Rosa e Rita: As Temidas Bruxas Escravas Tão Perigosas que a Sinhá as Manteve Amordaçadas por 33 Anos

Em 1847, na fazenda Santa Beatriz, no Vale do Paraíba, no estado do Rio de Janeiro, duas mulheres viviam com panos embebidos em vinagre amarrados sobre a boca, não por causa de doença, não como punição temporária, mas por puro medo. Esse era o medo que Constança Bitencur carregava consigo desde que chegara à fazenda como noiva, dezessete anos antes, e encontrara Rosa e Rita trabalhando na casa grande.
O que ela viu naquelas primeiras semanas a levou a tomar uma decisão que ninguém na região conseguia compreender totalmente. Aquelas bocas jamais poderiam ficar descobertas dentro dos limites da propriedade. A fazenda produzia café em escala industrial. Trezentos e quarenta escravizados trabalhavam sob o sol causticante, enquanto a casa grande erguia-se no alto de uma colina suave, pintada de um branco imaculado, com suas janelas de vidro importado refletindo a luz da tarde como olhos vigilantes.
Constança Bitencur não era uma mulher comum para os padrões de sua época. Educada em um colégio interno no Rio de Janeiro, lia em francês e tocava piano com habilidade admirável. Seu casamento com o coronel Bittencur fora arranjado, como era costume, mas ela trazia consigo algo além do dote: uma racionalidade fria que seus parentes atribuiam à educação excessiva.
Ela não acreditava em santos milagreiros. Ria discretamente dos curandeiros que visitavam a fazenda e mantinha os livros de contabilidade com uma precisão matemática que impressionava até o próprio marido. Mas Rosa e Rita a aterrorizavam de uma maneira que ela jamais conseguia explicar racionalmente, nem mesmo para si mesma. Rosa tinha 32 anos quando Constança chegou.
Seus olhos eram de um castanho tão escuro que pareciam pretos, mesmo sob a luz direta do sol, e sua pele tinha o tom profundo de um ébano polido. Rita, sete anos mais jovem, compartilhava da mesma cor de pele, dos mesmos olhos insondáveis, mas era mais alta e tinha mãos notavelmente longas, com dedos que pareciam se mover com autonomia própria quando trabalhavam.
Eram irmãs compradas juntas pelo falecido sogro de Constança em um leilão no porto do Rio de Janeiro em 1828. Vieram no mesmo navio, o brigantim Conceição da Glória, que trouxera 470 africanos em sua última viagem legal antes da proibição do tráfico negreiro. O manifesto as listava como duas mulheres pretas espertas, vindas de Benguela, com marcas de nação e aptas para o serviço doméstico.
O que o manifesto não dizia era que Rosa e Rita falavam sete línguas diferentes. Elas conheciam plantas que não existiam no Brasil e carregavam nos olhos um conhecimento que deixava até os homens mais brutais da fazenda desconfortáveis.
Constança chegou à fazenda Santa Beatriz em uma tarde de março, após uma viagem de três dias desde o Rio de Janeiro. A carruagem balançava violentamente na estrada de terra, e ela desceu segurando firmemente no braço do coronel, com seu vestido de viagem coberto pela poeira vermelha característica daquela região.
A casa grande a impressionou por sua magnitude. Dois pavimentos, uma ampla varanda com colunas de madeira entalhada, móveis que ela reconheceu como importados da Europa. Mas o que realmente chamou sua atenção foram as duas mulheres pretas que aguardavam na entrada dos fundos, responsáveis por receber a nova senhora da casa e levá-la aos seus aposentos.
Rosa e Rita usavam vestidos simples de algodão cru, mas impecavelmente limpos. Seus cabelos estavam cobertos por lenços brancos amarrados com precisão geométrica. Elas não abaixavam os olhos quando Constança olhava diretamente para elas, como era costume entre os escravizados quando observados por seus senhores.
Elas simplesmente a encaravam de volta, com uma intensidade que fazia algo vibrar desconfortavelmente no peito da jovem. Naquela primeira noite, Constança jantou sozinha. O coronel precisara resolver um problema no engenho e só retornaria tarde da noite. A longa mesa de jacarandá parecia estender-se infinitamente sob a luz trêmula das velas de sebo.
Rosa servia o jantar com movimentos precisos, colocando os pratos em silêncio, retirando-se para a cozinha e retornando no momento exato em que Constança terminava cada prato da refeição. Ela nunca precisava chamar. Era como se Rosa soubesse exatamente quando seria necessária. Rita trabalhava na cozinha, mas Constança podia ouvi-la cantarolando suavemente, uma melodia em um idioma que definitivamente não era o português, nem qualquer variação de línguas africanas que ela conhecia das outras fazendas que visitara.
O som era perturbador, não por ser desagradável, mas porque parecia carregar um peso, uma densidade que tornava o ar da sala de jantar mais espesso. Na terceira noite, Constança acordou com sede. A casa estava em absoluto silêncio, aquele silêncio rural profundo a que as mulheres criadas na cidade nunca se acostumam totalmente.
Ela desceu as escadas segurando um candelabro. Seus pés descalços tocavam o piso frio de tábuas largas. A porta da cozinha estava entreaberta, e havia luz lá dentro, a luz fraca e amarelada de um lampião a óleo. Constança aproximou-se em silêncio e espiou pela fresta. Rosa e Rita estavam sentadas a uma mesa com ervas espalhadas diante delas.
Folhas que Constança não reconhecia, raízes retorcidas ainda presas à terra, sementes de vários tamanhos dispostas em pequenos montes organizados. Elas falavam em voz baixa, naquele mesmo idioma estranho que Constança ouvira antes. Mas o que a fez congelar no lugar não foi a língua desconhecida, foi o que aconteceu em seguida.
Rosa pegou uma das sementes, segurou-a entre o polegar e o indicador e começou a falar diretamente com ela. Sua voz mudou completamente, tornando-se mais grave, mais ressonante, como se viesse de algum lugar dentro de seu peito, e não da garganta. As palavras fluíam em um ritmo medido, quase musical, mas carregavam uma autoridade que Constança nunca ouvira de uma pessoa escravizada.
Rita respondeu no mesmo tom, pegando outra semente e fazendo o mesmo. E então, algo que Constança tentaria racionalizar pelos dezessete anos seguintes sem sucesso, as sementes começaram a se mover; elas não rolaram, não foram levadas pelo vento. Simplesmente deslizaram pela superfície da mesa de madeira, como se empurradas por dedos invisíveis, formando padrões geométricos complexos.
Rosa e Rita não as tocavam, apenas falavam, e as sementes respondiam aos sons que saíam de suas bocas. Constança recuou em silêncio, subiu as escadas, segurando firmemente o candelabro para controlar o tremor nas mãos, e entrou no quarto. O coronel ainda dormia profundamente, roncando baixinho.
Ela deitou-se ao lado dele, mas não conseguiu fechar os olhos até o amanhecer. No dia seguinte, durante o café da manhã, ela observou Rosa servir o chocolate quente com a mesma eficiência de sempre. Nada em seu rosto indicava que algo extraordinário acontecera na noite anterior. Constança pensou em contar ao marido, mas o que exatamente diria? Que viu sementes se moverem sozinhas, que ouviu duas escravas falarem uma língua que parecia ter poder sobre objetos inanimados? Ela própria não acreditava totalmente no que vira. Talvez fosse o cansaço da viagem. Talvez a luz fraca do lampião tivesse criado ilusões. Talvez houvesse uma explicação racional que ela simplesmente não conseguia ver naquele momento.
Mas então o capataz principal, um português chamado Gonçalo Ferreira, desapareceu. Ele era um homem brutal, conhecido por usar o chicote com entusiasmo excessivo e por abusar sexualmente de mulheres escravizadas mais jovens sempre que tinha oportunidade.
Em uma manhã de quinta-feira, ele simplesmente não apareceu para o trabalho. Sua casa, uma pequena estrutura de pau a pique localizada perto do engenho, estava aberta, a cama desfeita, a comida ainda fria sobre a mesa, mas nenhum sinal de Gonçalo. O coronel organizou buscas que duraram três dias. Revistaram a mata ao redor da fazenda, interrogaram todos os escravizados e enviaram mensageiros às fazendas vizinhas. Nada.
Gonçalo Ferreira simplesmente deixara de existir. Na noite anterior ao desaparecimento, o capataz tivera um confronto com Rosa. Ele entrara bêbado na cozinha da casa grande, algo estritamente proibido, e tentara agarrá-la. Rita estava lá, preparando o jantar. O que aconteceu em seguida foi testemunhado por Mukama Josefa, uma jovem de 15 anos que trabalhava na casa havia três meses.
Josefa contaria mais tarde, em prantos, que Rosa simplesmente olhou para o capataz e disse três palavras, apenas três palavras naquela língua estranha que ninguém compreendia. Gonçalo Ferreira congelou no lugar. Seu rosto perdera toda a cor. Ele começou a tremer violentamente, como se tivesse mergulhado em água gelada. E então fugiu correndo da cozinha, tropeçando nos próprios pés.
Vinte e quatro horas depois, ele estava desaparecido. Josefa jurou a Constança que nunca mais ouvira Rosa falar com aquela voz, que nunca mais ouvira aquelas três palavras, mas que acordava todas as noites sonhando com elas, com o som ecoando dentro de sua cabeça, mesmo sem compreender o significado. Constança interrogou Rosa pessoalmente, sentou-se na sala de estar, chamou-a e exigiu explicações.
Rosa entrou de cabeça baixa, mas quando Constança pediu que ela erguesse o rosto, encontrou novamente aqueles olhos escuros e insondáveis.
— O que você disse ao Gonçalo? — perguntou Constança, tentando manter a voz firme.
Rosa respondeu em um português perfeito, sem sotaque, sem nenhum traço de alguém que aprendera a língua já adulta:
— Eu disse a ele que ele não era bem-vindo naquela cozinha daquele jeito.
— Ah, Josefa disse que você falou em outra língua — insistiu Constança. — Disse três palavras que ela não entendeu.
Rosa permaneceu em silêncio por um longo momento, com os olhos fixos nos de Constança. E então respondeu com uma simplicidade perturbadora:
— Algumas palavras não foram feitas para ser compreendidas, mas apenas para ser ouvidas por quem precisa ouvi-las.
Essa resposta definiu tudo. Constança dispensou Rosa e passou a noite inteira acordada ao lado do marido adormecido, ponderando sobre as implicações do que acabara de ouvir. Não era a admissão de uma escrava ignorante que acreditava em superstições. Era a declaração calma de alguém que sabia exatamente o que estava dizendo, que compreendia perfeitamente o poder contido naquelas três palavras incompreensíveis.
Na manhã seguinte, Constança tomou sua decisão, chamou o coronel para uma conversa particular em seu escritório, fechou a porta com cuidado e disse algo que mudaria completamente a dinâmica da fazenda Santa Beatriz pelos 33 anos seguintes:
— Essas duas precisam ter a boca tapada permanentemente.
O coronel olhou para ela com a expressão de quem acabara de ouvir algo completamente absurdo.
— Você tem noção do que está dizendo? — perguntou ele, largando a pena com que escrevia uma carta para os fornecedores no porto.
Constança foi incapaz de explicar racionalmente. Tentou falar sobre as sementes que se moviam, sobre o desaparecimento de Gonçalo, sobre aquela língua estranha que parecia carregar um peso impossível, mas as palavras saíam desconexas, quase histéricas, completamente diferentes da mulher racional e controlada que o coronel conhecia.
Ele a observava com crescente preocupação, mas também com aquela condescendência típica dos homens daquela época diante das fragilidades femininas.
— Elas são apenas escravas, minha querida — disse ele por fim, com a paciência de quem explica o óbvio a uma criança. — Mulheres pretas do litoral que ainda carregam suas crenças pagãs. Isso passa com o tempo, com o batismo, com a civilização.
Mas Constança não cedeu. Ela era filha única de um comerciante próspero, criada para administrar propriedades e tomar decisões difíceis. Sabia negociar, sabia quando insistir e quando recuar estrategicamente.
— Então me dê autoridade sobre elas — propôs ela. — Deixe-me gerenciar Rosa e Rita da maneira que eu achar melhor. Se eu estiver errada, se isso for apenas superstição de uma mulher nervosa, como você sugere, nada de mal acontecerá. Mas se eu estiver certa… — ela deixou a frase deliberadamente inacabada.
O coronel suspirou, coçou a barba grisalha e acabou concordando. Não porque acreditasse na esposa, mas porque manter a paz doméstica era mais importante do que duas escravas domésticas em uma propriedade com mais de trezentas pessoas. Naquela mesma tarde, Constança ordenou que fossem feitas as primeiras mordaças.
Chamou o seleiro da fazenda, um homem livre chamado Alberto que trabalhava consertando arreios e selas, e encomendou duas peças específicas: tiras largas de algodão branco que pudessem ser amarradas firmemente sobre a boca, com um mecanismo de nós na parte de trás da cabeça que permitisse a remoção apenas por terceiros. Alberto olhou para ela com evidente confusão, mas não questionou. Os senhores tinham seus próprios métodos peculiares de disciplina, e não cabia a ele julgar, apenas executar.
As mordaças ficaram prontas em dois dias. Constança instruiu que ambas fossem embebidas em vinagre de vinho, algo que aprendera com a mãe como método de preservar tecidos em climas úmidos. O vinagre também tinha outra função, embora Constança jamais admitisse em voz alta: o cheiro forte lembrava constantemente a Rosa e Rita a condição delas, que suas bocas já não lhes pertenciam.
Rosa foi a primeira a ser amordaçada. Constança a chamou na sala logo após o café da manhã, com Rita ao lado. O coronel estava presente, embora a contragosto, encostado no batente da porta, com os braços cruzados e uma expressão de desconforto mal disfarçada.
— A partir de hoje — anunciou Constança, segurando as tiras de algodão com ambas as mãos —, vocês duas usarão isto sobre a boca enquanto estiverem dentro dos limites desta propriedade. Só poderão ser retiradas para as refeições e estritamente sob supervisão. Para beber água, apenas com supervisão. Se alguma de vocês for vista sem isto, sem autorização expressa, haverá consequências graves.
Rosa a encarava diretamente. Não havia medo em seus olhos, nem raiva, apenas aquela mesma intensidade perturbadora que Constança já conhecia.
— Posso perguntar o motivo? — disse Rosa, com a voz perfeitamente calma.
Constança sentiu as mãos tremerem levemente, mas respondeu com toda a firmeza que conseguiu reunir:
— Porque as palavras de vocês são perigosas, e bocas perigosas precisam ser controladas.
Rita deu um passo à frente. Pela primeira vez desde que chegara à fazenda, Constança ouvia sua voz diretamente. Era mais grave do que esperava, com uma qualidade ressonante, semelhante à de Rosa.
— Nossas palavras só são perigosas para quem merece ouvi-las — disse Rita.
E havia algo naquela frase que fez até o coronel se mexer desconfortavelmente na porta. Constança sentiu o medo subir pela espinha. Mas transformou esse medo em autoridade.
— Silêncio — ordenou ela, com a voz soando mais alta do que pretendia. — Aproxime-se agora!
Rosa e Rita trocaram um olhar. Era uma comunicação silenciosa, complexa, carregada de significados que Constança não conseguia decifrar. E então, surpreendentemente, elas obedeceram. Rosa aproximou-se primeiro, postou-se diante de Constança e inclinou levemente a cabeça para a frente, em uma postura submissa que parecia completamente contraditória à intensidade de seus olhos.
Constança amarrou a mordaça com as mãos tremendo mais do que gostaria de admitir. O tecido cobriu a boca de Rosa completamente, atado com firmeza suficiente para ficar seguro, mas não a ponto de causar dor. O cheiro de vinagre invadiu o ar. Rita foi a seguir. Ela era mais alta que a irmã, e Constança precisou esticar os braços para alcançar a parte de trás de sua cabeça e dar os nós.
Durante todo o processo, Rita manteve os olhos fechados, mas seus lábios moveram-se silenciosamente nos breves segundos antes de Constança colocar o tecido. Constança viu. E embora não houvesse som, embora Rita não tivesse pronunciado uma única palavra em voz alta, Constança sentiu algo mudar no ar da sala. Um pico de pressão ocorreu, como se a temperatura tivesse despencado alguns graus, como se o peso do ar tivesse aumentado imperceptivelmente.
O coronel também sentiu, mudando de posição na porta e olhando ao redor da sala com uma expressão de inquietação que não conseguia explicar.
— Pronto — disse Constança, dando um passo para trás e observando as duas mulheres agora amordaçadas diante de si. — Voltem ao trabalho.
Rosa e Rita viraram-se em perfeita sincronia e deixaram a sala sem olhar para trás. O coronel esperou que elas sumissem pelo corredor antes de falar:
— Tem certeza disso?
Constança não respondeu imediatamente. Ela encarava a porta vazia, o espaço onde Rosa e Rita estiveram segundos antes, e então disse com uma convicção cuja origem ela mesma desconhecia:
— Tenho.
Os primeiros meses foram um período de ajuste. Rosa e Rita continuaram cumprindo suas funções na casa grande com a mesma eficiência de sempre. Serviam as refeições, limpavam os quartos, lavavam a roupa e cozinhavam pratos que impressionavam até os hóspedes mais exigentes. Mas havia uma diferença palpável na atmosfera da casa.
Os outros escravizados domésticos, as jovens criadas e os rapazes que trabalhavam no paiol começaram a olhar para Rosa e Rita com uma mistura de pena e medo. Pena, porque viam duas mulheres forçadas a usar aquelas mordaças embebidas em vinagre dia após dia. Medo, porque mesmo amordaçadas, mesmo silenciadas, Rosa e Rita mantinham aquela presença perturbadora que parecia preencher qualquer ambiente em que estivessem.
Josefa, a criada que testemunhara o confronto com Gonçalo, desenvolveu o hábito nervoso de fazer o sinal da cruz sempre que passava por elas. Outras mulheres escravizadas começaram a deixar pequenas oferendas na porta da senzala onde Rosa e Rita dormiam — frutas, flores, sementes. Constança descobriu isso três meses depois e ordenou que parassem imediatamente, mas as oferendas continuaram, apenas mais escondidas, mais discretas.
O primeiro incidente grave ocorreu seis meses após a imposição das mordaças. Um dos capatazes, um homem chamado Joaquim Pereira, começou a adoecer estranhamente. Primeiro, foram febres intermitentes que sempre apareciam ao cair da tarde e desapareciam ao amanhecer. Depois, úlceras na pele surgiram sem causa aparente e não respondiam a nenhum tratamento.
O médico da vila, chamado à fazenda duas vezes, foi incapaz de diagnosticar algo específico. Disse que podia ser malária ou alguma febre tropical desconhecida, ou talvez apenas o calor excessivo daquela região combinado com a alimentação precária. Mas os escravizados sabiam a verdade. Todos sabiam.
Joaquim cuspira em Rosa duas semanas antes. Ela carregava um balde d’água da fonte para a cozinha. Bêbado naquela tarde, ele tropeçara e a culpará por seu próprio descuido. Cuspirá em seu rosto com toda a força, chamando-a de bruxa, de macaca, de todos os insultos que um homem embriagado consegue destilar. Rosa simplesmente limpou o rosto com a manga do vestido, ajeitou a mordaça que saíra ligeiramente do lugar com o impacto e continuou andando. Não disse nada, não podia dizer nada, mas seus olhos encararam Joaquim com uma intensidade que fez três pessoas que testemunharam a cena recuarem instintivamente.
Joaquim Pereira morreu cinco semanas depois. As úlceras haviam se espalhado por todo o seu corpo, infeccionando, exudando e transformando sua pele em uma massa necrótica que exalava um odor putrefato sentindo a metros de distância. Ele gritava durante as noites, gritos que acordavam a senzala inteira e parte da casa grande. Gritava que via coisas, que ouvia vozes, que sentia mãos tocando seu corpo, mesmo quando estava completamente sozinho no quarto.
No dia de sua morte, delirando com febre altíssima, ele chamou por Rosa. Suplicou que ela viesse, dizendo que precisava pedir perdão. Constança, pressionada pela esposa de Joaquim, que também trabalhava na fazenda, acabou cedendo. Mandou chamar Rosa e a levou até o quarto malcheiroso onde o capataz agonizava.
Rosa entrou com a mordaça encharcada em vinagre, firmemente presa, com os olhos observando o homem que definhava na cama com uma expressão totalmente neutra. Joaquim estendeu uma mão trêmula em sua direção, os olhos amarelados, cheios de lágrimas e pavor.
— Por favor — conseguiu sussurrar com voz rouca. — Por favor, tire esta maldição.
Rosa o observou por um longo momento. Depois, lentamente, balançou a cabeça de um lado para o outro.
— Não.
Joaquim Pereira morreu três horas depois, ainda implorando por uma misericórdia que nunca chegou. A morte de Joaquim mudou tudo na fazenda Santa Beatriz. Não porque os escravizados tivessem passado a temer mais a Rosa e Rita — esse medo já existia desde o desaparecimento de Gonçalo Ferreira.
A mudança ocorreu no próprio coronel. Ele, que antes descartara a obsessão da esposa pelas duas escravas como um capricho feminino sem fundamento, passou a observá-las com um tipo diferente de atenção. Começou a notar pequenos detalhes que antes ignorava. Os outros escravizados baixavam a cabeça quando as mulheres passavam, não por respeito aos senhores, mas por algo mais primitivo e instintivo.
Até os cães da fazenda, animais treinados para serem agressivos com qualquer pessoa preta que se aproximasse sem permissão, ficavam silenciosos e submissos quando Rosa e Rita apareciam. A forma como as galinhas no terreiro paravam de ciscar e ficavam completamente imóveis quando elas caminhavam por perto. Eram detalhes pequenos, fáceis de ignorar individualmente, mas que juntos formavam um padrão perturbador.
Três semanas após o enterro de Joaquim, o coronel teve uma conversa com Constança que jamais imaginara ter. Era após o jantar, na privacidade do quarto, enquanto ela escovava os cabelos em frente ao espelho e ele fumava seu charuto habitual, sentado na poltrona perto da janela.
— Você acha que elas realmente têm algum poder? — perguntou ele por fim, as palavras saindo com dificuldade, como se fossem fisicamente difíceis de pronunciar.
Constança parou de escovar o cabelo e olhou para ele através do reflexo no espelho. Era a primeira vez em quase um ano que ele validava diretamente suas preocupações.
— Eu não sei o que elas têm — respondeu ela com cuidado. — Não sei se é poder, se é conhecimento, se é apenas uma coincidência muito conveniente, mas eu sei que tenho medo delas, um medo que não consigo explicar nem controlar, e sei que não estou sozinha nesse medo.
O coronel deu uma longa tragada no charuto, observando a fumaça subir languidamente em direção ao teto.
— Padre Anselmo virá na próxima semana para as bênçãos de fim de ano — disse ele por fim. — Vou pedir que ele as examine, que realize um exorcismo se necessário. Se houver alguma influência demoníaca nesta casa, precisamos eliminá-la.
Padre Anselmo chegou em uma tarde de quinta-feira de dezembro, quando o calor era tão intenso que até os urubus voavam baixo procurando sombra. Ele era um homem corpulento, de bochechas permanentemente vermelhas, resultado de anos consumindo quantidades generosas de vinho litúrgico. Tinha fama na região de ser rigoroso em questões de fé, conhecido por identificar possessões demoníacas e práticas de bruxaria entre os escravizados com alarmante frequência.
O coronel o recebeu pessoalmente, explicou a situação com cuidado, omitindo os detalhes mais fantásticos, mas enfatizando o comportamento estranho de Rosa e Rita, e as mortes e desaparecimentos que pareciam perseguir quem quer que as confrontasse diretamente. O padre ouviu tudo com uma expressão que alternava entre o interesse genuíno e o ceticismo profissional.
— Traga-as à capela amanhã ao amanhecer — instruiu ele por fim. — Eu as examinarei devidamente à luz de Deus e com os instrumentos da Santa Madre Igreja.
Na manhã seguinte, Constança foi pessoalmente à senzala, onde Rosa e Rita dormiam. Era um prédio separado dos demais, algo que o falecido sogro mandara construir especificamente para elas quando as comprara, reconhecendo que seu papel de escravas domésticas exigia certa distância dos trabalhadores da lavoura. A senzala tinha paredes de pau a pique rebocadas e piso de terra batida coberto com esteiras de palha.
Rosa e Rita já estavam acordadas, sentadas lado a lado em seus jericos simples, com as mordaças devidamente atadas. Elas olharam para Constança quando ela entrou, mas não se moveram.
— Padre Anselmo quer examiná-las — anunciou Constança, tentando manter a voz firme. — Vistam-se adequadamente e sigam-me para a capela.
As duas mulheres levantaram-se em sincronia, pegaram seus vestidos limpos de domingo — uma cortesia que Constança fizera questão de manter para preservar as aparências quando havia visitantes importantes — e vestiram-se com movimentos precisos e mecânicos. A caminhada até a capela foi silenciosa. Constança ia na frente; Rosa e Rita seguiam três passos atrás, conforme o apropriado.
O sol começava a nascer, tingindo o céu com tons de laranja e vermelho, o que fazia as nuvens parecerem feridas abertas, sangrando luz. A capela da fazenda era pequena, mas bem cuidada, com bancos de madeira simples e um altar modesto decorado com uma imagem de São Benedito, o padroeiro dos pretos — uma escolha política feita pelo falecido sogro de Constança, que acreditava que isso apaziguaria os escravizados.
Padre Anselmo já estava lá, vestido com sua batina preta, cercado pelos instrumentos de seu ofício: um grande crucifixo de prata, água benta, uma tigela de cerâmica, uma Bíblia gasta pelo uso e algo que Constança não esperava ver: um pequeno chicote de couro trançado, conhecido como disciplina, tradicionalmente usado para autoflagelação penitencial, mas que alguns padres da época também aplicavam em exorcismos.
— Aproximem-se — ordenou o padre assim que Rosa e Rita entraram. Sua voz ecoou nas paredes nuas da capela.
Elas obedeceram, parando a dois metros do altar. O padre as observou por um longo tempo, dando voltas ao redor delas como um comprador examinando gado em um leilão.
— Tirem as mordaças — disse ele por fim, olhando para Constança.
Ela sentiu o estômago se apertar.
— Padre, acho que isso não é prudente.
— Eu dei a ordem — interrompeu ele com uma autoridade clerical que não admitia contestação. — Como posso determinar se há possessão demoníaca sem ouvir o que sai daquelas bocas?
Constança aproximou-se primeiro de Rosa, com as mãos visivelmente trêmulas ao desatar os nós na parte de trás da cabeça. O tecido embebido em vinagre soltou-se com um som úmido, revelando os lábios de Rosa pela primeira vez em quase um ano. Seus lábios estavam ligeiramente pálidos pela pressão constante do tecido, mas não machucados. Rosa moveu o queixo de um lado para o outro, estalando as articulações, mas não disse nada.
Constança repetiu o processo com Rita, e logo as duas estavam ali completamente desamordaçadas, com as bocas livres pela primeira vez em trezentos e sessenta e dois dias. Padre Anselmo pegou o crucifixo de prata e ergueu-o diante delas.
— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo! — começou ele, com voz estentórea. — Eu ordeno que qualquer espírito maligno que habite estes corpos se manifeste agora e deixe estes vasos imediatamente!
Silêncio. Rosa e Rita apenas o encaravam com aqueles olhos escuros e ilegíveis. O padre continuou recitando passagens em latim, borrifando água benta que salpicava seus rostos e roupas, pressionando o crucifixo contra suas testas com força suficiente para deixar marcas vermelhas na pele. Nada aconteceu — nenhuma reação violenta, nenhum grito, nenhuma manifestação demoníaca dramática, ao contrário das histórias que circulavam sobre exorcismos bem-sucedidos.
Após quase uma hora, o padre baixou o crucifixo, visivelmente frustrado.
— Digam alguma coisa — ordenou ele. — Quero ouvir as vozes de vocês.
Rosa olhou para Constança primeiro, como se pedisse permissão. Constança sentiu o coração disparar, mas fez um leve sinal com a cabeça. Rosa virou-se para o padre e falou naquela voz que Constança conhecia tão bem, aquela voz perfeitamente modulada e sem sotaque:
— O que o senhor gostaria que disséssemos, padre?
Não havia desafio no tom, nenhuma ironia, apenas uma pergunta direta, quase inocente. Mas havia algo na maneira como ela falou que fez o padre dar instintivamente meio passo para trás.
— Vocês praticam feitiçaria? — perguntou ele diretamente. — Invocam demônios, fazem pactos com as forças das trevas?
Foi Rita quem respondeu desta vez, com sua voz mais grave que a da irmã:
— Nós sabemos de coisas, padre. Coisas que nossos ancestrais sabiam, coisas que vieram conosco através do grande oceano salgado. Mas chamar isso de feitiçaria seria como chamar as suas preces de feitiçaria. São apenas palavras, padre. Apenas palavras que carregam peso.
Padre Anselmo ruborizou-se.
— Blasfêmia! — trovejou ele. — Comparar práticas pagãs com as preces sagradas da Igreja é blasfêmia da pior espécie!
Ele virou-se para Constança, respirando pesadamente.
— Essas mulheres são perigosas. Não porque estejam possuídas por demônios, mas porque carregam um conhecimento que não deveria existir em terras cristãs. Conhecimento que veio da África, daquela terra pagã onde Satanás ainda reina livre. Elas precisam ser controladas estritamente, e suas bocas devem permanecer fechadas. Você tinha razão, minha filha.
Houve algo de satisfatório nessa validação, embora Constança jamais admitisse em voz alta. O próprio padre, representante de Deus na Terra, confirmava que suas ações não eram produto de paranoia feminina, mas medidas necessárias diante de um perigo real.
— E se elas se recusarem a usar as mordaças? — perguntou Constança, mais por protocolo do que por preocupação genuína, já que Rosa e Rita jamais haviam resistido.
O padre olhou para as duas mulheres com uma expressão de desdém frio:
— Então serão punidas como qualquer escrava desobediente: com o chicote, com o tronco, com o que for necessário, até que aceitem a sua condição.
Rosa e Rita trocaram um olhar. Foi breve, quase imperceptível, mas Constança viu, e o padre também viu. E ambos sentiram que algo fora comunicado naquela fração de segundo, algo importante que eles não conseguiriam interceptar por mais que tentassem.
— Não será necessário — disse Rosa calmamente. — Nós usaremos as mordaças conforme a senhora determinou. Não há resistência de nossa parte.
Rita concordou com um aceno de cabeça.
— Apenas uma pergunta, padre — disse ela, mantendo a voz com aquele tom profundo e ressonante. — Se as palavras são tão perigosas quanto o senhor acredita, por que Deus nos deu bocas? Por que nos ensinou a falar? Por que permitiu que trouxéssemos esse conhecimento através do oceano se não devíamos usá-lo?
A pergunta pairou no ar da capela como fumaça densa. Padre Anselmo não teve resposta imediata. Abriu a boca, fechou-a, abriu-a novamente e finalmente disse com a autoridade de quem não precisa justificar contradições:
— Os caminhos de Deus são misteriosos, e não cabe a criaturas como vocês questioná-los. Deus permite a existência do mal para testar os fiéis. Vocês são esse teste para esta fazenda.
Constança recolocou pessoalmente as mordaças ali mesmo na capela, sob o olhar atento do padre Anselmo. Ela atou os nós mais apertado do que o necessário, com as mãos ainda tremendo levemente. Quando terminou, Rosa e Rita viraram-se e deixaram a capela sem olhar para trás, com passos perfeitamente sincronizados, seus vestidos balançando no ritmo exato de sua marcha.
O padre as observou partir e depois voltou-se para Constança com expressão grave:
— Estas duas não são criaturas comuns. Elas não estão possuídas por demônios porque não precisam estar. Elas mesmas são a manifestação de algo mais antigo, algo que existia antes de Cristo trazer a luz ao mundo. Mantenha-as amordaçadas. Mantenha-as vigiadas. E reze, minha filha, reze para que elas nunca decidam realmente usar o que sabem.
Ele partiu da fazenda naquela mesma tarde, recusando o convite do coronel para o jantar, dizendo que precisava retornar urgentemente à sua paróquia. Constança o viu partir de uma das janelas do segundo andar, com a carruagem levantando poeira vermelha na estrada de terra, e sentiu que havia cruzado alguma linha invisível da qual não havia retorno.
Os anos passaram com aquela regularidade monótona que apenas a vida rural do século XIX conseguia produzir. A fazenda Santa Beatriz prosperou. O café era colhido em quantidades cada vez maiores, os preços no mercado internacional permaneceram favoráveis, e o coronel Bittencur consolidou-se como um dos proprietários de terras mais respeitados do Vale do Paraíba.
Constança engravidou três vezes nesse período. O primeiro filho, um menino chamado Francisco, nasceu robusto em 1849 e cresceu forte como o pai. A segunda gravidez, em 1851, terminou em um aborto espontâneo no quinto mês, deixando Constança prostrada por semanas. A terceira, em 1853, trouxe uma menina que chamaram de Beatriz em homenagem à fazenda.
Através de todas essas mudanças, de todas as alegrias e tragédias que marcam uma vida humana, Rosa e Rita permaneceram constantes — amordaçadas, silenciosas, trabalhando com a mesma eficiência de sempre, como se os anos não passassem para elas da mesma forma que passavam para os outros.
Mas algo estava mudando em Rosa e Rita que demorou a ser notado. Era sutil demais no início. Uma lentidão quase imperceptível em seus movimentos, uma leve curvatura nas costas que antes não existia, fios grisalhos aparecendo sobre os lenços. Em 1860, treze anos após a primeira mordaça, Rosa tinha 45 anos e Rita, 38.
A escravidão envelhece as pessoas mais rápido do que a liberdade; isso era um fato conhecido. Mas o envelhecimento delas parecia diferente. Não eram apenas os corpos cedendo sob anos de trabalho pesado; havia algo mais profundo, como se algo dentro delas estivesse sendo lentamente consumido, queimado como o óleo em um lampião que nunca se apaga, mas cuja luz diminui gradualmente com o tempo.
Constança percebeu isso pela primeira vez durante um inverno particularmente frio, quando chamou Rosa para ajudá-la a vestir um dos vestidos mais elaborados para um baile na fazenda vizinha. As mãos de Rosa tremiam levemente enquanto ela abotoava as costas do vestido — tremiam não de frio, mas de algo que parecia uma exaustão fundamental.
Francisco, que na época tinha 11 anos, desenvolveu uma relação peculiar com Rosa e Rita. Ele crescera vendo-as amordaçadas; portanto, para ele, aquilo era perfeitamente normal. Ele não sabia que havia outra maneira de elas existirem, mas tinha uma curiosidade infinita, aquela curiosidade típica de crianças inteligentes que não aceitam explicações superficiais.
Certa tarde, Constança o encontrou sentado na cozinha, observando Rita preparar doce de abóbora. Ele a encarava com uma intensidade desconcertante, estudando cada movimento de suas mãos enquanto ela cortava a abóbora em cubos perfeitos.
— Mãe — perguntou ele quando Constança entrou. — Por que Rosa e Rita usam aqueles panos na boca?
Era a primeira vez que ele fazia essa pergunta diretamente. Constança sentiu o peso de ter de explicar algo que ela própria não compreendia totalmente.
— Porque as palavras delas são perigosas, meu filho — respondeu ela, usando a mesma justificativa que dera ao coronel tantos anos antes.
Francisco olhou para Rita, que continuava cortando a abóbora sem parar, e depois de volta para a mãe:
— Mas palavras são apenas sons. Como um som pode ser perigoso se você não deixa que ele seja?
A pergunta pairou por dias. Ela não tinha uma resposta satisfatória; tinha o medo, tinha a convicção, tinha anos de comportamento condicionado, mas não tinha uma resposta lógica que agradasse à mente racional de um menino de 11 anos. Essa falta de resposta a incomodava mais do que gostaria de admitir.
Em 1863, quando o debate sobre a abolição da escravidão começou a ganhar força, mesmo nas províncias mais conservadoras, o coronel teve longas conversas com outros fazendeiros sobre o futuro do trabalho. A Lei Eusébio de Queirós, de 1850, já pusera fim ao tráfico negreiro atlântico, e agora se falava em liberdade para os ventre-livres, em compensações, em transição gradual.
O coronel era pragmático; sabia que o sistema mudaria eventualmente, mas acreditava que ainda tinha pelo menos duas décadas pela frente antes de mudanças verdadeiramente significativas. Durante uma dessas conversas, após o jantar com outros dois fazendeiros, alguém mencionou Rosa e Rita.
— Fiquei sabendo das suas escravas amordaçadas — disse um dos visitantes, um homem chamado Antônio Carneiro, que possuía terras três léguas ao norte. — Dizem que você as mantém assim há mais de quinze anos. Isso é verdade?
O coronel confirmou com um aceno de cabeça, acendendo seu charuto habitual.
— Dezesseis anos em julho — disse ele simplesmente.
Carneiro assobiou baixinho.
— E elas nunca resistiram, nunca tentaram fugir, nunca… — Nunca — respondeu o coronel. — Aceitaram a situação desde o primeiro dia.
O outro visitante, um homem mais jovem chamado Pedro Valença, inclinou-se para a frente com evidente interesse:
— E funcionou? Digo, a razão original das mordaças ainda existe?
O coronel trocou um olhar com Constança, que estava sentada em sua cadeira fazendo bordado, mas obviamente ouvindo cada palavra.
— Não houve mais incidentes — disse ela finalmente. — Nenhuma morte inexplicável, nenhum desaparecimento, nada de estranho desde que as mordaças foram colocadas.
Carneiro riu, um som grave que ecoou na sala de jantar.
— Então funcionou? Você domesticou as bruxas, coronel.
Mas Constança não riu, porque sabia, com uma certeza que não conseguia explicar, que Rosa e Rita não haviam sido domesticadas; estavam apenas esperando — esperando por algo que ela não conseguia identificar, mas que sentia aproximar-se como uma tempestade no horizonte.
Em 1867, vinte anos após os primeiros decretos de mordaça, Rosa completou 60 anos — uma idade impressionante para uma pessoa escravizada, considerando as condições de vida e trabalho. Mas ela estava visivelmente debilitada. Seus movimentos tornaram-se lentos, suas mãos tremiam constantemente, e havia uma palidez em sua pele que sugeria que alguma doença a consumia por dentro.
Rita, com 53 anos, estava em condições ligeiramente melhores, mas também mostrava sinais claros de declínio. O médico da vila, convocado a examiná-las a pedido de Constança — já que representavam um investimento considerável, afinal —, não encontrou nada específico. Diagnosticou debilidade com a certeza de quem não precisa ser muito preciso quando se trata de escravos, e talvez com um toque de melancolia:
— Velhos pretos às vezes desenvolvem uma tristeza profunda que os consome. Não há muito o que fazer além de deixá-las descansar mais.
Constança reduziu as tarefas delas. Pôs outras escravas mais jovens para fazer o trabalho pesado, mantendo Rosa e Rita apenas em funções leves de supervisão e no preparo de pratos especiais que exigiam mais técnica do que força física.
Francisco estava com 19 anos agora e estudava Direito no Rio de Janeiro. Retornava à fazenda apenas durante as férias, trazendo consigo ideias progressistas sobre a abolição que faziam o coronel revirar os olhos, mas que secretamente deixavam Constança pensativa. Durante uma dessas visitas, em dezembro de 1867, Francisco teve uma conversa com Rita que mudaria sua perspectiva para sempre.
Ele a encontrou sozinha na despensa, organizando potes de conserva com aquelas mãos trêmulas que insistiam em continuar trabalhando mesmo quando o corpo implorava por descanso.
— Rita — disse ele, fechando a porta atrás de si. — Posso lhe fazer uma pergunta?
Rita virou-se para ele, com a mordaça embebida em vinagre no lugar de sempre, os olhos já empapados pela idade, mas ainda carregando aquela intensidade que Francisco lembrava da infância.
— Se você pudesse falar livremente — começou Francisco, escolhendo as palavras com cuidado, sem aquela mordaça, sem medo de consequências —, o que você diria?
Rita o observou por um longo momento. Depois, lentamente, ergueu uma mão e tocou a mordaça com os dedos trêmulos. Seus olhos encheram-se de lágrimas — a primeira emoção verdadeiramente humana e vulnerável que Francisco jamais vira nela. Ela não podia responder, obviamente, mas não precisava. A resposta estava ali, naqueles olhos marejados, naqueles dedos tocando o tecido que silenciava sua voz havia vinte anos.
Francisco sentiu algo quebrar dentro de si naquele momento, uma compreensão súbita e devastadora da crueldade específica que sua família perpetrara. Não apenas a crueldade genérica da escravidão, que já era terrível o suficiente, mas algo mais refinado e psicologicamente brutal: silenciar completamente alguém por duas décadas. Roubar não apenas a liberdade do corpo, mas a liberdade da voz, da expressão, do direito mais básico de um ser humano de simplesmente falar.
— Me desculpe — disse ele, sabendo que as palavras eram totalmente inadequadas. — Me desculpe pelo que fizemos a você e a Rosa.
Rita limitou-se a balançar levemente a cabeça, limpou as lágrimas com as costas da mão e voltou a organizar os potes de conserva. A conversa terminara, mas seus efeitos ecoaram por meses na consciência de Francisco. Ele confrontou a mãe na mesma noite, encontrando Constança em seu quarto, lendo à luz de um lampião a óleo, e disparou sem preâmbulos:
— A senhora precisa tirar aquelas mordaças.
Constança ergueu lentamente os olhos do livro.
— Francisco, você não entende. — Eu entendo perfeitamente — interrompeu ele, com a voz carregada de uma paixão que ela reconheceu como perigosamente semelhante à sua própria quando jovem. — Eu entendo que a senhora tem medo de duas mulheres velhas e debilitadas que passaram vinte anos em silêncio forçado. Eu entendo que esse medo é tão irracional quanto qualquer superstição que a senhora critica nos outros. E eu entendo que manter essa situação por mais um dia é uma crueldade desnecessária.
Constança fechou o livro com um som seco:
— Você não estava lá quando Gonçalo desapareceu. Não viu Joaquim Pereira apodrecendo vivo. Não ouviu aquela língua que elas falam, aquelas palavras que parecem ter peso físico.
Francisco sentou-se na beirada da cama, forçando a voz a ser mais calma:
— Mãe, já se passaram vinte anos. Vinte anos! Se elas realmente tivessem todo esse poder, a senhora não acha que… que já o teriam usado contra o senhor, contra o pai, contra qualquer um nesta casa?
Era um argumento lógico, um argumento que Constança não conseguia refutar sem soar completamente irracional. E, no entanto, o medo permanecia. Aquele medo profundo e generalizado que nenhuma lógica conseguia tocar.
— Quando elas morrerem — disse ela por fim —, as mordaças morrerão com elas. Mas enquanto estiverem vivas, enquanto aquelas bocas puderem pronunciar aquelas palavras que ouvi há tantos anos, eu não vou arriscar. Não vou arriscar minha família, minha casa, tudo o que construímos aqui.
Francisco olhou para ela com uma mistura de pena e frustração:
— Então a senhora vai deixá-las morrer amordaçadas após uma vida inteira de trabalho, após nunca terem resistido ou causado problemas em duas décadas, vai negar a elas até mesmo a dignidade de falar suas últimas palavras?
Constança não respondeu; apenas voltou a abrir o livro, sinalizando que a conversa encerrara-se. Francisco saiu do quarto sabendo que perdera aquela batalha, mas algo mudara fundamentalmente dentro dele. As sementes da dúvida sobre tudo o que sua família representava haviam sido plantadas e continuavam a crescer.
O ano de 1871 trouxe mudanças irreversíveis ao Brasil. A Lei do Ventre Livre foi promulgada em setembro, declarando livres todos os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data. O coronel Bittencur recebeu a notícia com resignação em vez de raiva. Aos 71 anos, ele já não tinha energia para lutar contra o inevitável. A fazenda Santa Beatriz ainda era lucrativa, mas ele sabia que vivia o fim de uma era.
Francisco, agora formado em Direito e atuando como advogado no Rio de Janeiro, raramente retornava para visitas. Quando o fazia, havia uma tensão palpável entre ele e os pais, alimentada por diferenças ideológicas que nenhum amor filial podia superar completamente. Beatriz, aos 18 anos, estava prestes a casar-se com o filho de outro fazendeiro, perpetuando o ciclo que definira aquela classe por gerações.
E Rosa e Rita, agora com 64 e 57 anos, respectivamente, continuavam suas rotinas silenciosas, fantasmas vivos de uma decisão tomada 24 anos antes.
Foi em março de 1872 que Rosa começou a morrer de verdade. Não foi de repente; foi um declínio gradual e inexorável que começou com tosses secas à noite e evoluiu para uma fraqueza que a deixava sem ar após caminhar apenas alguns passos. O médico, mais velho agora e ainda menos interessado em diagnosticar com precisão pessoas escravizadas, murmurou algo sobre tísica e deu a Rosa talvez alguns meses de vida.
Constança, que estava com 53 anos e sentia o peso da idade nas próprias juntas, tomou uma decisão que a surpreendeu. Mandou transferir Rosa para um quartinho no térreo da casa grande, ao lado da despensa. Não era a senzala; era um espaço que servira para armazenamento, mas tinha uma janela com vista para o pomar de jaboticabeiras e uma cama de verdade, não um colchão de palha.
— Ela trabalhou aqui por 44 anos — justificou Constança ao marido quando ele questionou. — Ela merece morrer com algum conforto.
O coronel não discutiu. Estava cansado demais para discutir sobre qualquer coisa naquele ponto da vida. Rita cuidou de Rosa com uma devoção de partir o coração de quem testemunhasse. Ela também usava sua mordaça, obviamente, mas comunicava-se com a irmã através do toques, de olhares, de uma linguagem não verbal desenvolvida ao longo de décadas de silêncio forçado.
Constança às vezes observava da porta, vendo Rita segurar a mão de Rosa, ajeitá-la na cama, trazer água e sopa que Rosa só conseguia consumir em pequenos goles. Havia ali uma intimidade que Constança jamais experimentara com ninguém, nem mesmo com o marido — uma conexão que transcendia as palavras porque fora forjada precisamente na ausência delas.
Em uma tarde de abril particularmente quente, Constança entrou no quarto e encontrou Rita sentada ao lado da cama, segurando a mão de Rosa, ambas simplesmente olhando pela janela para as jaboticabeiras que começavam a dar frutos. Havia algo tão profundamente triste naquela cena que Constança sentiu as lágrimas subirem inesperadamente. Não era pena; era algo mais complexo, o reconhecimento de uma humanidade que ela passara décadas tentando negar ou controlar.
— Rita — disse Constança suavemente, fazendo a mulher virar-se. — Eu preciso… preciso te pedir uma coisa.
Rita olhou para ela com aqueles olhos que viram tanto, sofreram tanto e esperaram tanto tempo.
— Se eu tirasse a mordaça da Rosa — continuou Constança, as palavras saindo com dificuldade —, se eu a deixasse falar suas últimas palavras antes de morrer, você acha que ela me amaldiçoaria? Que usaria aquelas palavras que temi todos esses anos para me destruir?
Rita olhou para a irmã na cama e depois de volta para Constança. Então, lentamente, balançou a cabeça de um lado para o outro:
— Não.
Constança sentiu algo romper-se dentro de si.
— Como você tem certeza? — perguntou, odiando a vulnerabilidade em sua própria voz.
Rita levantou-se da cadeira com dificuldade — suas juntas também traídas pela idade e por uma vida de trabalho —, aproximou-se de Constança e pousou uma mão enrugada sobre o coração dela. O toque era suave, quase maternal. Em seguida, Rita apontou para a própria mordaça, fez o gesto de removê-la e apontou para o céu através da janela. Constança compreendeu: quando a mordaça fosse retirada, as únicas palavras que sairiam daquela boca seriam palavras para os céus, não para a terra. Palavras de despedida, não de vingança.
Naquela noite, Constança não conseguiu dormir. Deitou-se ao lado do marido, que ronca baixinho, encarando o teto escuro, pensando em 25 anos de medo. Vinte e cinco anos controlando duas mulheres através do silêncio. Vinte e cinco anos vivendo com a certeza de que fizera a coisa certa, a coisa necessária, a coisa que protegia sua família. Mas agora, naquela escuridão silenciosa, ela se perguntava se realmente protegera alguém ou se apenas criara uma prisão para si mesma — uma prisão construída de medo e mantida pela recusa em enfrentar o que esse medo realmente significava.
Quando o sol nasceu, pintando o quarto com uma luz suave e dourada, Constança tomou sua decisão. Levantou-se, vestiu-se sem chamar as criadas e desceu para o quarto de Rosa. Rita já estava lá, como sempre, sentada ao lado da cama. Rosa estava acordada, mas sua respiração era trabalhosa, cada fôlego parecendo exigir um esforço imenso. Constança puxou uma cadeira e sentou-se do outro lado da cama, de frente para Rita.
— Eu vou tirar as mordaças de vocês duas — anunciou com voz firme. — Agora para sempre.
Rita congelou. Rosa, mesmo em seu estado debilitado, virou a cabeça para olhar diretamente para Constança.
— Eu estava errada — continuou Constança, e dizer essas palavras em voz alta pareceu liberar algo que estava comprimido em seu peito havia décadas. — Eu tive medo de algo que não compreendia, e transformei esse medo em crueldade. Uma crueldade refinada e contínua que roubou de vocês algo que ninguém deveria ter o poder de roubar. E agora, antes que seja tarde demais, preciso desfazer isso. Não porque acho que vocês vão me perdoar, mas porque preciso ao menos tentar fazer o que é certo.
Rita começou a chorar. Lágrimas silenciosas desciam por seu rosto rugoso, molhando a mordaça embebida em vinagre. Rosa chorava também, embora suas lágrimas fossem mais lentas, mais cansadas. Constança levantou-se, aproximou-se primeiro de Rita e, com as mãos tremendo violentamente, começou a desatar os nós que ela mesma amarrara pela última vez três dias antes, quando a mordaça precisara ser lavada e trocada.
O tecido soltou-se, revelando a boca de Rita pela primeira vez em 25 anos. Seus lábios estavam pálidos, com pequenas cicatrizes nos cantos onde a pressão constante deixara marcas permanentes. Rita moveu o queixo, testando o movimento, e então simplesmente cobriu o rosto com as mãos e soluçou. Eram soluços silenciosos no início, como se sua garganta tivesse esquecido como produzi-los, mas gradualmente tornaram-se mais altos, transformando-se em um choro profundo e catártico de alguém que liberava um quarto de século de silêncio forçado.
Constança virou-se então para Rosa. A mulher mais velha estava morrendo; isso era evidente na palidez de sua pele, na maneira como seus olhos pareciam já fitar algo além deste mundo. Mas quando Constança começou a desatar os nós da mordaça, Rosa segurou fracamente sua mão. Constança parou, olhando-a questionadoramente. Rosa balançou levemente a cabeça e sussurrou algo tão baixo que Constança precisou inclinar-se para ouvir:
— Obrigada.
A palavra saiu rouca, quebrada, mas reconhecível. A primeira palavra que Rosa pronunciava sem amarras em 25 anos. E era gratidão — não maldição, não raiva, gratidão. Constança terminou de remover a mordaça, com suas próprias lágrimas agora caindo, manchando o vestido de seda que usava.
Rosa respirou fundo, seus pulmões produzindo um som sibilante perturbador, e então começou a falar, não em português, mas naquela língua antiga que Constança ouvira 25 anos antes na cozinha, quando tudo começara. Mas desta vez não havia medo, porque Constança percebeu que não estava ouvindo feitiçaria ou maldições; estava ouvindo orações. Rosa rezava no idioma de seus ancestrais, a língua que trouxera através do oceano, através de décadas de escravidão, através de 25 anos de silêncio forçado.
Rita uniu-se a ela, sua voz mais forte misturando-se à da irmã mais fraca, criando uma harmonia que parecia preencher o quartinho com algo que Constança só podia descrever como sagrado. As palavras fluíam em um ritmo que parecia tão antigo quanto o mundo. Não eram as três palavras curtas e cortantes que aterrorizaram Constança décadas atrás; eram frases longas, melódicas, subindo e descendo como ondas, carregando peso, mas não ameaça, carregando história, mas não vingança.
Constança sentou-se e simplesmente ouviu, permitindo-se, pela primeira vez em 25 anos, escutar verdadeiramente o que saía daquelas bocas, sem filtrar pelo medo. E o que ouviu não era perigoso; era triste, era belo, era humano de uma forma tão fundamental que sentiu vergonha de ter demorado tanto para reconhecer.
Após o que pareceram horas, mas provavelmente foram apenas minutos, Rosa parou de falar. Sua respiração estava ainda mais trabalhosa agora, cada fôlego um esforço visível. Ela olhou para Rita, depois para Constança, e disse em um português claro:
— A senhora sempre teve medo das palavras erradas. As palavras que a senhora deveria ter temido não eram as nossas, eram as suas. As palavras que justificam o sofrimento, as palavras que transformam pessoas em propriedade. Essas são as palavras perigosas.
Constança não teve resposta para isso; apenas segurou a mão de Rosa, aquela mão velha e gasta que servira sua família por 44 anos, e permaneceu ali enquanto a vida lentamente se esvaía. Rosa morreu ao pôr do sol naquele dia, com a irmã segurando uma mão e a antiga senhora segurando a outra. Suas últimas palavras não foram maldições, mas verdades simples que Constança passaria o resto da vida tentando processar.
Rita chorou sobre o corpo da irmã durante horas, e Constança deixou-a ficar, sem impor regras ou protocolos, apenas respeitando uma dor que ajudara a criar, mas que jamais poderia compreender verdadeiramente. Quando Rita finalmente levantou-se, exausta e esvaziada, Constança falou pela primeira vez desde a morte de Rosa:
— Rita, você está livre agora. Livre da mordaça, livre para falar, para rezar, para dizer qualquer coisa que precise dizer.
Rita olhou para ela com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar:
— Eu sempre fui livre, senhora — falou com aquela voz profunda que Constança mantivera em silêncio por tanto tempo. — A mordaça estava no meu rosto, mas eu carregava a liberdade no coração.
O sepultamento de Rosa ocorreu dois dias depois, em uma manhã cinzenta de abril que ameaçava chuva, mas nunca desaguava de fato. Constança insistiu que fosse feito no cemitério da capela, e não na área separada onde os escravizados eram enterrados. O coronel protestou fracamente, mais por hábito do que por convicção genuína, mas acabou cedendo. Rosa foi enterrada em um caixão simples de madeira de lei, algo que normalmente seria reservado apenas a pessoas livres.
Rita esteve presente, sem mordaça, vestindo um vestido preto que Constança mandara costurar especialmente para a ocasião. Ela não chorou durante o funeral; já esgotara todas as lágrimas nos dois dias anteriores. Apenas permaneceu ali, ao lado da cova, com as mãos rugosas segurando um pequeno saco de tecido que Constança viu, mas não perguntou o que continha — provavelmente sementes, aquelas mesmas sementes que haviam iniciado tudo 25 anos antes, quando Constança espiara pela fresta da porta da cozinha e vira coisas que sua mente racional não conseguia processar.
Após o funeral, Rita retornou à senzala, mas tudo havia mudado. Ela trabalhava, mas no seu próprio ritmo. Agora falava quando queria, com quem queria, embora suas palavras fossem poucas e cuidadosamente escolhidas. Os outros escravizados da fazenda tratavam-na com uma reverência que ia além do respeito comum. Era como se, ao sobreviver a 25 anos de silêncio forçado e emergir ainda sã, ainda capaz de falar, pensar e existir plenamente, Rita tivesse se tornado algo mais do que humana aos olhos deles — um símbolo de resistência que nem eles próprios conseguiam articular totalmente.
Constança observava isso com sentimentos mistos. Parte dela ressentia-se da autoridade moral implícita que Rita agora carregava. Outra parte sentia algo próximo ao alívio, como se, ao libertar Rita, também tivesse se libertado de uma prisão que construíra ao redor da própria alma.
Francisco retornou à fazenda em junho daquele ano, trazendo consigo sua noiva, Helena, que vinha de uma família de comerciantes progressistas do Rio de Janeiro. Quando soube da morte de Rosa e da liberação de Rita da mordaça, procurou imediatamente a mãe. Encontrou-a na varanda, tomando chá na cadeira de balanço que fora presente de casamento do coronel trinta anos antes.
— Fiquei sabendo do que você fez — disse ele simplesmente, sentando-se na cadeira ao lado dela.
Constança não respondeu imediatamente. Ela fitou as montanhas distantes, encobertas pela neblina característica daquela região:
— Eu deveria ter feito isso 25 anos atrás. Não, eu nunca deveria ter colocado aquelas mordaças para começo de conversa. Mas ao menos agora, antes que seja tarde demais, fiz algo certo.
Francisco tomou a mão da mãe — a mão que dera tantos nós, que silenciara tantas palavras:
— O que fez a senhora mudar de ideia? — perguntou com curiosidade genuína.
Constança pensou por um longo momento antes de responder:
— Percebi que estava com medo da coisa errada. Passei 25 anos com medo das palavras de Rosa e Rita, com medo do que elas poderiam dizer, do que poderiam fazer com suas vozes. Mas o que deveria realmente me assustar era eu mesma. Era a minha capacidade de justificar a crueldade, de transformar o medo em violência permanente, de olhar para dois seres humanos e decidir que suas vozes eram menos importantes do que o meu conforto.
Francisco apertou a mão dela:
— Muitas pessoas nesta região, em todo este país, jamais chegarão a essa conclusão. Elas continuarão a justificar tudo o que fazem através do medo, da tradição e da necessidade econômica. O fato de a senhora ter chegado lá, mesmo que tarde, significa alguma coisa.
Constança não tinha certeza se significava o suficiente. Rosa estava morta. Rita passara 25 anos amordaçada. Nenhuma epifania tardia podia desfazer isso, mas talvez pudesse ao menos significar que os últimos anos de Rita seriam diferentes, que ela poderia viver com a dignidade que lhe fora negada por tanto tempo.
A Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888. Constança estava com 69 anos. O coronel falecera dois anos antes, vítima de um derrame súbito que o deixara inconsciente e o levara em questão de horas. Francisco assumira a administração da fazenda, embora seu coração claramente não estivesse no negócio do café com trabalho manual, que agora precisava ser pago.
A abolição oficial apenas formalizava o que ele já vinha fazendo gradualmente: transformar os antigos escravizados em trabalhadores assalariados, oferecendo-lhes a opção de permanecer na fazenda mediante pagamento ou partir para buscar a vida em outro lugar. Muitos partiram; alguns ficaram. Rita ficou — não porque precisasse do dinheiro que Francisco oferecia, embora ele o fizesse, mas porque a fazenda Santa Beatriz era a única casa que ela conhecia no Brasil.
Rosa estava enterrada ali. Suas memórias, boas e ruins, estavam enraizadas naquela terra vermelha. Rita tinha 74 anos quando a abolição foi assinada. Seu corpo estava curvado pelo trabalho de uma vida inteira, suas mãos deformadas por uma artrite severa, sua visão prejudicada por cataratas que nenhum médico local podia operar. Mas sua voz permanecia clara.
Ela usava essa voz principalmente para contar histórias. As crianças da fazenda, filhas e netos dos trabalhadores que haviam sido escravizados, reuniam-se ao seu redor nas tardes de domingo, sentadas no chão de terra batida, enquanto ela ocupava uma cadeira de madeira simples e falava sobre coisas que eles nunca tinham visto, mas precisavam saber.
Ela falava sobre a África, sobre o navio negreiro, sobre a travessia do oceano que matara metade das pessoas que embarcaram com ela e Rosa. Falava sobre línguas que estavam desaparecendo, sobre conhecimentos ancestrais que se perderiam se não fossem passados adiante. Falava de Rosa, de sua irmã, que sobrevivera por tanto tempo, mas não o suficiente para ver a liberdade legal chegar. E falava, embora raramente, sobre as mordaças.
Certa tarde, uma menina de sete anos chamada Benedita perguntou algo que fez todos os adultos presentes ficarem tensos:
— Vovó Rita, por que a sinhá fazia a senhora usar aquele pano na boca por tanto tempo?
Rita olhou para a criança com aqueles olhos opacos, mas intensos:
— Por medo, minha neta.
— Medo de quê? — insistiu Benedita, alimentada pela curiosidade incansável das crianças.
Rita pensou com cuidado antes de responder, escolhendo palavras que uma criança pudesse compreender, mas que transmitissem a verdade completa:
— Medo do que ela não compreendia. Ela tinha medo do poder que percebia em minhas palavras. Mas o verdadeiro poder não estava nas palavras; estava no medo dela. O medo a transformou em uma pessoa cruel. E a crueldade não precisa de magia ou feitiçaria. A crueldade é a coisa mais humana que existe.
A resposta silenciou a criança, mas plantou sementes que cresceriam com o tempo, como todas as verdades difíceis fazem. Constança faleceu em 1891, aos 72 anos, vítima de uma febre que começou de repente e a consumiu em menos de uma semana. Rita esteve presente quando ela agonizava, convocada por Francisco, que sabia haver algo mal resolvido entre as duas mulheres que precisava ser endereçado antes que fosse tarde demais.
Constança delirou na maior parte do tempo, mas teve um momento de lucidez quando Rita entrou no quarto. Seus olhos, amarelados pela febre, focaram na velha mulher em pé ao lado da cama.
— Você me amaldiçoou — sussurrou ela com voz rouca. — Depois de tudo o que fiz, você usou aquelas palavras contra mim?
Rita puxou uma cadeira e sentou-se pesadamente, com as juntas protestando contra o movimento:
— Não, senhora — respondeu com paciência infinita. — Eu nunca amaldiçoei ninguém. As palavras de que a senhora tanto teve medo eram apenas orações. Orações aos nossos ancestrais, pedindo proteção, pedindo força, pedindo que lembrassem quem éramos antes de tirarem tudo de nós.
Constança fechou os olhos, com lágrimas escorregando pelas têmporas:
— Então eu desperdicei vinte e cinco anos… Vinte e cinco anos com medo de fantasmas.
— Não eram fantasmas, senhora — corrigiu Rita gentilmente. — Eram memórias, histórias, conhecimentos que vieram de longe e precisavam continuar vivos. A senhora teve medo porque reconheceu que havia poder ali — e havia —, mas não era o poder de ferir, era o poder de lembrar, de manter vivo algo que o mundo tentava matar.
Constança abriu os olhos novamente, fitando Rita diretamente:
— Você me perdoa? — perguntou com a vulnerabilidade de quem sabe que está morrendo e precisa de absolvição.
Rita permaneceu em silêncio por um longo momento. A pergunta pairou no ar, carregada com o peso de décadas de sofrimento, de silêncio forçado, de humanidade negada.
— Eu não… eu não sei se “perdoar” é a palavra certa — disse ela finalmente. — Perdoar sugere que o que foi feito pode ser desfeito, esquecido, superado. Mas vinte e cinco anos não podem ser devolvidos. As palavras que nunca pude falar não podem ser recuperadas. Rosa morreu carregando o peso desse silêncio. Mas eu compreendo que a sinhá também era uma prisioneira — prisioneira do próprio medo, da própria criação, do mundo que lhe ensinou que pessoas como eu e Rosa não eram totalmente humanas. Então, não, eu não perdoo, mas também não carrego ódio; carrego apenas a verdade do que aconteceu.
Era a resposta mais honesta que Rita podia dar, e Constança reconheceu isso. Ela não merecia um perdão fácil, não merecia uma absolvição confortável. Merecia apenas a verdade nua e crua de que causara um sofrimento imensurável e de que teria de morrer carregando-o. Constança faleceu três horas depois, com Francisco e Beatriz ao seu lado, mas foram as palavras de Rita que ecoaram em sua mente enquanto sua consciência se dissolvia: Eu não carrego ódio, carrego apenas a verdade.
O funeral de Constança foi grandioso, como convém a uma mulher de sua posição social. Metade da região compareceu, prestando homenagens à viúva do coronel Bittencur, a matriarca da fazenda Santa Beatriz. Rita assistiu de longe, em pé à sombra de uma sumaúma, observando o cortejo dos enlutados que provavelmente jamais conheceram a história completa, jamais compreenderam a complexidade da mulher que agora enterravam com honras.
Após a partida de todos, quando o cemitério estava vazio, exceto pelos coveiros terminando o trabalho, Rita aproximou-se do túmulo, tirou um pequeno saco de tecido do bolso — o mesmo que segurara no funeral de Rosa tantos anos antes —, abriu-o e despejou um punhado de sementes sobre a terra recém-revirada. Não disse nada, não rezou em voz alta; apenas permaneceu ali por alguns minutos, olhando para o monte de terra que cobria Constança Bitencur, a mulher que a silenciara por vinte e cinco anos, mas que no fim, ao menos tentara desfazer parte do mal que causara.
Era mais do que muitos faziam, infinitamente menos do que deveria ter sido feito. E essa ambiguidade, essa verdade complicada, era algo que Rita aprendera a suportar, porque a vida não oferecia resoluções limpas, apenas verdades difíceis e a escolha de como carregar essas verdades sem permitir que se transformassem em amargura capaz de envenenar tudo o que tocavam.
Rita viveu por mais oito anos após a morte de Constança. Foram anos de liberdade legal, mas também de pobreza digna. Francisco continuou pagando-lhe um salário modesto pelo trabalho leve que ainda podia fazer, principalmente supervisionando a cozinha e ensinando as mulheres mais jovens a preparar os pratos complexos que Rosa dominara décadas antes. Mas o dinheiro nunca era suficiente, e Rita sabia que vivia mais de caridade do que de qualquer valor econômico real que gerasse.
Ela não se importava. Tinha um teto sobre a cabeça, tinha comida, tinha sua voz e tinha o túmulo de Rosa a poucos passos de distância, para onde ia todas as manhãs para depositar uma flor ou simplesmente sentar-se na grama e conversar com a irmã em voz baixa, naquele idioma antigo que agora falava livremente, sem medo de represálias.
A fazenda Santa Beatriz entrou em declínio gradual. O café já não era tão lucrativo quanto fora nas décadas de ouro. O trabalho assalariado era mais caro do que a escravidão fora, e Francisco não possuía o instinto implacável para o lucro que seu pai e seu avô possuíam. Ele era advogado de coração, não fazendeiro, e administrava a propriedade mais por obrigação familiar do que por vocação.
Parte das terras foi vendida. Alguns trabalhadores partiram para as cidades em busca de oportunidades melhores. A casa grande, que outrora brilhava com tinta branca impecável, começou a mostrar sinais de desgaste e abandono que jamais foram totalmente reparados. Era o fim de uma era, e todos sabiam disso.
Rita observava essa decadência com sentimentos complexos. Parte dela sentia satisfação ao ver o sistema que a escravizara ruir. Outra parte sentia uma tristeza genuína, porque aquela fazenda também era sua história, sua casa, o único pedaço do Brasil que conhecia intimamente.
Em 1899, Rita adoeceu com a mesma doença que levara Rosa 27 anos antes. Era como se seus pulmões, após anos respirando livremente, tivessem finalmente decidido que já haviam feito o suficiente. A tosse começou em março, seca e persistente, evoluindo para algo mais profundo e produtivo que deixava sangue nos panos que usava para tapar a boca. Francisco convocou o médico — um homem mais jovem agora, educado em escolas modernas do Rio de Janeiro —, mas o diagnóstico foi o mesmo de Rosa: tuberculose avançada, provavelmente alguns meses de vida.
Francisco ofereceu-se para transferi-la para o mesmo quarto onde Rosa morrera, mas Rita recusou. Queria ficar em sua senzala, no espaço que fora dela e de Rosa por tantos anos. Foi ali que passou seus últimos meses. As crianças ainda iam visitá-la, trazendo flores silvestres e frutas, sentando-se ao redor da cama enquanto ela contava histórias com uma voz cada vez mais fraca.
Benedita, agora uma jovem de 18 anos, era presença constante. Havia aprendido a escrever — uma das poucas na comunidade com essa habilidade — e começara a registrar as histórias que Rita contava.
— Estou anotando para que elas não se percam — explicou Benedita quando Rita perguntou por que fazia aquilo. — Para que meus filhos e os filhos deles saibam de onde viemos.
Rita segurou a mão da jovem com uma força surpreendente para alguém tão debilitada:
— Você compreende — disse ela simplesmente. — Você compreende que as palavras precisam continuar vivas? Que as histórias precisam ser contadas? O silêncio é uma morte pior do que a morte do corpo.
Numa tarde quente de julho, Francisco foi visitá-la, trazendo algo inesperado: as mordaças. Ele as encontrara no fundo de um baú, no antigo quarto de sua mãe, cuidadosamente guardadas, preservadas como relíquias de algo que talvez Constança jamais conseguira processar totalmente. Os panos estavam amarelados pelo tempo; o cheiro de vinagre havia desaparecido havia muito, substituído pelo odor neutro de tecido velho.
— Eu não sei por que trouxe isto — admitiu Francisco, sentando-se pesadamente na cadeira ao lado da cama de Rita. — Talvez porque pensei que a senhora devesse decidir o que fazer com elas — queimá-las, enterrá-las, guardá-las, o que fizer sentido para você.
Rita olhou para aqueles pedaços de pano que haviam definido 25 anos de sua vida. Estendeu a mão trêmula e tocou o tecido, sentindo a textura gasta sob os dedos. Após um longo momento de silêncio, disse:
— Guarde-as.
Francisco olhou para ela com evidente surpresa:
— Guardar? Por quê?
Rita respirou fundo antes de responder com grande esforço, cada palavra custando um fôlego:
— Porque o mundo precisa se lembrar do que foi feito. Não para alimentar o ódio, não para buscar vingança, mas para lembrar que os seres humanos são capazes de crueldade refinada quando estão com medo. Que o silenciamento não acontece apenas com panos e nós, mas com leis, com tradições, com belas palavras que escondem a violência. Estas mordaças são testemunho, e os testemunhos precisam ser preservados mesmo quando doem. Especialmente quando doem.
Francisco pegou as mordaças de volta, dobrou-as com cuidado e prometeu guardá-las com a mesma reverência com que se guardam relíquias sagradas, pois era exatamente isso o que elas eram: objetos sagrados avessos, monumentos à capacidade humana de transformar o medo em sofrimento sistematizado. Ele deixaria a senzala carregando esse fardo, e seria um fardo que sua família carregaria por gerações, se tivesse consciência suficiente para compreender seu significado.
Rita faleceu em uma manhã de agosto, quando o sol ainda não despontara totalmente e a neblina cobria a fazenda como um lençol branco. Benedita estava ao seu lado, segurando sua mão junto com outras duas mulheres que haviam sido crianças quando Rita contara suas primeiras histórias livres. Rita esteve consciente até quase o fim. Suas últimas palavras foram em português, não em seu idioma ancestral. Ela olhou para as três mulheres ao seu redor e disse, com uma voz que não passava de um sussurro rouco:
— Continuem falando. Sempre continuem falando. Porque o dia em que pararmos de falar é o dia em que eles vencem. Não importa quem sejam eles — podem ser os senhores de escravos, podem ser as leis injustas, podem ser os nossos próprios medos. O que importa é que, enquanto tivermos voz, enquanto pudermos formar palavras e contar histórias e dizer verdades que doem, ainda estaremos verdadeiramente vivos.
Ela fechou os olhos depois disso e nunca mais os abriu. Morreu como Rosa morrera — em paz, finalmente livre, com suas últimas palavras não sendo maldições, mas sabedoria conquistada a duras penas. O sepultamento de Rita ocorreu ao lado do de Rosa, conforme ela havia pedido. Francisco pagou por uma lápide simples que trazia apenas seus nomes e as datas aproximadas que conheciam: Rosa, 1815-1872. Rita, 1822-1899. Mulheres livres.
A palavra “livres” foi ideia de Benedita, e Francisco concordou imediatamente, porque, embora a liberdade legal só tivesse chegado nos últimos anos… mesmo após décadas de escravidão e vinte e cinco anos de silêncio, elas haviam retido algo livre dentro de si que nenhuma mordaça jamais pôde algemar verdadeiramente: suas mentes, suas memórias, sua essência fundamental como seres humanos.