha relação com aquele espaço já não era a mesma. Antes, eu atravessava os corredores entre as sepulturas pensando apenas no serviço seguinte. Depois de Cristiane, comecei a reparar nos detalhes: uma flor deixada com cuidado, uma fotografia desbotada, um nome repetido em voz baixa por alguém que vinha visitar um parente. Percebi que um cemitério não era apenas um lugar de morte. Era também um lugar de lembranças, promessas interrompidas e pessoas tentando aprender a viver com ausências que não escolheram.
Algumas semanas depois, perguntei discretamente aos colegas se tinham ouvido algo novo sobre o caso. Ninguém sabia de uma conclusão. A rotina seguiu, como sempre acontece, e outros enterros ocuparam nossos dias. Ainda assim, toda vez que eu passava naquela parte do terreno, diminuía o passo. Às vezes fazia uma oração curta. Em outras ocasiões, apenas olhava para a lápide e desejava, em silêncio, que a verdade chegasse até aquela família. Com o tempo, o medo foi diminuindo. O respeito, porém, ficou. E talvez tenha sido justamente isso que aquela experiência tenha deixado em mim para sempre. Muito depois daqueles dias difíceis.
Depois daquele caso, nunca mais ri das histórias contadas pelos meus colegas. Passei a rezar pela alma de Cristiane sempre que passava perto de sua sepultura. Pedia que ela encontrasse paz e que sua família um dia recebesse as respostas que tanto buscava.
Nunca soube explicar com certeza o que aconteceu naqueles dias. Talvez algumas coisas tenham explicações simples que eu não consegui enxergar. Talvez o cansaço, a dor daquela família e o ambiente do cemitério tenham influenciado nossos sentidos. Mas também aprendi que nem tudo precisa ser ridicularizado apenas porque não conseguimos compreender.
Hoje, aos 69 anos, acredito que existem experiências que merecem respeito antes de qualquer julgamento. O que vivi no cemitério municipal de Porto Velho mudou a maneira como enxergo a morte, a saudade e a fé.
E, quando me lembro de Cristiane Almeida Rocha, não penso primeiro no medo. Penso na mãe ajoelhada diante daquela lápide, pedindo justiça e paz para a filha.