CASO PM GISELE: A VERSÃO DO TENENTE NETO RESISTE À PERÍCIA?
O CASO PM GISELE: AS VERSÕES FANTÁSTICAS, A ACUSAÇÃO CONTRA A PRÓPRIA FAMÍLIA E O CERCO QUE SE FECHA SOBRE O TENENTE NETO

A rotina nos corredores do Tribunal do Júri e da Justiça Militar de São Paulo raramente deixa espaço para surpresas quando se trata da crônica policial. No entanto, existem episódios cuja carga de perplexidade desafia até mesmo os profissionais mais calejados. O caso envolvendo a morte da policial militar Gisele, encontrada sem vida em seu próprio apartamento, transcende a tragédia comum de um feminicídio para entrar no terreno pantanoso das narrativas inverossímeis, manobras dilatórias e acusações que beiram o surrealismo.
Meses após a noite fatídica que ceifou a vida de Gisele, o processo principal já ultrapassa a marca de 3.000 páginas de investigações, laudos técnicos e depoimentos cruzados. No centro desse furacão está o ex-marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Neto. Conforme o inquérito avança rumo a uma provável pronúncia para o Tribunal do Júri, a defesa do oficial tem apostado em uma estratégia agressiva de contra-ataque midiático e institucional. O problema é que, sob o escrutínio implacável da perícia científica e do contraditório judicial, as teses apresentadas por Neto vêm desmoronando uma a uma, revelando um abismo intransponível entre o que ele tenta contar à opinião pública e o que os vestígios materiais insistem em provar.
Para entender a gravidade do momento atual, é preciso voltar os olhos para os detalhes mais sombricos dessa investigação, guiados pelos apontamentos do advogado da família da vítima, Dr. Miguel Silva, e pelas análises técnicas de especialistas forenses.
A Cena do Crime: O Silêncio Rupto e a Anatomia de um Círculo Vicioso
A narrativa oficial de que Gisele teria posto fim à própria vida nunca convenceu nem os primeiros policiais que pisaram no apartamento, nem a família, que desde o primeiro instante apontou inconsistências gritantes na dinâmica apresentada pelo então companheiro.
Os primeiros socorros e os agentes que atenderam à ocorrência relataram um cenário atípico, incompatível com a mecânica clássica de um autoextermínio. Um policial militar com mais de 15 anos de corporação, treinado para preservar e ler cenas de crime, foi o responsável por registrar detalhadamente a posição do corpo de Gisele. Ela estava com uma das pernas sob um móvel, os membros inferiores cruzados e, o mais intrigante de tudo: a arma de fogo — uma pistola calibre .40 — encontrava-se rigidamente travada, “colada” à sua mão de tamanho pequeno, num encaixe mecânico que imediatamente acendeu o sinal de alerta dos investigadores. Além disso, manchas de sangue na cena já apresentavam sinais de coagulação avançada, indicando que o socorro não havia sido acionado de forma imediata, derrubando a versão de Neto de que clamara por ajuda em questão de segundos.
Registros de testemunhas e dados telefônicos complicam ainda mais a linha do tempo do oficial. Um vizinho e testemunha-chave confirmou, tanto em sede administrativa quanto em juízo sob o manto do contraditório, ter ouvido um estampido ou ruído suspeito às 7h28 daquela noite. Contudo, os registros de chamadas mostram que o primeiro contato feito por Neto ocorreu apenas às 7h57 — um intervalo de quase meia hora de silêncio e decisões calculadas dentro do apartamento.
E então há o episódio do banho. Logo após a chegada das equipes, o tenente-coronel dirigiu-se ao banheiro para tomar banho, ignorando os protestos desesperados dos policiais presentes. Um dos agentes relatou ter avisado: “Não faça isso, tenente, por favor, não faça. É melhor sermos cautelosos, esse não é o procedimento padrão”. A resposta, segundo os autos, veio carregada de autoritarismo. Valendo-se de sua patente superior e da presença de magistrados no local — a quem ele se dirigia insistentemente como “Vossa Excelência” —, Neto exerceu coação velada sobre os subordinados. Os policiais de baixa patente sentiram-se manietados pela rigidez da hierarquia militar e não tiveram como impedir o ato. Mais tarde, quando questionado em juízo se poderia ter evitado a atitude do coronel, um dos policiais foi categórico: “Não podíamos impedi-lo, doutor. Operamos sob o manto da hierarquia e da disciplina, e ele impôs sua patente naquele momento”.
Essa imposição teve um efeito colateral técnico devastador para a apuração da verdade: o banho tomado pelo suspeito justificou o resultado negativo no teste residuográfico de pólvora em suas mãos, assim como o de Gisele. A diferença crucial, apontada pelos peritos, é que Gisele deu negativo porque jamais efetuou o disparo; já o teste de Neto foi neutralizado pela água e pelo sabão antes da coleta pericial.
As Versões Fantásticas: Da Filha “Macaca” ao Acusação de Fraude no IML
Conforme a pressão aumentava e a Corregedoria da Polícia Militar aprofundava as apurações, o tenente-coronel passou a adotar uma postura de que o mundo inteiro estaria conspirando contra ele. Em depoimentos oficiais à Corregedoria e em declarações vazadas à imprensa, Neto começou a acumular explicações mirabolantes que rapidamente ganharam o apelido informal de “versões fantásticas” entre os operadores do direito.
O primeiro ponto de conflito girou em torno das marcas e lesões encontradas no pescoço de Gisele, que evidenciavam uma luta corporal prévia antes do disparo fatal. Pressionado a justificar os vergões, Neto apresentou uma justificativa que chocou até mesmo os investigadores mais experientes: segundo ele, as marcas no pescoço da policial poderiam ter sido causadas pela própria filha do casal, que — nas palavras do oficial — estaria “agindo como um macaquinho”, pendurando-se no pescoço da mãe.
A tese foi prontamente refutada. O Dr. Miguel Silva, advogado da família, relatou ter conversado diretamente com a criança, que negou veementemente qualquer comportamento daquele tipo, destruindo a tentativa do pai de transferir a culpa para a própria filha órfã. Sem sustentação, Neto mudou o disco, sugerindo então que a própria Gisele teria autoinfligido as marcas momentos antes de tirar a própria vida.
Mas o ápice da escalada delirante ocorreu quando o oficial direcionou suas baterias diretamente contra o advogado da família e contra os próprios pais de Gisele. Em um movimento que chocou a comunidade jurídica paulista, Neto acusou formalmente o Dr. Miguel Silva e os familiares enlutados de terem invadido as dependências do Instituto Médico Legal (IML) durante a madrugada, com o objetivo de adulterar o cadáver e provocar artificialmente as lesões no corpo da vítima para incriminá-lo injustamente.
Trata-se de uma acusação de extrema gravidade, que não atinge apenas a honra dos familiares, mas imputa crimes pesadíssimos a toda a cadeia institucional: peritos legistas, auxiliares de necropsia, pessoal de protocolo e funcionários administrativos do IML. Para o oficial, todos estariam mancomunados em uma grande farsa processual.
A Resposta da Ciência: Por Que a Tese de Fraude no IML É Tecnicamente Impossível
Para esclarecer o absurdo dessa narrativa, a reportagem ouviu a perita forense Alessandra Moraes, que detalhou a total inviabilidade científica da tese levantada pela defesa de Neto. Segundo a especialista, a acusação desconsidera princípios básicos da medicina legal e da criminalística moderna.
“Isso é simplesmente impossível por vários motivos. O primeiro deles é técnico. Do ponto de vista médico-legal, lesões produzidas após a morte (post-mortem) são radicalmente diferentes de lesões produzidas enquanto a pessoa está viva (in vivo)”, explica a perita.
Alessandra detalha que, quando um trauma ocorre em um organismo vivo, o corpo desencadeia imediatamente uma resposta biológica complexa para tentar reparar o tecido danificado, gerando sinais vitais macroscópicos e microscópicos inconfundíveis. Quando o indivíduo falece, essa capacidade cessa por completo. Nenhum legista experiente confundiria uma lesão vital com uma agressão póstuma, tampouco a simulação grosseira de um leigo conseguiria reproduzir os padrões de infiltração hemorrágica tecidual.
Além da barreira biológica, há um obstáculo legal intransponível implementado desde 2019 com as alterações no artigo 158 do Código de Processo Penal (CPP): a estrita observância da Cadeia de Custódia.
“A partir do momento em que o corpo ingressa no IML — na verdade, desde a sua remoção no local do fato —, ele passa a integrar o corpus delicti de forma inviolável. Ninguém tem acesso livre à morgue para manipular um cadáver. Fazer isso violaria a cadeia de custódia de maneira escandalosa. Acusar a família e o advogado de entrarem lá para machucar o corpo é acusar também dezenas de servidores públicos de prevaricação e fraude. Além disso, unidades de perícia possuem monitoramento por câmeras de segurança 24 horas por dia. Se tal invasão tivesse ocorrido, haveria registros digitais incontestáveis. É pura fantasia defensiva”, conclui Alessandra Moraes.
O Conselho de Justificação e a Batalha na Justiça Militar
Enquanto o processo na vara comum caminha para definir se o réu irá a Júri Popular por feminicídio, na esfera militar o cerco também se aperta de forma inexorável. O processo administrativo conhecido como Conselho de Justificação encontra-se em sua fase derradeira.
Conforme explica o Dr. Miguel Silva, especialista em direito militar com duas décadas de atuação e docência na área, o procedimento funciona como um tribunal de honra composto por três oficiais superiores ao posto do investigado. Após a oitiva de todas as testemunhas de defesa e acusação e o interrogatório final do acusado, o colegiado emite um relatório conclusivo opinando pela perda ou manutenção da patente e do posto militar.
Contudo, a palavra final não pertence apenas à corporação: o relatório é encaminhado obrigatoriamente ao Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo (TJMSP), onde o tribunal pleno — reunindo todos os juízes militares — avalia a validade do parecer e emite o veredito irrevogável, respaldado tanto pela Constituição Federal quanto pela Constituição Estadual.
Questionado sobre a lentidão e as recorrentes remarcações de audiências, o advogado da família não hesita em apontar a estratégia da defesa:
“A defesa está claramente adotando táticas de procrastinação para ganhar tempo. Já é a terceira vez que o interrogatório na ação penal é adiado sob pretextos relacionados a quesitos periciais que já foram respondidos pelos peritos oficiais três vezes. É uma tentativa de esvaziar a pressão midiática e fazer com que o caso caia no esquecimento popular. No Conselho de Justificação não é diferente, criando óbices processuais contínuos”, pontua.
Há uma expectativa latente em relação aos próximos depoimentos formais do réu. Embora resguardado pelo direito constitucional ao silêncio, fontes ligadas aos bastidores indicam que o tenente-coronel pretende falar longamente perante o juiz. Contudo, para a acusação, qualquer nova manifestação que repita as teses anteriores servirá apenas para consolidar o padrão de contradições já mapeado nos autos.
Uma vez concluído o processo administrativo e decretada a perda do posto e da patente, Neto poderá eventualmente ser transferido do Presídio Militar Romão Gomes — considerado um local de privilégios e segurança diferenciada para oficiais — para um estabelecimento prisional comum, tão logo haja vagas disponíveis no sistema penitenciário estadual, alinhando-se aos procedimentos aplicados a detentos comuns.
A Dor que Não Cicatriza e a Busca Implacável pela Justiça
Para os pais de Gisele, que perderam não apenas uma filha, mas uma mãe dedicada e uma profissional exemplar da segurança pública, cada nova reviravolta midiática e cada declaração absurda emitida pela defesa do réu funcionam como uma reabertura de feridas profundas.
O Dr. Miguel Silva relata com emoção o impacto psicológico sofrido por essa família:
“Quando tomei conhecimento das declarações em que ele acusa os pais de Gisele de invadirem o IML, precisei preparar a família com muito cuidado. Foi exatamente como se tivéssemos enterrado a Gisele mais uma vez. É uma covardia colossal. Para um pai e uma mãe que já perderam a filha da maneira mais brutal possível, ter que lidar com esse tipo de imputação caluniosa é algo indescritível. Eles estão em estado de choque, mas firmes na busca por justiça”.
Apesar da exaustão emocional, a convicção jurídica da acusação permanece inabalável. Os mais de 3.000 páginas de provas técnicas, laudos periciais irrefutáveis, depoimentos consistentes e a total incompatibilidade das narrativas apresentadas pelo réu sustentam a convicção de que Gisele foi vítima de um homicídio qualificado (feminicídio) dissimulado sob a farsa de um suicídio.
À medida que o julgamento se aproxima e o véu das versões fantásticas vai sendo rasgado pela força implacável dos fatos, o caso da PM Gisele consolida-se como um marco na discussão sobre violência de gênero nas instituições de segurança do país. A sociedade civil, a família enlutada e a ciência forense aguardam agora o momento em que a justiça, finalmente, dará a palavra final sobre uma noite que manchou de sangue e mentiras a promessa de proteção que deveria reinar dentro de um lar.