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EX-COVEIRO CONTA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UM JOVEM EM 1996 — E O QUE VIU DIANTE DAQUELE TÚMULO NUNCA SAIU DE SUA MEMÓRIA

EX-COVEIRO CONTA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UM JOVEM EM 1996 — E O QUE VIU DIANTE DAQUELE TÚMULO NUNCA SAIU DE SUA MEMÓRIA

Em 1996, Adelino Costa Fagundes trabalhava como coveiro no cemitério de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Já conhecia o peso silencioso daquele ofício. Aos poucos, aprendera que cada família chegava carregando uma dor diferente e que cada um chorava à sua maneira. Pensava ter visto de tudo até o enterro de Diego Fernandes Costa, um rapaz de apenas dezoito anos cuja morte deixou uma lembrança que ele jamais conseguiu apagar.

Naquela tarde, Adelino foi chamado para preparar uma sepultura. Não sabia como Diego havia morrido, nem perguntou. Bastava fazer o serviço com respeito. Quando o cortejo chegou, percebeu imediatamente quem era a mãe do rapaz. Ela vinha amparada por duas mulheres, caminhando como se cada passo exigisse uma força impossível. O padre iniciou as orações e os parentes se reuniram ao redor do caixão.

Foi então que Adelino notou um homem aproximando-se de longe. Ele parecia hesitante e permaneceu alguns metros afastado do grupo, com as mãos nos bolsos e os olhos fixos no caixão. Ninguém o cumprimentou. Por alguns minutos, observou.

A mãe de Diego finalmente o viu.

O desespero que ela vinha segurando rompeu-se de uma vez.

—Vá embora! Você não tem direito de estar aqui! Abandonou meu filho e agora aparece para fingir que sente alguma coisa!

O padre interrompeu a oração. Alguns familiares correram para segurá-la. O homem não respondeu. Baixou a cabeça, permaneceu imóvel por alguns segundos e depois se afastou pelo mesmo caminho por onde havia chegado.

Adelino não sabia quem ele era, mas a cena lhe causou uma impressão difícil de explicar. O enterro continuou, embora o clima tivesse mudado. Quando o caixão foi baixado, a mãe se ajoelhou chorando perto da sepultura. Depois da oração, a família começou a sair.

Adelino fechou a cova e voltou para casa levando consigo a imagem daquele desconhecido indo embora de cabeça baixa.

Na manhã seguinte, enquanto trabalhava perto do túmulo de Diego, viu um visitante entrando com um cachorro. O animal caminhava tranquilamente até chegar àquela fileira de sepulturas. De repente, parou. O corpo ficou rígido, os pelos do lombo se levantaram e um rosnado baixo começou a sair de sua garganta.

O dono puxou a guia.

O cachorro recusou-se a avançar.

Depois de algumas tentativas, o homem precisou contornar o local por outro caminho. Adelino observou de longe. Disse a si mesmo que animais percebiam cheiros e sons que humanos não notavam. Parecia razoável, porém a cena permaneceu em sua cabeça durante o dia.

Na manhã posterior, o vigia noturno o chamou antes do início do expediente. Parecia nervoso. Contou que, por volta das três da madrugada, vira um jovem andando sozinho entre os túmulos. Chamou por ele, mas não recebeu resposta. O rapaz continuou caminhando lentamente e parou justamente diante da sepultura de Diego.

O vigia resolveu se aproximar.

Quando chegou ao local, não havia ninguém.

Procurou entre as lápides, percorreu os corredores próximos e verificou o portão. Nada.

Adelino sentiu um arrepio. Cada episódio poderia ter uma explicação. Juntos, começavam a incomodá-lo.

No fim daquela tarde, enquanto organizava um canteiro, encontrou uma senhora idosa que visitava o cemitério quase todas as semanas. Ela ficou parada diante do túmulo de Diego por alguns instantes e depois olhou para Adelino.

—Tem alguma coisa aí que ainda não descansou —disse.

Não explicou. Apenas seguiu seu caminho.

A frase ficou ecoando na cabeça dele.

Com o sol já baixo, Adelino resolveu voltar sozinho à sepultura. Não era homem de histórias sobrenaturais, tampouco especialmente religioso. Ainda assim, sentia que precisava fazer alguma coisa. Ajoelhou-se na terra úmida e começou a rezar como aprendera com a mãe quando era criança.

Não usou palavras bonitas. Pediu somente que aquele jovem encontrasse paz.

Enquanto rezava, uma angústia estranha tomou seu peito. A respiração ficou curta e as mãos esfriaram. Pensou em levantar e ir embora, mas continuou. Quanto mais rezava, mais pesado parecia o ar ao redor.

Então ouviu passos.

Virou-se rapidamente.

Era o mesmo homem que aparecera no funeral.

Ele parou alguns metros atrás de Adelino e perguntou o que estava fazendo ali.

Ainda abalado, o coveiro contou tudo: o comportamento do cachorro, o relato do vigia e as palavras da senhora. Disse que não sabia se aquilo significava alguma coisa, mas sentira necessidade de rezar.

O homem ouviu em silêncio. Seus olhos se encheram de lágrimas.

Depois de algum tempo, revelou:

—Eu sou o pai do Diego.

Contou que era muito jovem quando o filho nasceu. Não tinha estrutura, responsabilidade ou coragem para assumir uma família. Em vez de enfrentar as dificuldades, desapareceu, deixando a mãe de Diego sozinha.

Anos depois, amadureceu. Arrumou emprego, organizou a vida e começou a perceber a dimensão do que havia feito. O arrependimento não devolvia o tempo perdido, mas passou a desejar uma oportunidade de conhecer o filho.

A oportunidade veio do próprio Diego.

Já com dezessete anos, o rapaz descobriu onde o pai morava e o procurou escondido da mãe. Encontraram-se algumas vezes. Conversavam em lugares simples, tomavam café e tentavam reconstruir uma relação que nunca deveria ter sido interrompida.

Segundo o homem, Diego não escondia a mágoa. Fazia perguntas difíceis, queria saber por que fora abandonado e por que o pai demorara tanto para voltar. Mesmo assim, dava sinais de que desejava conhecê-lo.

Quando a mãe descobriu os encontros, reagiu com medo. Depois de criar o filho sozinha durante tantos anos, não confiava no homem que um dia havia desaparecido. Procurou meios legais para interromper o contato enquanto Diego ainda era menor.

O pai não a culpava.

—Ela tinha motivos para desconfiar de mim —confessou. —Eu ensinei a ela que eu podia ir embora a qualquer momento.

Diego, porém, havia prometido uma coisa: quando completasse dezoito anos, procuraria o pai novamente por decisão própria.

Ele nunca teve tempo.

Pouco depois do aniversário, morreu em um acidente de moto.

Um parente avisou o pai, que compareceu ao funeral sabendo que provavelmente seria rejeitado. Não pretendia se aproximar da família. Queria apenas ver o filho uma última vez.

Foi então que colocou a mão no bolso e retirou um pequeno carrinho de brinquedo, gasto pelo tempo.

Adelino olhou sem entender.

O homem explicou que havia comprado o carrinho durante os primeiros encontros. Era uma lembrança simbólica da infância da qual nunca participara. Pretendia entregá-lo quando os dois pudessem se encontrar livremente.

A oportunidade nunca chegou.

Ele se aproximou do túmulo e colocou o brinquedo sobre a sepultura, ajeitando-o com extremo cuidado.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Depois seu rosto mudou.

O homem fixou os olhos em algum ponto além da lápide. Levantou lentamente uma das mãos, como se alguém estivesse diante dele. Adelino olhou para o mesmo lugar, mas não viu pessoa alguma.

De repente, o pai caiu de joelhos.

Começou a chorar de maneira profunda, repetindo entre soluços:

—Ele me perdoou. Meu filho me perdoou.

Adelino permaneceu imóvel. Não sabia se aquele homem realmente enxergava Diego, se revivia uma memória ou se apenas encontrara dentro de si uma forma de aceitar o próprio arrependimento.

Mas algo naquela tarde mudou.

A sensação pesada que Adelino ainda carregava desde o enterro desapareceu aos poucos. O pai permaneceu ajoelhado até recuperar a respiração. Quando finalmente se levantou, parecia diferente. Continuava triste, porém já não carregava no rosto a mesma culpa sufocante.

Nos dias seguintes, nada estranho voltou a acontecer perto daquela sepultura.

Nenhum cachorro recusou-se a passar por ali. O vigia nunca mais viu figuras durante a madrugada. Adelino também deixou de sentir aquela angústia inexplicável quando trabalhava naquela parte do cemitério.

Décadas depois, já aposentado, ele ainda pensava no caso.

Nunca afirmou ter visto um espírito. Nunca tentou transformar aquela tarde em prova de alguma coisa. Dizia apenas que presenciara um homem chegar esmagado pelo arrependimento e sair dali carregando uma paz que não possuía antes.

Talvez Diego estivesse realmente perto do túmulo naquele momento.

Talvez não.

Para Adelino, a pergunta deixou de ser a parte mais importante.

O que ficou foi outra lição: algumas pessoas passam anos esperando o momento perfeito para pedir desculpas, fazer uma ligação ou atravessar uma distância criada pelo orgulho. Muitas acreditam que haverá sempre outro dia.

Nem sempre há.

A história daquele pai lhe ensinou que o perdão não apaga o abandono nem devolve o tempo perdido. Também não transforma erros em coisas pequenas. Mas pode impedir que uma vida inteira termine presa ao pior momento do passado.

Adelino nunca esqueceu o carrinho deixado sobre a sepultura.

Era um presente simples, barato e terrivelmente atrasado.

Talvez justamente por isso dissesse tanto.

Representava todos os aniversários perdidos, todas as conversas que não aconteceram e tudo que pai e filho ainda pretendiam reconstruir.

Quando Adelino recordava aquela tarde, não pensava primeiro no cachorro, no vigia ou nas coisas inexplicáveis. Pensava no homem ajoelhado diante do túmulo dizendo que havia sido perdoado.

E sempre chegava à mesma conclusão.

Se existe alguém importante esperando uma palavra sua, talvez seja melhor não deixar para depois.

Porque há silêncios que o tempo cura.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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