A SINHÁ AJUDOU A ESCRAVA A FUGIR QUANDO DESCOBRIU O QUE O BARÃO FARIA COM ELA
Era quase meia-noite quando Sinhá Amélia entrou na despensa com um embrulho nos braços.
“Tire esse uniforme de criada”, disse Amélia. “Vista este vestido. Era meu. Ninguém achará estranho ver uma jovem com roupas simples na estação.”
Luzia tremia. Ela tinha 18 anos e nunca havia saído da porteira da fazenda sem permissão. Assim, abriu o embrulho em cima do cesto de milho: dois vestidos, botas, pão, queijo e carne seca para quatro dias, uma pequena faca e um lenço com 1.000 réis amarrados dentro.
“E esta carta é para um homem chamado Pompeu, no Rio. Apenas para ele. Mais ninguém. Você terá problemas por minha causa. Eu já tenho, mas prefiro isso a carregar na consciência o que ele fará com você. O barão fechou o negócio. No domingo, você sai daqui na carruagem de um homem de 80 anos. Eu não vou permitir.”
Lá fora, um cão latiu. Na Casa Grande, uma luz se acendeu. Para entender como essa dispensa havia chegado a tal ponto, era preciso voltar um mês no tempo.
A Fazenda Santa Clara ficava em Vassouras, no Vale do Paraíba, província do Rio de Janeiro. Em 1885, já não era a fazenda de outrora. Quarenta anos de cultivo de café haviam esgotado a terra. As plantas velhas produziam pouco. A chuva lavava o solo dos morros onde antes se colhiam 7.000 arrobas; agora, mal se colhiam 2.000.
O responsável por aquilo era o Barão do Vale Verde, Anselmo Teixeira de Mesquita, de 46 anos. Era um homem bonito, de bigode bem cuidado e voz alta. Gostava de ser chamado de barão até mesmo em casa. Gastava como se ainda fosse rico, jogava cartas toda semana, comprava cavalos e vinho, e devia 90 contos de réis a um comissário de café do Rio de Janeiro, o senhor Peixoto, que financiava a fazenda havia 20 anos.
Certa manhã de setembro, chegou uma carta do Rio. O barão leu-a sozinho em seu escritório e depois a leu novamente. A família Peixoto informava educadamente que a hipoteca vencería em 30 de novembro. Se ele não pagasse 40 contos até lá, a fazenda iria a leilão. O barão amassou a carta e a jogou na gaveta, mas não conseguia parar de pensar nisso.
Havia um detalhe que ele preferia esconder: Santa Clara nunca fora dele. Era a herança do pai de sua esposa, o velho Barão de Santa Clara, Bento Rosário, falecido em 1876. A fazenda passou para sua única filha, Amélia, e o nome dela continuava na escritura. Por lei, o marido mandava em tudo, mas para hipotecar uma propriedade, a assinatura da esposa também era necessária. O barão resolveu isso da maneira mais fácil: imitou muito bem a caligrafia de Amélia. Ela nunca soube.
O velho Barão Bento Rosário permanecia na memória da região como um dos homens mais cruéis do vale. Dizia-se que ele nunca esquecia um castigo. Morreu de uma doença no fígado após duas semanas gritando à noite. Ninguém na fazenda chorou.
Amélia tinha 35 anos. Era a única filha daquele homem e cresceu com medo dele. Casou-se aos 20 anos com Anselmo, que na época era um jovem elegante e educado, e pensou ter escapado. Mais tarde, descobriu que trocara um homem violento por um homem frio. Perdera dois filhos antes de nascerem e, depois disso, o marido quase nunca mais entrou em seu quarto. Ela passava os dias lendo, bordando e cuidando da casa.
Os escravizados da casa diziam que a sinhá era boa; os do campo diziam que ela nunca fazia nada por aqueles que apanhavam nos cafezais. Ambos os lados estavam certos. A única pessoa por quem ela arriscava tudo era Luzia.
Luzia era filha de Rita, a cozinheira do velho barão, que morrera de febre quando a menina tinha 10 anos. Rita nunca dissera quem era o pai da filha. Na senzala, cochichava-se que era algum homem dos campos, e ninguém mais perguntava. No dia do enterro de Rita, Amélia viu a menina sentada sozinha no degrau da cozinha, sem chorar, com o olhar fixo. Ela já gostava dela havia muito tempo. Era a única criança na cozinha que nunca gritava, nunca roubava doces e sempre trazia algo sem que lhe pedissem — um copo d’água para lavar as mãos quando ela se sentia mal.
Aquele dia, Amélia levou-a para dentro de casa e fez dela sua criada. A partir de então, Luzia passou a ser a protegida da sinhá. Amélia ensinou-a a ler, em segredo, com um caderno e um coto de lápis, quando a menina tinha 11 anos. Ela não sabia explicar por que gostava tanto da companhia dela; era o bom caráter, dizia a si mesma, a calmaria, a maneira de falar sem machucar ninguém. Nunca imaginara que pudesse haver outra explicação.
Havia outros escravizados de quem ela gostava da mesma forma, sem saber muito bem o porquê: Tomé, el ferreiro, de 31 anos, que falava pouco e trabalhava muito; Felícia, a lavadeira, de 27, que cantava enquanto batia as roupas; e Zeca, de 15, o cocheiro, que sabia assobiar como um pássaro. Sinhá Amélia sempre os tratava um pouco melhor do que o costume ditava, sem jamais se perguntar o motivo.
Todos na região diziam que Luzia era a moça mais bonita. Os homens que visitavam a fazenda olhavam para ela mais do que deviam. Ela percebeu isso cedo e, por isso, nunca deixava a menina andar sozinha pela casa à noite, nunca a mandava ao paiol, nem permitia que servisse à mesa quando havia visitantes, a menos que estivesse por perto. Luzia dormia em um colchonete à porta do quarto da sinhá. O barão achava que aquilo era capricho de mulher.
Luzia também tinha um namorado, e quase ninguém sabia. Chamava-se Damião, tinha 22 anos e era o carpinteiro da fazenda; fazia portas, mesas e caixões. Os dois conversavam no terreiro nos horários de almoço e, uma vez por mês, encontravam-se secretamente na carpintaria. Planejavam pedir permissão a Sinhá Amélia para casar quando Luzia fizesse 19 anos. Era o único sonho deles.
No final de setembro, o barão foi jogar cartas na casa do Dr. Pessanha, médico de Vassouras. Eram quatro homens à mesa e uma garrafa de aguardente. Perto da meia-noite, o médico compartilhou uma novidade:
“Sabe quem esteve no meu escritório? O coronel Hermenegildo do Prado, de Campinas, com 80 anos e ainda firme. A mulher dele tem 87. Nunca tiveram filhos.”
“E o que o coronel queria? Uma criança?”, perguntou um dos jogadores.
“Ele acha que ainda há tempo, quer uma escrava jovem, saudável, que nunca tenha estado com nenhum homem. Disse que ouviu falar que essas são as mais férteis.”
Um dos homens riu. O Dr. Pessanha encolheu os ombros:
“Eu lhe disse que isso é conversa de gente ignorante. Ele não quis ouvir. Está disposto a pagar qualquer preço. Dizem que o homem tem uma imensidão de terra roxa em Campinas, 600 alqueires em uma só fazenda.”
O barão largou lentamente as cartas, imaginando: “Qualquer preço?”
“Foi o que ele disse.”
O barão não falou mais nada até o fim do jogo. Perdeu duas mãos seguidas, o que nunca acontecia. Voltou para casa ao amanhecer a cavalo, pensando em terras roxas, hipotecas e em uma jovem de 18 anos que dormia à porta do quarto de sua esposa.
Na manhã seguinte, o barão escreveu uma pequena carta ao coronel Prado, afirmando simplesmente que tinha uma escrava que poderia lhe interessar. O coronel respondeu em quatro dias e chegou a Santa Clara na terça-feira seguinte, às 14h, em uma carruagem fechada com um velho servo chamado Quirino.
Hermenegildo do Prado Leite era alto e magro como um cabide. Usava sobrecasaca preta, bengala de ébano e cartola que não tirava nem dentro da sala. Tinha pele manchada, mãos tortas e olhos pequenos e claros que pareciam medir tudo o que viam. Caminhava devagar, mas sozinho, sem aceitar o braço de ninguém para subir as escadas.
O barão recebeu-o calorosamente. Sinhá Amélia recebeu-o com sua habitual cortesia e perguntou se aceitaria um café. O coronel disse que sim e pediu que fosse servido pela jovem que estava à porta. Era Luzia. Ela permaneceu ali com os olhos baixos. Foi quando sentiu o sangue gelar: percebera a maneira como o velho olhava para ela desde que entrara, embora ainda não compreendesse.
“Luzia”, disse o barão, sem olhar para a esposa. “Sirva um café ao coronel.”
Luzia obedeceu, servindo com mãos firmes e dedos frios. O coronel observou-a em silêncio. Quando ela se virou para sair, ele perguntou:
“Quantos anos você tem, menina?”
“Dezoito, senhor.”
“Pode ir.”
Quando ela saiu, o coronel disse ao barão: “É ela. Podemos conversar no escritório?”
“Sim.”
Amélia chamou Benta, a cozinheira, e pediu que levasse uma bandeja de licores para os dois homens. Benta tinha 50 anos, era gorda e silenciosa, e servia naquela casa desde antes de ela se casar. Entrou no escritório, colocou a bandeja sobre a mesa e saiu devagar, deixando a porta meio aberta.
Atrás da porta, Sinhá Amélia escutava. Ouviu a voz seca e sem pressa do coronel:
“Eu a quero por inteira, tal como é. Ninguém há de tocá-la. Levo-a no dia do contrato.”
“Naturalmente”, disse o barão. “Quanto quer?”
“Tenho pouco dinheiro, coronel, mas o senhor tem terras.”
Houve silêncio. Depois, o coronel riu baixo:
“Você é esperto, barão. Tenho 600 alqueires de terra roxa e fértil na Fazenda Boa Vista, em Campinas, a melhor parte, perto do rio. Dou tudo por ela. Escritura passada em cartório, sem dívida alguma. Em troca, a moça.”
“Fechado”, disse o barão, com tanta rapidez que ele próprio se surpreendeu. “O contrato será firmado no domingo. Volto com o tabelião de Campinas. Assinaremos aqui, e a jovem seguirá comigo na carruagem. Se ela desaparecer antes disso, o negócio está desfeito. Cuide dela. Não sai de casa.”
“Dou-lhe minha palavra, e a de minha esposa também.”
“Sua esposa faz o que eu mando”, disse o coronel.
“Minha”, disse o barão. “O senhor não precisa saber de nada. Ela é velha, quase não sai do quarto. Eu cuido disso.”
O barão não perguntou o que ele queria dizer. Ele não era o tipo de homem que fazia perguntas quando a resposta podia ser incômoda.
Sinhá Amélia afastou-se da porta sem fazer ruído. Foi para o quarto, trancou-o por dentro e sentou-se na beirada da cama. Não chorou. Ficou com as mãos no colo, encarando o chão por um longo tempo.
Naquela noite, durante o jantar, o barão falou como quem comenta o tempo: “Fiz um negócio com o coronel Prado. Ele vai levar a Luzia no domingo.”
Amélia largou o garfo. “Levar?”
“Ele precisa de uma criada. Em troca, vai me dar 600 alqueires em Campinas. Terra roxa é a nossa salvação, Amélia. Sem ela, perderemos tudo em novembro.”
“Anselmo, Luzia é uma menina.”
“Luzia é propriedade desta casa.” Ele cortou um pedaço de carne. “E, a propósito, quero que pare de deixar a menina dormir à porta do seu quarto. A partir de hoje, ela fica no quartinho dos fundos, atrás da cozinha. Benta dorme perto e vigia.”
“E se eu me recusar a aceitar isso?”

O barão olhou para ela com paciência, como quem olha para uma criança teimosa: “Amélia, você não manda aqui. Nunca mandou. Não complique as coisas.”
Ela pegou o guardanapo, limpou a boca e disse apenas: “Entendi.”
O barão sorriu satisfeito. Era o que queria ouvir. Não percebeu que a voz dela havia mudado, tornara-se mais baixa, mais firme. A voz de quem acaba de tomar uma decisão.
Naquela mesma noite, Sinhá Amélia esperou a casa adormecer. Quando o relógio da sala bateu 11 horas, pegou uma vela e atravessou o corredor em direção à cozinha. Benta estava sentada em um banquinho perto do fogão apagado, com um terço nas mãos — o barão a colocara ali para vigiar a porta do quartinho dos fundos.
“Benta, vá dormir. Eu fico com a menina um pouco, ela está assustada.”
Benta hesitou: “O barão mandou…”
“O barão está dormindo. Eu me responsabilizo por tudo. Vá.”
Benta tinha o coração mole e nunca sabia dizer não daquele jeito. Pôs o terço no bolso do avental e foi para o seu canto.
O quartinho dos fundos era pequeno, com uma cama estreita e uma janela alta. Luzia estava sentada na beirada da cama, no escuro, com os olhos abertos. Quando viu a vela, sobressaltou-se.
“Sinhá…”
“Fale baixo”, pediu Amélia, fechando a porta, colocando a vela no chão e sentando-se ao lado dela. Ficou em silêncio por um instante, sem saber como começar, até que falou sem rodeios, pois sabia que não havia maneira suave de dizer aquilo: “Luzia, o barão vendeu você.”
Luzia não se moveu. “Vendeu você ao coronel Prado, que esteve aqui hoje, um homem de 80 anos. Ele não quer uma criada. Quer ter um filho com você; acredita numa tolice que ouviu, de que moças como você são mais fortes para isso. Em troca, o barão ganha terras em Campinas. No domingo, o coronel volta com um tabelião e leva você.”
Luzia ficou muito quieta, depois cobriu o rosto com as duas mãos. Não fez nenhum som; apenas os ombros tremiam. Amélia esperou. Não tentou abraçá-la; sabia que não tinha esse direito. Deixara acontecer tanta coisa naquela casa ao longo dos anos, e um abraço agora não apagaria nada.
“Eu prefiro morrer”, disse Luzia enfim, com a voz abafada.
“Você não vai morrer. Vai fugir.”
Luzia tirou as mãos do rosto. “Fugir? Eu não tenho plano nenhum…”
“Eu tenho. Tenho quatro dias e um nome. Há um homem no Rio de Janeiro, Pompeu…”
“Um sitiante no Leblon. Ele esconde fugitivos lá. Li sobre ele num jornal. E há um advogado, o Dr. Valadares, que cuidou dos negócios de meu pai e é amigo de Pompeu. Vou escrever para os dois. Você vai levar a carta.”
“Mas sinhá… Eu nunca saí de Vassouras, nem a senhora. Eu não sei andar pelo mundo.”
“Eu também não, mas você tem cabeça no lugar. Foi por isso que ensinei você a ler.”
Luzia emudeceu novamente. Quando falou, sua voz era um fio: “E o Damião?”
Amélia quase sorriu. “Eu já sei de vocês dois há mais de um ano.”
“A sinhá sabia?”
“Eu ia deixar vocês se casarem. Só estava esperando você fazer 19 anos para ninguém dizer que era cedo demais.”
Luzia olhou para ela como se nunca a tivesse visto. “Eu não vou sem ele.”
“Dois fugitivos dão o dobro de trabalho para esconder, e o barão vai caçar vocês com tudo o que tem. Se você for sozinha, talvez tenha chance. Com ele…”
“Prefiro ir com o Damião.”
“E se ele não puder ir?”
“Se ele não puder, vou sozinha. Mas primeiro vou perguntar a ele. Ele merece escolher.”
Amélia pensou por um momento e assentiu: “Está bem. Falo com ele amanhã. Mas ouça bem: quando eu avisar, ele terá de decidir na hora.”
Luzia concordou com a cabeça. Em seguida, fez a pergunta que estava entalada na garganta: “Por que a sinhá faz isso?”
Amélia hesitou. Olhou para a chama da vela. “Porque você é a pessoa mais decente desta casa e porque eu estive calada tempo demais. Meu pai matou gente naquele tronco e eu me escondi no quarto. Meu marido manda vender pessoas e eu me escondi no quarto. Já chega.”
Ela levantou-se. “Não conte a ninguém, nem à Benta. Amanhã eu volto.”
Saiu do quarto e fechou a porta. Ao passar pela cozinha, viu que Benta estava deitada com os olhos fechados, respirando fundo, num sono que parecia verdadeiro. Não era. Benta ouvira cada palavra através da parede fina.
Na quarta-feira, depois do almoço, Sinhá Amélia pediu permissão ao marido para ir à vila comprar linhas e botões. O barão, de bom humor pelo negócio fechado, permitiu; pensou que a esposa quisesse se distrair. Ela foi na carruagem com o cocheiro Joaquim. Primeiro, pararam na casa paroquial, onde morava o padre Gonçalo, um homem gordo e tímido que rezava as missas de Santa Clara havia 20 anos e fora confessor do velho barão. Ela contou tudo ao padre em voz baixa na sala da frente, pediu ajuda, pediu que falasse com o juiz ou escondesse Luzia na igreja por alguns dias.
O padre empalideceu, limpando a testa com um lenço. “Amélia, minha filha, eu não posso. O barão é homem poderoso. Ajudou-me a consertar o telhado da igreja. Se eu interferir nisso…”
“O senhor tem medo do telhado?”
“Tenho medo de tudo.” Ele baixou os olhos. Havia ali algo mais que Amélia não compreendia. “Rezo por você e pela menina. É tudo o que posso fazer.”
Com isso, levantou-se, agradeceu-lhe friamente e retirou-se. Ela não esperava muito; mesmo assim, doeu.
Na rua principal, entrou em uma joalheria, tirou o colar de pérolas da mãe e colocou-o sobre o balcão. O ourives examinou-o, olhou desconfiado e ofereceu 300 mil réis. As pérolas valiam três vezes aquilo. Ela sabia, mas não tinha tempo para barganhar; aceitou. Dos 300, guardou 240 para a viagem e gastou os outros 60 em pão, queijo e carne seca, o que o cocheiro achou estranho, mas não perguntou.
Antes de voltar, passou pelos correios e comprou três folhas de papel e um tinteiro pequeno; não podia escrever em casa sem que o marido visse. Ali mesmo, num canto do balcão, escreveu a carta para Pompeu e uma segunda para o Dr. Valadares. Dobrou as duas juntas e escondeu-as no corpete.
Chegou a Santa Clara no fim da tarde e foi direto à carpintaria, dizendo que precisava de uma tampa nova para sua caixa de costura. Era um pretexto razoável que o barão jamais suspeitaria. Damião estava ali, suando, aplainando uma tábua. Era um rapaz alto, de ombros largos e mãos grandes e cuidadosas. Quando a viu daquele jeito, tirou o chapéu.
“Damião, preciso falar com você. Sozinho.”
Ele pousou a plaina e olhou em volta; os outros dois ajudantes tinham ido buscar madeira. Ela foi direto ao ponto: contou-lhe sobre o coronel, sobre o negócio, sobre o plano. Damião ouviu sem interromper, a mandíbula travada. Quando terminou, ele não disse nada por um instante. Pegou a plaina, examinou-a e colocou-a de volta na bancada.
“Eu vou”, disse ele.
“Você compreende o risco? Se o pegarem, o barão pode vendê-lo para o sul, para as lavouras de Mato Grosso ou do Rio Grande, ou pior.”
“Eu compreendo. E sua mãe está na senzala, você vai deixá-la…”
“Minha mãe mesma está me dizendo para ir. Se eu ficar e a Luzia partir com aquele velho, eu não aguento. Prefiro ser pego fugindo do que ficar parado.”
Amélia assentiu com a cabeça. “Então ouça. Na quinta-feira, à meia-noite, Luzia vai encontrar você aqui no paiol. Vocês saem pelos fundos, cortam o pasto e vão direto para a casa do tio Anacleto.”
Damião ergueu as sobrancelhas. “O tio Anacleto conhece o caminho. Meu pai o libertou no mês em que morreu — foi a única coisa boa que meu pai fez, pelo que sei. Ele mora a duas léguas daqui, na beira da mata. Sabe de tudo. Mandei o recado esta manhã com o Zeca, o cocheiro. Anacleto vai guiar vocês pelas trilhas da serra até Barra do Piraí. Vocês não podem ir pela estrada, porque o barão mandará gente por lá. Na estação de Barra do Piraí, tomam o trem para o Rio. Procurem o Pompeu. Há uma carta para ele.”
“E o dinheiro?”
“Vendi as pérolas de minha mãe. Vou dar a Luzia. Vocês dois devem separar-se na estação; se um for pego, o outro escapa.”
Damião olhou-a com um respeito súbito. “Por que a sinhá faz isso? Todo mundo tem me perguntado isso esta semana.”
Ela respondeu quase com humor: “A resposta é sempre a mesma.”
Saiu do paiol com a tampa da caixa de costura debaixo do braço. A caminho da casa grande, passou pela porta da cozinha. Benta estava ali mexendo um caldeirão; olhou para Sinhá Amélia e baixou os olhos rapidamente. Amélia notou, mas pensou que fosse apenas o cansaço do dia.
Na quinta-feira, o barão amanheceu de excelente humor. Mandou abrir uma garrafa de vinho do Porto no jantar, brindou ao futuro e bebeu a maior parte sozinho; a esposa servia-lhe o dobro do que pedia. Às 10 horas da noite, o barão ressonava na poltrona do escritório com a boca aberta. Dois criados o levaram para a cama.
Sinhá Amélia esperou até as 11h. Preparou o embrulho na despensa, colocou os dois vestidos, as botas, a comida e a pequena faca. Amarrou o lenço com os 80 mil réis, escondeu a carta no forro do embrulho e foi à cozinha. Benta estava novamente no banco com o terço.
“Benta, fiz um chá para você. Parece cansada.”
Foi a primeira vez em 20 anos que ela servira algo a alguém daquela maneira. Benta olhou para a xícara fumegante, olhou para o rosto da sinhá e sentiu um aperto no peito.
“Obrigada, sinhá.”
Amélia pôs a xícara na mesa, disse mais algumas palavras sem importância e saiu. No chá havia 10 gotas de láudano, o remédio que ela tomava para dormir. Benta esperou os passos se apagarem, foi até a janela e despejou todo o chá no terreiro. Depois, voltou ao banco e fingiu dormir.
À meia-noite, Amélia abriu a porta do quartinho dos fundos. Luzia já estava de pé, vestida, com os olhos arregalados. As duas cruzaram a cozinha na ponta dos pés, passando por Benta, que respirava pesadamente, com a cabeça caída. Entraram na despensa e fecharam a porta. Foi ali que a cena do início aconteceu. Amélia abriu o embrulho em cima do cesto de milho e explicou o que era cada coisa. Luzia ouvia sem conseguir falar.
“O uniforme”, disse Amélia no fim. “Vista o vestido azul. Amarre o lenço na cabeça como mulher livre. Ninguém dá atenção a uma moça que anda apressada e de cabeça erguida.”
Luzia vestiu o vestido — servia-lhe quase como feito sob medida —, amarrou o lenço, calçou as botas e pegou o embrulho.
“Se alguém perguntar, diga que trabalha para uma senhora do Rio e voltava de uma visita à família. Não responda mais do que perguntarem. E nunca diga meu nome. Nunca.”
Amélia segurou o rosto dela com as duas mãos. Foi a primeira vez que a tocara daquele jeito. “No dia em que Rita morreu, você sentou-se na escada da cozinha e não falou com ninguém. Eu sentei ao seu lado. Você pegou minha mão e não largou até o anoitecer. Nunca esqueci.”
Luzia chorou.
“Vá agora.”
Antes que o galo cantasse, Luzia abraçou-a. Amélia ficou rígida por um segundo e depois abraçou-a de volta, com força. Soltaram-se. Luzia saiu pela porta dos fundos, atravessou o terreiro agachada e correu pelo pasto até a carpintaria. A lua estava baixa. A grama molhada encharcou a bainha de seu vestido. Damião esperava no escuro com um saco nas costas e uma enxó pendurada no cinto. Quando viu Luzia, deteve-se por um instante, como se não acreditasse; depois, pegou-lhe na mão.
“Pronta?”
“Pronta.”
Não disseram mais nada. Saíram pelos fundos, passaram pela cerca de arame farpado e entraram na mata. Em dez minutos, a fazenda já não era visível.
Na casa grande, Amélia voltou para o quarto, deitou-se vestida e encarou o teto. Pela primeira vez em muitos anos, não sentia medo; sentia uma calmaria estranha. Fizera o que devia ser feito.
Na cozinha, Benta abriu os olhos lentamente, foi até a porta dos fundos e encarou o pasto escuro. Viu o rastro de grama pisoteada que a menina deixara, viu a direção que os dois haviam tomado em direção à mata, em direção ao rio. Permaneceu ali por um longo tempo, os olhos cheios de água. Pensou em seu neto Tobias, de 9 anos, que dormia na senzala. Dois dias antes, o barão chamara-a ao escritório e dissera sem rodeios: “Benta, se você me contar qualquer coisa estranha sobre a Luzia, eu libero o Tobias no dia da assinatura da escritura. É uma promessa.”
Benta limpou o rosto com o avental, atravessou a casa lentamente no escuro e parou diante do quarto do barão. Ficou um minuto com a mão no ar, depois bateu à porta. O barão abriu de camisola, os cabelos em pé e bafo de vinho.
“O que é, Benta?”
“Barão… A menina fugiu. Acabou de sair com o carpinteiro. Foram em direção à mata.”
Ele imobilizou-se por um segundo. Depois, sua fisionomia mudou: não gritou, não praguejou; apenas empalideceu muito e as mãos se fecharam em punho.
“Então ela me deu o chá”, continuou Benta rapidamente. “Eu não tomei. Joguei fora. Ela queria que eu dormisse.”
O barão olhou-a como se a visse pela primeira vez. “Quando?”
“Agora mesmo, barão. Dez minutos atrás.”
Ele vestiu um casaco sobre a camisola e foi à cozinha. Abriu a porta do quartinho dos fundos vazio. Foi à despensa; no chão estava o uniforme de criada dobrado em cima do cesto de milho, e ao lado, um pedaço de pão esmigalhado e um leve cheiro de lã. Subiu as escadas em três passos e abriu a porta do quarto da esposa sem bater. Amélia estava deitada de barriga para cima, com os olhos abertos, vestida da cabeça aos pés, calçada.
“Onde ela está?”, perguntou o barão.
“Quem?”
“Não se faça de tonta, Amélia.”
“Eu não sei de nada, Anselmo. Não consegui dormir e deitei-me vestida. São duas horas da manhã, há muito tempo que não durmo direito.”
Ele atravessou o quarto, agarrou-a pelo pulso e puxou-a até que ficasse sentada na cama, tremendo de raiva. Ela não desviou o olhar.
“Você deu à cozinheira um chá com sonífero. Você sabe para onde essa menina foi. Você ajudou.”
“Eu não sei de nada”, repetiu ela com calma.
O barão soltou-a, respirou fundo, tentou controlar-se. Quando falou, sua voz era baixa e, por isso mesmo, mais perigosa: “Entendi. Você vai ficar neste quarto até eu resolver isso. Depois, seremos só eu e você.”
Saiu e trancou a porta por fora, guardando a chave no bolso. Ainda de camisola, foi ao terreiro e acordou o cocheiro aos gritos, ordenando que selasse o cavalo depressa e fosse à vila buscar um homem chamado Nicanor — disse para falar com ele pessoalmente e não voltar sem ele.
Voltou à cozinha. Benta ainda estava ali, apertando o avental.
“Você fez bem, Benta. A promessa continua de pé. No domingo, quando eu assinar a escritura, você terá a carta do menino. Agora vá dormir.”
Benta fez uma reverência e retirou-se, mas não conseguiu deitar-se. Passou o restinho da noite sentada na cama estreita, com os olhos abertos.
Nicanor chegou ao raiar do dia, montado em uma mula preta e conduzindo três cães magros e de pelo curto presos por uma longa corda. Tinha 40 anos, pele morena, alto e magro, rosto comprido, chapéu de palha, botas gastas e um revólver no cinto. Era o melhor capitão do mato do Vale do Paraíba, e todos sabiam disso. O barão recebeu-o na varanda, já vestido e com uma xícara de café na mão.
“Uma escrava fugiu. Luzia, de 18 anos. Foi com um carpinteiro chamado Damião, de 22.”
“Quanto vale a moça?”, perguntou Nicanor sem cumprimentar.
“Dois contos de réis.”
Nicanor ergueu uma sobrancelha. “É muito. A moça é bonita?”
“É a mais bonita da região.”
“Então o senhor devia tê-la trancado melhor”, disse ele sem maldade, apenas como um fato. “Dois contos pela moça, 400 pelo rapaz. Pego os dois, a viagem e a comida. Negócio fechado, mas quero a moça inteira, sem arranhão.”
“Eu trago sempre inteira, barão. Mercadoria danificada vale menos.” Nicanor olhou para os cães. “Preciso de alguma roupa dela.”
O barão mandou trazer o uniforme da criada. Nicanor deixou que os cães cheirassem; os três ladraram e puxaram a corda em direção ao pasto.
“Estão na pista. Pelo cheiro, saíram faz tempo, umas seis horas. Devem estar a pé.”
“Para onde iam?”
“Para o rio, de trem. Vão pegar o trem em Barra do Piraí, mas sabem que é o primeiro lugar onde vou procurar.” Nicanor coçou o queixo. “Vão ter evitado a estrada. Alguém ajudou.”
“Quem ajudaria?”
“Minha esposa”, sussurrou o barão. “Mas ela nega.”
Nicanor olhou para a janela do andar de cima, onde a cortina se mexia. “Não é problema meu, barão. Eu pego quem foge, não pergunto quem ajudou.”
Montou na mula e partiu pelo pasto com os cães na frente. O barão observou-o, depois voltou ao escritório e redigiu seis telegramas: um para a estação de Barra do Piraí, um para o chefe de linha, um para a polícia do Rio e três para amigos em fazendas vizinhas. Em todos dizia a mesma coisa: “Escrava de 18 anos, bonita, estatura média, vestida de azul, acompanhada por carpinteiro preto, fugiu. Oferece-se recompensa de dois contos de réis a quem…”
Mandou o cocheiro levar tudo aos correios de Vassouras. Depois, sentou-se na poltrona e ficou quieto.
Havia apenas duas coisas que ele não sabia: a primeira era que, naquele momento, os dois fugitivos já estavam a quatro léguas de distância, na beirada da serra, caminhando atrás de um velho de cabelos brancos; a segunda era que aquela caçada ia custar muito mais do que dois contos de réis.
O tio Anacleto tinha 72 anos, pernas tortas e uma barba branca que descia até o peito. Mancava um pouco, mas andava mais rápido do que Damião esperava. Conduzia uma mula carregada de mantimentos e usava um chapéu de couro velho puxado até as orelhas. Encontraram-no à porta da casa de pau a pique, a duas léguas da fazenda, às 2h da manhã. O velho já estava de pé, com a mula pronta. Debaixo do braço, trazia uma caixa de lata enferrujada, envolta em um pano.
“Foi assim que ele me avisou de tudo”, disse o velho sem perder tempo. “Venham, a estrada é perigosa. Vamos pela serra!”
Puseram-se a caminhar por uma trilha de caçadores. Era escura, estreita e cheia de raízes. Andaram até o raiar do dia, quase sem falar. Quando o sol subiu, pararam em um riacho para beber água.
“O barão vai mandar um capitão do mato”, disse o velho. “E capitão do mato tem o quê? Cães. Cães seguem cheiro. Precisamos acabar com o cheiro.”
Obrigou os dois a entrar no riacho e caminhar dentro d’água por mais de uma légua contra a correnteza. A água estava congelante. Luzia perdeu uma bota duas vezes; Damião segurou-lhe o braço várias vezes para evitar que caísse. Saíram do riacho para um terreno de pedras. Anacleto apontou um buraco entre duas rochas, escondido por samambaias: “Descansem aqui, eu vou despistar.”
O velho tirou um lenço de Luzia e amarrou-o no pescoço da mula. Depois, soltou o animal de volta na trilha, na direção contrária, com um tapa na garupa. “A mula sabe o caminho de casa. Os cães vão seguir o cheiro dela por umas duas horas até perceberem que é só a mula sozinha. Isso nos dá tempo.”
Caminharam. No início da manhã de sábado, Luzia estava tão cansada que adormeceu em pé. Anacleto encontrou um rancho de tropeiros abandonado, com um buraco no teto e fogão de pedra; fizeram uma pequena fogueira e comeram pão com queijo. Depois de comer, o velho ficou em silêncio por um instante, olhando para as brasas, e pegou a caixa de lata, desfez o pano e colocou-a nas mãos de Luzia.
“Isto é seu, menina.”
“O que é?”
“Sua mãe me deu anos atrás, quando estava doente. Disse: ‘Guarde para minha menina. Quando ela precisar de ajuda, dê a alguém que saiba ler’. Eu nunca abri, não sei ler. Escondi debaixo do fogão de casa. Quando a sinhá mandou o recado, soube que a hora havia chegado. Desenterrei hoje cedo.”
Luzia olhou para a caixinha por um momento, depois abriu a tampa. Dentro havia uma folha de papel dobrada em quatro, amarelada, com a caligrafia firme e trêmula de um homem velho. Leu devagar, à luz da fogueira, movendo os lábios. Ficou mais pálida a cada linha. Quando chegou ao fim, leu de novo desde o começo. Depois, pôs o papel no colo e encarou as brasas.
“O que é, Luzia?”, perguntou Damião.
Ela respirou fundo e leu em voz alta, baixinho:
“Eu, Bento Rosário, Barão de Santa Clara, enfermo e temeroso da morte, declaro perante Deus e duas testemunhas que tenho filhos entre meus escravizados e que nunca os reconheci por vergonha e malícia. São eles: Luzia, filha de minha escrava Rita; Tomé, filho de Maria Benedita; Felícia, filha de Inácia; e Zeca, filho de Joana. Reconheço os quatro como meus filhos naturais, concedo-lhes inteira liberdade e deixo a cada um a soma de um conto de réis. Peço perdão a eles e a Deus; sei que não o mereço. Santa Clara, 12 de março de 1876. Bento Rosário.” E abaixo, as testemunhas: padre Gonçalo Martins, Dr. Aurélio Pessanha.
Ninguém falou por um longo tempo.
“O velho barão…”, disse Damião finalmente. “…o pai da sinhá.”
“O pai da sinhá”, disse Luzia, e sua voz tremia. “Meu pai, meu e do Tomé, da Felícia e do Zeca. Então… ela é sua irmã.”
“Sim. E ela não sabe.”
Anacleto balançou a cabeça devagar. “Foi o velho barão que me libertou no mês em que morreu, deu-me esta caixa e mandou entregá-la a Rita. Disse: ‘É a única coisa boa que faço na vida’. Eu entreguei. Rita sabia o que estava dentro porque o padre leu para ela. Mas escrava com papel na mão não vale nada, filha. Ela teve medo de que o genro do velho rasgasse o papel e vendesse você para longe. Então esperou. Esperou e adoeceu.”
Luzia apertou a carta contra o peito. “Então eu sou livre.”
“Pelo que está escrito, filha, você sempre foi.”
Ela olhou para Damião. Ele olhou para ela, sem saber o que dizer. Pela primeira vez desde que saíram da fazenda, os dois emudeceram.
“Vamos contar a eles assim que…”
“…assim que tivermos provas. Primeiro o Rio. Primeiro o Dr. Valadares.”
Ela dobrou o papel com cuidado e colocou-o na mão dele. “Guarde com você, junto com a outra carta. Se um de nós cair, o outro precisa ter as duas.”
Damião pegou o papel, enrolou-o junto com a carta de Sinhá Amélia e costurou ambos no forro do próprio chapéu, com uma agulha e linha que trazia no bolso — era carpinteiro, mas sabia costurar bem. “Tá seguro”, disse.
Ficaram em silêncio por um momento. A fogueira estalava.
“Eu tenho uma coisa para você”, disse Damião.
Tirou do bolso um anel de madeira escura, bem lixado, com um pequeno risco claro no meio. “É de jacarandá. Fiz há dois anos. Estava esperando ter coragem de dar.”
Luzia pegou o anel, girou-o na mão e colocou-o no dedo. Servia perfeitamente.
“Por que esperou?”
“Porque não tinha nada para oferecer em troca, nem casa, nem liberdade, nem nome.”
“Você me deu o anel, isso é tudo.”
“Foi você que fez.”
No sábado à tarde, ao atravessarem um pasto aberto, ouviram de novo os latidos, desta vez muito perto.
“Para a mata!”, gritou Anacleto.
Correram para um bambuzal. Luzia tropeçou numa raiz e caiu; Damião ergueu-a e empurrou-a para dentro do mato. Os três agacharam-se entre os ramos grossos, prendendo a respiração.
Do outro lado do pasto, entre as árvores, surgiu um cavaleiro numa mula preta. Era Nicanor. Os cães puxavam a corda, farejando o chão. Ele estancou a mula a umas 30 passos do bambuzal, ficou olhando em silêncio por um instante, depois desmontou e caminhou devagar, com uma mão no revólver.
“Tio Anacleto”, disse em voz alta. “Eu sei que o senhor está aí.”
O velho levantou-se devagar e saiu do bambuzal, com as mãos à vista. “Boa tarde, seu Nicanor. O senhor anda longe de casa.”
“Vim apanhar lenha com a mula amarrada na árvore, a duas léguas daqui.”
Nicanor sorriu sem humor. “O senhor é um péssimo mentiroso, tio. Onde estão eles?”
“Não sei de quem o senhor fala.”
Nicanor olhou para o bambuzal. Os cães ladravam, loucos para entrar. Luzia segurou a mão de Damião com tanta força que as unhas arranharam a pele dele.
“Eu podia soltar os cães”, disse Nicanor. “Eles entram aí em dois minutos, mas o senhor é velho, e eu não gosto de judiar de velhos. Dou uma chance: entregue os dois e eu vou embora sem queixa ao barão.”
“Não tenho quem entregar.”
Nicanor suspirou, afrouxou a guia dos cães. Os três animais dispararam em direção ao bambuzal. Damião ergueu a enxó bem alto, mas, antes que os cães chegassem, Anacleto soltou um assobio fino e longo. Os cães pararam no meio do caminho, confusos, e olharam para o velho; um deles abanou o rabo.
“Eu criei esses três quando eram filhotes”, disse Anacleto com um sorriso triste. “Antes de o barão vendê-los para você, Nicanor.”
O capitão do mato ficou de boca aberta. Foi só um segundo, mas bastou.
“Corram!”, gritou Anacleto.
Luzia e Damião saltaram do bambuzal e dispararam para o outro lado. Nicanor sacou o revólver; o velho bateu-lhe no braço com as duas mãos, e o tiro subiu alto no céu.
“Desgraçado de velho!”, rosnou Nicanor, atingindo-o no ombro com a coronha da espingarda. Anacleto caiu de joelhos, mas continuou segurando a bota do capitão. Nicanor libertou-se com um coice e disparou atrás dos cães.
Quando chegou à beira da mata, os fugitivos já haviam sumido na floresta densa. Nicanor ficou ali, ofegante, com o revólver na mão. Voltou-se, olhou para Anacleto caído e não disse nada; recolheu a corda, prendeu os cães e foi embora. Anacleto ficou no chão até o sol baixar. Estava com o ombro roxo e uma costela trincada, mas sorria.
Luzia e Damião caminharam a noite inteira sem parar. Quando o domingo amanheceu, estavam numa colina que dominava Barra do Piraí. Lá embaixo, a estação de trem parecia um brinquedo: a plataforma de madeira, o telhado vermelho, a locomotiva soltando fumaça. O primeiro trem para o Rio saía às 6h10.
Estavam sujos, com os pés sangrando e os olhos fundos. Luzia lavou o rosto num riacho, penteou os cabelos com os dedos e amarrou o lenço de novo.
“Vamos separados”, disse Damião. “Você compra passagem de segunda classe. Eu entro escondido num vagão de carga no fim do trem. Encontramo-nos na estação principal, no Rio. Se alguém perguntar, você diz que viaja a serviço de uma senhora.”
“E se eu não encontrar você?”
“Eu encontro você.” Ele pousou a mão no rosto dela, demoradamente. “Vou atrás de você, aconteça o que acontecer. Eu sei.”
Separaram-se. Damião seguiu pelos trilhos, perto dos vagões de carga; Luzia desceu o morro, entrou na estação por uma porta lateral e dirigiu-se à bilheteria. O bilheteiro era um homem baixinho de óculos redondos. Quando viu Luzia, parou de contar o troco.
“Para onde, menina?”
“Rio de Janeiro. Segunda classe.”
“Seu nome?”
“Maria”, disse ela depressa. “Maria das Dores.”
Ele olhou para ela, depois para um pedaço de papel pregado na parede ao lado da bilheteria — era um telegrama. Luzia viu a palavra de longe e sentiu o chão sumir sob os pés.
“Um momento, moça”, disse o bilheteiro, a voz mudando de tom. “Preciso conferir uma coisa.”
Ela virou-se para sair, mas, à sua esquerda, um homem de chapéu levantou-se de um banco na plataforma. Era Jacob, o capanga de Nicanor, que passara a noite sentada ali. Ele caminhou direito em sua direção, sorrindo.
“Bom dia, Luzia”, disse ele. “O barão manda lembranças.”
Luzia correu. Jacob agarrou-a pelo braço. Ela gritou. A plataforma estava cheia de gente: um fazendeiro com a família, duas freiras e três operários. Todos voltaram-se.
“Me larga!”, gritou Luzia. “Eu não sou escrava de ninguém!”
“Cala a boca”, rosnou Jacob, apertando-lhe o braço. Ninguém entendeu o que ela dizia.
Foi nesse instante que Damião apareceu. Saiu correndo de trás de um vagão de carga, com a enxó na mão, com o ar de quem já não pensava em mais nada. Jacob viu-o e ergueu o braço para se defender; Damião derrubou-o com uma ombrhada, e o capanga caiu sobre os trilhos.
Luzia estava livre por um segundo. “Corre, Luzia!”
Ela correu, mas, na beirada da plataforma, um cavalo preto cortou-lhe o caminho. Era Nicanor. Estava montado, com o revólver na mão apontado para o peito de Damião.
“Abaixa isso, rapaz”, disse Nicanor com voz dura. “Hoje eu não ganho por você, ganho pela moça; se eu atirar em você, quem leva a culpa sou eu. Mas, se der mais um passo, eu atiro.”
Luzia olhou para Damião. Ele olhou para ela. Naquele segundo, ambos entenderam a mesma coisa: se ele lutasse, morreria; e, se morresse, o papel no seu chapéu morreria com ele.
“Vai, Damião”, disse Luzia. “Vai para o Rio, faz o que combinamos.”
“Luzia…”
“Vai!”
O apito do trem soou longo. As portas dos vagões fecharam-se. A locomotiva começou a se mover. Damião largou a enxó, correu para a beira dos trilhos, saltou para o último vagão de carga e entrou por uma porta aberta, despencando sobre uma pilha de sacos de café. Deitou-se entre os sacos, o rosto colado ao chão. Pela fresta da porta, viu a plataforma afastar-se, viu o cavalo preto, viu Nicanor descer e apanhar Luzia com cuidado, sem violência — viu que ele lhe amarrava os pulsos com uma corda macia, como se não quisesse machucá-la.
Um cavalheiro de bigode na plataforma protestou em voz alta: “Isso é um absurdo! Uma jovem arrastada na frente de todo mundo!”
O chefe da estação respondeu, encabulado: “É a lei, doutor, escrava fugida.”
“O dono tem direito.”
Ninguém disse mais nada. As freiras desviaram o olhar; o fazendeiro meteu a família numa carruagem. O trem sumiu na curva. Damião deitou-se no escuro, imóvel, a cabeça sobre o braço e o gosto de sangue na boca — mordera o lábio até cortar. Pensou nas duas cartas no forro do chapéu, pensou nas palavras de Luzia: “Faça o que combinamos.” Foi assim que decidiu que não ia chorar; ia chegar ao Rio, ia achar o Pompeu, ia achar o Dr. Valadares, ia voltar.
O coronel Prado chegou a Santa Clara no domingo, às 15h, como combinado. Trouxe o tabelião de Campinas, um homem gordo e nervoso chamado Ramalho, e o velho servo Quirino, que trazia a maleta de documentos. O barão recebeu-os na varanda. Tinha olheiras profundas de quem não dormia havia três noites.
“Coronel… houve um contratempo.”
O coronel não moveu um músculo.
“A menina tentou fugir na quinta-feira.”
“Já foi pega, está a caminho. Chega amanhã cedo. Escrava que foge uma vez, foge duas”, disse o coronel. “Ela não foge mais, garanto.”
O coronel olhou para a bengala, depois para o horizonte do cafezal. “Fico em Vassouras, na estalagem. Volto no próximo domingo, às 14h. Se a menina não estiver aqui inteira, desisto. Se estiver machucada, desisto. Se eu souber que o senhor fez escândalo e a história virou conversa de vila, desisto também.”
“Tudo será como o senhor quer, coronel.”
O tabelião Ramalho limpou a garganta, sem jeito. “Coronel… apenas uma observação oficial. Para doação de imóvel, a lei exige a outorga uxória. Dona Ambrosina precisa assinar a escritura também.”
“Eu sei”, disse o coronel secamente. “Eu resolvo.”
O barão não perguntou nada; estava ocupado demais agradecendo. O servo Quirino, que segurava a maleta atrás do patrão, escutou tudo de cabeça baixa, sem alterar a expressão.
Na segunda-feira bem cedo, Nicanor chegou à fazenda com Luzia amarrada à garupa da mula. Ela estava com as mãos atadas na frente e os cabelos soltos; ele vinha sem o chapéu, com uma bota rasgada e os pés sujos. Ela não chorava; olhava para a frente com a expressão endurecida de quem já desistira de esperar. O barão desceu as escadas correndo e examinou a menina de cima a baixo, como quem examina um cavalo recém-comprado.
“Está intacta?”
“Inteira”, disse Nicanor. “Não toquei nela, só amarrei.”
“E o carpinteiro?”
“Fugiu, pulou num trem.”
O barão cerrou os dentes. “Pago mil hoje. O resto é no domingo, quando assinar a escritura. Fique aqui até lá, quero um homem de confiança à porta.”
“Fico”, disse Nicanor. “Mas quero o resto no domingo e em dinheiro, não em terra.”
O barão forçou um riso. Luzia foi levada para o antigo quarto de despejo, nos fundos da casa grande — um cômodo sem móveis, com cama de ferro, janela de grossas grades de madeira e porta de duas fechaduras. O barão foi até lá antes de trancar. Parou à porta:
“Ouça, Luzia. Eu não vou machucá-la, o coronel quer você inteira, só isso.” Pausou. “Seu namorado fugiu, mas eu tenho tempo e muitos amigos. Quando o pegarem, ele vai para as lavouras do sul. Pense nisso. Se se comportar até domingo, talvez eu esqueça dele.”
Luzia não respondeu; olhava para um ponto na parede. Ele fechou a porta. Ela pensou na carta, no forro do chapéu de Damião, e em algo que não podia contar a ninguém: a mulher que a protegera a vida inteira sem saber por quê era sua irmã. Pela primeira vez na vida, ser mercadoria a protegera; o barão não lhe tocaria porque ela valia 600 alqueires. Era uma proteção terrível, mas era a única que tinha.
Na segunda-feira à tarde, o Dr. Pessanha foi convocado a Santa Clara. O barão recebeu-o na sala e disse em voz baixa: “Doutor, minha esposa está em crise. Fala coisas sem nexo, anda pela casa no meio da noite e deu remédio à cozinheira. Acho que há esgotamento nervoso envolvido. Preciso de seu parecer.”
O Dr. Pessanha subiu e examinou Amélia no quarto trancado. Ela estava sentada à janela, com um vestido limpo e as mãos no colo, e respondeu a todas as perguntas com calma e clareza.
“Doutor”, disse ela no fim. “O senhor foi quem disse a meu marido que o coronel Prado procurava uma moça. O senhor sabe o que ele vai fazer com a Luzia.”
O médico corou. “Minha senhora, eu não sei de nada…”
“Sabe.”
Ele baixou os olhos, pegou a maleta e retirou-se. No escritório, disse ao barão que a senhora estava muito agitada e que recomendava repouso absoluto. O barão agradeceu e perguntou se o hospício Pedro II, no Rio, aceitava senhora de boa família.
“Aceitaria”, disse o médico, sem olhar para ele.
“Então, no dia seguinte ao contrato, eu a levo.”
O Dr. Pessanha saiu de Santa Clara naquela noite com um embrulho no estômago — não era remorso ainda, mas já parecia.
Presa no quarto, Amélia passava os dias olhando pela janela. Pensava em Luzia, pensava em tudo o que poderia ter feito diferente e, sem saber por quê, pensava no pai. O velho Barão Bento Rosário fora um homem de voz trovejante e mão pesada. Amélia crescera escondida pelos cantos da casa, tapando os ouvidos quando o tronco do terreiro era usado; nunca recebera dele um gesto de carinho, mas nas últimas duas semanas de vida ele mudara. Chamara o padre Gonçalo e o Dr. Pessanha ao quarto e ficara trancado com eles por duas horas; chamara o cocheiro Anacleto e o libertara; e, na véspera da morte, chamara a filha e dissera com a voz quebrada: “Amélia, perdoe o que fiz nesta casa. Cuide dos que ficam.”
Ela achara que era delírio da doença e nunca mais perguntara. Agora, sentada no quarto trancado, lembrava-se daquelas palavras: “Cuide dos que ficam.” Quem eram os que ficavam? Não sabia. Só sabia que a frase voltava e não ia embora.
Na quarta-feira à noite, a chave virou na porta. Ela sobressaltou-se, mas era apenas Benta com uma bandeja de comida. A cozinheira fechou a porta atrás de si e ficou ali, imóvel.
“Sinhá…”
“Sente-se, Benta. Eu não mereço sentar.” A voz da sinhá estava rouca. “Fui eu que contei ao barão. Ouvi tudo pela parede na noite em que a sinhá falou com a menina. Fui eu que avisei o senhor na quinta. Eu sei.”
Benta ergueu os olhos, sobressaltada. “A sinhá sabe?”
“Eu soube logo. Só a sinhá sabia do chá. Só a sinhá podia ter contado.”
Benta ajoelhou-se no chão e pôs-se a chorar em silêncio. “O barão prometeu a carta do Tobias. Pedi o papel hoje cedo, ele riu de mim, sinhá. Disse: ‘Quem vai libertar escravo por causa de cozinheira?’. Ele não vai fazer nada. Nunca faria. Eu entreguei a menina por nada.”
Amélia agachou-se ao lado dela, não a abraçou, mas pôs a mão no seu ombro. “Você fez mal, eu sei, mas ainda pode consertar.”
Benta limpou o rosto com o avental. “Como? No domingo, quando o coronel chegar, haverá muita gente na casa, o barão estará ocupado. Preciso sair deste quarto. Não sei a hora exata ainda, mas vai dar.”
Benta pensou um momento. “Há uma chave mestre, sinhá. Fica pendurada num prego atrás do armário da cozinha. O barão esqueceu, mas eu sei. Ela abre todas as portas da casa. A sinhá me avisa quando chegar a hora.”
“Aviso.”
Benta levantou-se, secou os olhos e saiu para o corredor. Passou pela porta do quarto de despejo, parou um momento e disse baixinho, quase sem voz, através da fresta: “Luzia… O Damião escapou. Está vivo. Foi para o Rio.”
Do outro lado da porta houve silêncio. Depois, bem baixinho, Luzia respondeu: “Obrigada, tia Benta.” E, pela primeira vez desde sábado, sorriu.
Damião chegou ao Rio de Janeiro na madrugada de segunda-feira. Escondido entre sacos de café no último vagão de carga, saltou no escuro e escondeu-se atrás de uma pilha de caixotes até o amanhecer. Quando o trem parou na estação principal, perguntou a um carroceiro onde ficava o pomar de camélias no Leblon. O homem olhou-o desconfiado, mas depois explicou em voz baixa:
“Tome o bonde para Botafogo, siga a praia, passe o Jardim Botânico e procure um portão com flores brancas.”
Damião caminhou por quase quatro horas. No fim da manhã, chegou a um pomar cercado de camélias brancas, tão cheias de flores que o muro parecia coberto de neve. À porta, um menino de 10 anos fez perguntas curtas e entrou para chamar alguém. Quem apareceu foi um português gordo, de bigode branco e chinelos, o avental sujo de terra.
“Quem manda você vestido assim?”
“Sinhá Amélia, de Vassouras. Trago uma carta dela e outra que Luzia mandou entregar ao Dr. Valadares.”
Damião tirou o chapéu, rasgou o forro com os dedos e entregou ambos os papéis dobrados. O português leu a primeira de pé, à porta; quando acabou, guardou ambas com cuidado no bolso do avental.
“Entre, rapaz. Sou o Pompeu. Você está com fome, com sede e com cara de quem apanhou. Sente-se na cozinha, vou mandar buscar o doutor.”
O Dr. Teófilo Valadares chegou ao meio-dia de bonde, usando chapéu coco e bengala de castão de prata. Era um homem magro, de sessenta anos, óculos grossos e testa alta. Entrou na cozinha como quem entra em um tribunal. Leu primeiro a carta de Sinhá Amélia — que tinha apenas uma página e começava assim: “Dr. Valadares, o senhor cuidou dos negócios de meu pai e eu confio no senhor.” Leu-a devagar duas vezes. Depois, pegou a segunda folha, a amarelada, e encarou-a por um longo tempo; a mão que segurava o papel começou a tremer.
“Onde conseguiram isto?”, perguntou sem erguer os olhos para o tio Anacleto, pois Damião repetira a história do velho.
“Eu reconheço esta caligrafia.” Valadares ajeitou os óculos, esfregou os olhos e tornou a pô-los. “Cuidei dos negócios do velho Barão Bento Rosário por 20 anos. Era o homem mais cruel que já conheci; havia um tronco no terreiro e ele usava, como os outros, o chicote de montaria. Eu sabia que ele tinha filhos entre os escravizados, todos sabiam e ninguém dizia nada, mas nunca imaginei que tivesse escrito isto.”
Pompeu perguntou, sério: “O que diz?”
Valadares leu em voz alta, devagar. Quando terminou, ninguém falou nada. Uma panela fervia no fogão.
“Isso significa que a sua Luzia é filha do velho barão?”, disse Valadares. “E Amélia é meia-irmã dela, partilhando o mesmo pai com Tomé, Felícia e Zeca.”
“Sinhá Amélia não sabe”, disse Damião.
“O papel vale. Está assinado pelo barão e por duas testemunhas, o padre Gonçalo de Vassouras e o Dr. Aurélio Pessanha, médico. Se eles confirmarem, e se o tabelião reconhecer a letra do velho barão, isto tem valor de reconhecimento de filhos naturais e de carta de alforria. Os quatro são livres desde o dia em que ele morreu, em 1876!”
“Isso faz 9 anos!”, murmurou Pompeu. “Nove anos de Luzia, Tomé, Felícia e Zeca trabalhando como escravos numa fazenda que, por direito, é herança de sua própria irmã.”
Valadares apertou os lábios. “E agora o atual barão, sem saber, vai vender uma mulher livre. Isto está no artigo 179 do Código Penal: reduzir pessoa livre à escravidão. Pena de prisão de três a nove anos. Fora a violência, o cárcere privado e tudo o mais.”
Damião cerrou os punhos. “E ele vai entregá-la no domingo.”
“Então temos até domingo. O Dr. Pessanha é o médico que examinou a sinhá e disse que ela estava nervosa”, disse Damião, lembrando o que Luzia lhe contara. “Ele está do lado do barão.”
“Ele está do lado de quem lhe convém”, retorquiu Valadares. “Agora, preciso de papel, tinta e petição pronta até sexta-feira. E de um amigo jornalista.”
“O Nogueira, da Gazeta da Tarde”, disse Pompeu. “Ele adora uma história dessas.”
“Partimos na sexta à noite. Chegaremos a Vassouras no sábado. Estaremos na fazenda no domingo, antes de o coronel assinar.”
Damião endireitou a espinha. “Eu também vou.”
“Rapaz, você é um fugitivo. O barão mandou telegrama para a ferrovia inteira. Se aparecer em Vassouras, será preso na estação.”
“Eu vou”, repetiu Damião, devagar. “Eu prometi.”
Valadares olhou-o por um longo momento, depois deu um sorriso triste. “Pompeu, arrume um terno decente para este rapaz. Ele viajará como meu cocheiro; nenhum guarda de estação dá segunda olhada no cocheiro de um advogado.”
“E se ele vender a moça antes?”
“Pelo que você disse, a entrega só se dará no domingo com a presença do coronel. Temos até lá.”
“E se a levarem antes disso, iremos atrás”, disse o Dr. Valadares, fechando a maleta.
Viajaram na sexta-feira à noite num vagão de segunda classe. Valadares trazia o chapéu coco e a maleta no colo; ao lado dele, o jornalista Nogueira, da Gazeta da Tarde, um rapaz magro de bigode ralo, tomava notas num caderno. Damião sentou-se no banco da frente, com o paletó de um terno emprestado e o chapéu puxado até as orelhas, com cara de criado.
Chegaram a Vassouras no sábado de manhã. A primeira parada foi no cartório. O tabelião, sr. Teodoro, um velhinho de óculos na ponta do nariz que trabalhava ali havia 30 anos, recebeu-os na mesa de trabalho. Valadares mostrou-lhe a carta do velho barão e pediu que comparasse a assinatura com as que tinha nos livros. O tabelião foi à estante, tirou duas velhas escrituras de Santa Clara e colocou-as lado a lado sob a luz da janela. Analisou-as com uma lupa por um longo tempo.
“É a mesma mão”, disse ele. “A mesma pressão, o mesmo traço do ‘B’. Vi essa assinatura mil vezes, mas está mais trêmula do que nas escrituras.”
“Ele estava morrendo”, disse Valadares. “O senhor jura?”
“Juro e assino perante quem o senhor quiser.” Nogueira anotava tudo. Valadares apertou a mão do velho sem dizer palavra.
A segunda parada foi na igreja. O padre Gonçalo estava no altar limpando os castiçais; quando viu Valadares, largou o pano. O advogado estendeu a carta sem dizer nada. O padre leu o começo e sentou-se num banco da igreja com a mão no peito.
“Meu Deus… Eu escrevi esta carta. Ele ditou para mim, palavra por palavra, deitado na cama, com o Dr. Pessanha ao lado. Chorou o tempo todo, nunca vi um homem chorar assim.”
“Por que o senhor nunca fez nada?”
“Ele me disse que daria a carta à mãe da menina, disse que ela saberia o que fazer. Depois ele morreu, e Rita morreu logo depois. Eu…” O padre passou a mão pelo rosto. “Pensei que o papel se tivesse perdido ou que o genro o tivesse destruído. Tive medo de perguntar; todos tinham medo do genro, o barão me ajudou a consertar o telhado… Pensei que era melhor deixar quieto.”
“Luzia ainda é escrava”, disse Valadares. “Amanhã, às 14h, será vendida a um homem de 80 anos com contrato assinado.”
O padre empalideceu. “Luzia… a criada da patroa. Ela e mais três: Tomé, Felícia e Zeca. Estão todos na carta, são todos filhos do velho barão. Todos livres desde 1876.” O padre baixou a cabeça.
Foi Damião quem falou, postado atrás do advogado com o chapéu na mão: “Padre, a sinhá Amélia esteve aqui na quarta-feira. O senhor disse que não podia.”
O padre ergueu o rosto assustado. “Ela pediu ajuda. Eu disse que ia rezar.”
A voz de Damião não continha raiva, apenas cansaço. “A oração ajuda quem pode esperar. Luzia não pode. Ela será entregue amanhã às duas horas.”
O padre olhou para ele — era a primeira vez que um escravizado o encarava daquele jeito. Seus olhos encheram-se de lágrimas. “Eu fui covarde.”
“Pode deixar de ser”, disse Valadares.
O padre levantou-se devagar, ajeitando a batina. “Eu assino. Testemunho em qualquer lugar. Que Deus me perdoe a demora.”
A terceira parada foi na casa do Dr. Pessanha, às 18h. O médico abriu a porta de chinelos e jaqueta de casa; quando viu Valadares, o jornalista e, atrás deles, Damião, seu rosto mudou lentamente, como quem vê o fim de alguma coisa que fingia não ver. Valadares entregou a carta sem dizer palavra. Dr. Pessanha leu de pé, no batente da porta. Quando chegou aos nomes das testemunhas, deu dois passos para trás e encostou-se à parede.
“Eu me lembro”, disse. “O velho chorava como criança. Pensei que fosse delírio de fígado… era remorso.”
O médico passou a mão pela testa. “Fui à fazenda na segunda-feira e disse ao barão que a sinhá estava nervosa. Menti; ela estava mais lúcida do que eu. E fui eu que disse ao barão que o coronel Prado procurava uma moça, foi na mesa de jogo, como se fosse brincadeira.”
“O senhor pode consertar”, disse Valadares.
O médico ficou em silêncio, olhou para Damião, que o encarava sem dizer nada. Depois, foi à escrivaninha, pegou a pena e redigiu uma declaração de uma página, que assinou sem hesitar.
“Estarei lá amanhã”, disse. “Não por coragem, mas por vergonha.”
“Serve”, disse Valadares.
O juiz, Dr. Brandão, recebeu os quatro às 20h em sua casa, de roupão e chinelos. Era um homem de 50 anos, de rosto severo, que não gostava de ser incomodado fora do fórum. Leu os papéis em silêncio na sala de jantar, com uma xícara de café esfriando ao lado.
“O barão do Vale Verde é primo de minha mulher”, disse sem erguer os olhos.
“Excelência”, replicou Valadares. “Se a lei só vale quando o réu não é barão, ela não é lei.”
O juiz levantou os olhos e encarou-o por um longo tempo. Depois, olhou para o tabelião Teodoro, que viera junto com as mãos trêmulas; olhou para o padre Gonçalo, vermelho e suado; olhou para o Dr. Pessanha, que mantinha os olhos no chão; olhou para o jornalista, que continuava a anotar.
“O senhor sabe que isto vai sair no jornal.”
“Vai sair de qualquer maneira, Excelência. A questão é se o seu nome sairá do lado certo.”
O juiz franziu a testa, mas cedeu. “Vou redigir a ordem de depósito judicial para os quatro nomes da carta. Ficarão sob a guarda do padre Gonçalo enquanto corre a ação de liberdade. O oficial de justiça irá com vocês amanhã ao meio-dia para estar lá antes da assinatura. O barão será intimado a comparecer ao fórum amanhã às 9h.”
“Obrigado, Excelência.”
“Não me agradeça”, disse o juiz, assinando com firmeza. “Se eu fosse covarde, vocês não estariam aqui.”
Naquela mesma noite, na estalagem de Vassouras, o coronel Prado jantava sozinho em seu quarto, com Quirino atrás da cadeira. Estava de bom humor; na manhã seguinte, teria tudo o que queria. Houve uma batida à porta. Quirino foi abrir e deteve-se. No umbral estava uma senhora idosa em vestido preto, apoiada numa bengala, com uma criada ao lado; os cabelos brancos presos em coque, o rosto cheio de rugas e os olhos vivíssimos.
“Boa noite, Hermenegildo”, disse dona Ambrosina.
O coronel deixou cair o garfo e empalideceu. “Ambrosina… o que… Como você veio de trem?”
“Quirino mandou um telegrama ao nosso sobrinho. Não sabia que ele escrevia tão bem.” Ela entrou lentamente na sala. “Amanhã irei com você à assinatura do contrato.”
“Não precisa, mulher. Você está cansada…”
“Eu vou. Quero ver a menina. Quero assinar a outorga em pessoa.”
“Isso não é para você…”
O coronel hesitou, depois sorriu aliviado; pensou que ela desistira de fazer perguntas e que, como todas as esposas de homens poderosos, sabia que era melhor calar. “Claro, minha querida. Claro.”
Dona Ambrosina sentou-se numa cadeira, olhou para ele sem dizer nada por um longo tempo. Quirino, no canto, olhava para o chão para esconder o que se passava no rosto.
No domingo, a casa grande de Santa Clara estava impecavelmente limpa. O barão mandara lavar os assoalhos, encerar os móveis e abrir as janelas; vestia casaca preta, gravata de seda e um cravo na lapela. Caminhava de um lado para o outro na sala, as mãos nas costas, com um sorriso que não combinava com as olheiras profundas. Nicanor fazia guarda à porta da frente, encostado à parede, de braços cruzados. No corredor, Benta conduzia Luzia — vestida de branco, os cabelos presos para trás, olhos secos e mãos frias; ela não dissera uma palavra desde que a tiraram do quarto de despejo. Sinhá Amélia continuava trancada; Benta prometera avisar quando chegasse a hora.
Às 14h em ponto, a carruagem do coronel parou diante da varanda. Primeiro desceram o tabelião Ramalho e Quirino; depois o coronel, com a bengala e o chapéu alto; e por fim, amparada pela criada, uma senhora idosa vestida de preto. O barão ficou de boca aberta.
“Minha esposa quis vir assinar a escritura em pessoa”, disse o coronel com calma. “Dona Ambrosina, este é o barão do Vale Verde.”
“Muito prazer, barão”, disse ela com voz firme. “Obrigada pela hospitalidade.”
O barão recuperou a compostura e guiou-a até uma poltrona na sala. Ela sentou-se, apoiou a bengala entre os joelhos e olhou em volta. Quando Luzia foi trazida, examinou-a devagar de alto a baixo.
“Qual é o seu nome, minha filha?”
“Luzia.”
“Quantos anos você tem, menina?”
“Dezoito.”
“Você quer ir com meu marido?”
Um silêncio de pedra caiu na sala. O barão corou.
“Dona Ambrosina, a jovem não tem vontade própria…”
“Eu perguntei a ela.”
Luzia ergueu os olhos, olhou para a velha senhora e viu em seus olhos algo que não esperava — uma espécie de calma, quase uma atenção fria.
“Não, senhora”, disse ela. “Obrigada.”
A velha voltou-se para o tabelião. “Pode começar, Dr. Ramalho.”
O tabelião, suando, abriu a maleta, pôs os óculos e leu a escritura. Era um texto longo, cheio de termos jurídicos; em resumo, dizia que o coronel Hermenegildo do Prado Leite doava ao barão do Vale Verde 600 alqueires de terra na Fazenda Boa Vista, em Campinas, e que o barão cedia ao coronel a escrava Luzia, crioula, de 18 anos. O barão assinou primeiro com mão firme; depois o coronel. Ramalho pegou a pena e estendeu-a a dona Ambrosina para a outorga. A senhora pegou a pena, olhou para o papel, olhou para o marido, olhou para o barão. Depois, lentamente, pousou-a sobre a mesa.
“Eu não assino, Hermenegildo”, disse.
A voz do coronel saiu seca: “O que é isso, Ambrosina?”
“Não assino. Você disse ontem que eu vinha assinar? Eu disse que vinha. Não disse que assinaria. Vim ver com meus próprios olhos.”
O coronel deu um passo à frente. “Mulher, não faça escândalo.”
“Escândalo?” Dona Ambrosina olhou-o direto nos olhos. “Cinquenta e dois anos de casamento, Hermenegildo. Todos os anos eu esperei por um filho. Em 1838 fui ao Dr. Alvarenga em Campinas; ele me examinou e disse que eu era saudável, que o problema não era meu. Nunca contei a ninguém para você não se envergonhar.”
Ninguém respirava na sala.
“Agora, com 80 anos, você quer comprar uma menina de 18 para consertar o que a natureza resolveu, e vai pagar com terras que nem são suas. Eu não assino. Essa fazenda veio de meu pai; sem minha assinatura, este papel não vale o papel em que foi escrito.”
O coronel ficou vermelho, depois roxo, depois muito pálido; esteve a pique de cair sobre a bengala, e Quirino correu a segurar-lhe o braço. O barão gritou:
“Coronel, sem a assinatura dela eu perco tudo!”
“O senhor não leu a lei antes de tentar vender uma pessoa, barão?”, perguntou dona Ambrosina sem elevar a voz. “Quem não lê a lei antes costuma aprender depois.”
Nesse instante, a campainha da porta da frente tocou. O Dr. Valadares, de chapéu coco e maleta, entrou na sala em fila indiana; atrás dele vinham o padre Gonçalo, o Dr. Pessanha, o tabelião Teodoro, o jornalista Nogueira, um homem de farda azul que era o oficial de justiça e, por fim, com o terno emprestado, Damião. O barão viu Damião e sobressaltou-se.
“Aquele preto é fugitivo! Nicanor, prenda-o!”
Nicanor descolou-se da parede, deu dois passos e parou. Valadares ergueu uma folha de papel.
“Seu Nicanor, o senhor é pago para capturar escravos fugitivos, não é?”
“É o meu trabalho.”
“Esta jovem é livre desde 1876. Carta do falecido Barão de Santa Clara, assinada por ele e duas testemunhas, reconhecendo-a como filha e concedendo-lhe liberdade. Eis o texto, a assinatura do juiz e a ordem de depósito. Leia.”
Entregou a folha. Nicanor leu devagar, mexendo os lábios. O barão gritava ao fundo, mas ninguém lhe prestava atenção. Quando terminou, Nicanor dobrou o papel com cuidado e devolveu-o.
“Livre não é fugitivo”, disse.
“Nicanor!”, berrou o barão. “Eu pago! Você me deve 1.500.000 réis, fico com os 1.000 que já recebi…”
“Meu serviço acabou”, disse o capitão do mato, ajeitando o chapéu. “Vou caçar escravo fugitivo, não trabalho para crime. E se o juiz precisar de testemunha de como a menina foi capturada, eu conto.”
Saiu pela porta da frente, assobiando para os cães.
“Para constar”, disse Valadares em voz alta, “vou ler a carta.”
Abriu o papel amarelado e leu devagar:
“Eu, Bento Rosário, Barão de Santa Clara, enfermo e temeroso da morte, declaro perante Deus e duas testemunhas que tenho filhos entre meus escravizados…”
Repetiu cada linha, nomeando Luzia, Tomé, Felícia e Zeca. Silêncio total.
“Eu escrevi esta carta”, disse o padre Gonçalo com voz trêmula. “Foi ditada a mim.”
“Juro perante Deus, assinei como testemunha”, disse o Dr. Pessanha, de cabeça baixa.
“Confirmo cada palavra. A assinatura é do finado barão”, disse o tabelião Teodoro. “Reconheço-a por comparação com os livros do cartório.”
O barão olhava de um para o outro, incapaz de responder. O oficial de justiça deu um passo à frente e leu:
“Por ordem do juiz, Luzia, Tomé, Felícia e Zeca, filhos reconhecidos do finado Barão de Santa Clara, ficam sob a guarda do padre Gonçalo enquanto corre a ação de liberdade. O sr. Barão do Vale Verde fica intimado a comparecer ao fórum amanhã às 9h.”
“Quatro!”, berrou o barão. “São meus! Herdei todos!”
“O senhor não herdou ninguém”, disse Valadares. “Eles eram livres.”
Benta, que estava à porta, abriu-a mais. Lá fora, no terreiro, aglomerara-se uma pequena multidão de escravizados, atraída pelo alvoroço; na frente estavam três pessoas que Benta fora buscar na senzala: Tomé, o ferreiro, alto e calado; Felícia, a lavadeira de mãos vermelhas; e o menino Zeca, de olhos arregalados.
“Eles estão aqui”, disse Benta com voz firme.
O padre Gonçalo foi até Luzia e tomou-lhe as mãos. “Venha comigo, minha filha.”
Luzia olhou para ele, depois olhou para o lado. Damião estava a dois passos; seu rosto estava molhado, e nem sabia havia quanto tempo. Ela foi até ele, que abriu os braços. Ela atirou-se em seu peito, sem dizer palavra, o rosto colado à blusa dele.
“Eu disse que voltava”, murmurou Damião, rouco.
O barão deu um salto à frente, tentando agarrar Luzia pelo braço, mas Benta, postada à porta, interpôs-se com os braços abertos.
“Não, barão.”
“Sai da frente, cozinheira!”
“Não saio.”
E então uma voz calma e nítida ouviu-se na escada: “Anselmo.”
Todos ergueram os olhos. Amélia descia os degraus devagar, em vestido de seda cinza, a cabeça erguida. Benta abrira a porta de seu quarto com a chave mestre no meio da confusão; ela ouvira tudo da escada. O barão empalideceu.
“Amélia, volte para o quarto. Você está doente.”
“Não estou doente.” Ela parou no último degrau, olhou para o terreiro, para os três à porta, e para a moça nos braços de Damião. “Meu pai teve quatro filhos nesta fazenda.”
Ninguém respondeu.
“Eu gostava dela”, disse Amélia, quase para si mesma. “Tomé, Felícia, Zeca… Eu gostava deles e nunca soube por quê. Achava que era o gênio.” A voz falhou. “Meu pai pediu perdão no último dia. Disse: ‘Cuide dos que ficam’. Eu achei que era delírio.”
Luzia soltou-se de Damião e deu um passo à frente. “Eu descobri na serra”, disse. “Não podia contar. Me perdoe.”
Cruzou a sala, parando a um passo da irmã. “Eu devia ter percebido antes. A senhora me tirou de lá.”
“Não me chame de ‘senhora’.”
Luzia deu o último passo e abraçou-a. Abraçou-a com tanta força que ambas tremeram. Tomé, Felícia e Zeca entraram na sala devagar, sem saber o que fazer; Amélia estendeu uma mão, e Felícia tomou-a, depois Tomé, e por fim Zeca, que não resistiu e atirou-se também. Ninguém na sala dizia nada. O barão olhou em volta, buscando um álibi; o coronel, apoiado em Quirino, desviava o olhar; Nicanor sumira; o Dr. Pessanha encarava o chão.
Amélia voltou-se para o marido, ainda segurando a mão da irmã. “A Fazenda Santa Clara é minha, Anselmo. Está em meu nome, foi herança de meu pai, é de família, é minha. A noite em que o senhor disse que perderíamos tudo em novembro… eu entendi. Eu nunca…”
O barão abriu a boca, mas nada saiu. O jornalista Nogueira escrevia sem parar.
Dona Ambrosina observava tudo da poltrona; levantou-se, apoiando-se na bengala, e olhou para o coronel, que ainda estava de boca aberta, escorado no braço de Quirino.
“Eu conheci Bento Rosário”, disse com voz fria. “Era um monstro; fazia filhos em escravizadas e as deixava no tronco. Você ia fazer o mesmo, Hermenegildo. Vamos para casa, temos muito o que conversar.”
“Ambrosina… Quirino… a carruagem.”
Os três partiram devagar — o velho corcunda e a velha de cabeça erguida. Atrás deles ia o tabelião Ramalho, carregando a maleta e a escritura que nunca valera. O barão ficou sozinho no meio da sala, entre os móveis encerados, com o cravo murcho na lapela e a pena ainda na mão.
Tentou fugir na mesma noite: saltou pela janela do escritório, montou no cavalo mais rápido e galopou em direção à estação de Barra do Piraí com uma mala cheia de dinheiro e joias. O chefe de estação — o mesmo que dissera “É a lei” quando levaram Luzia — reconheceu-o na plataforma e chamou os soldados. Foi preso antes que o trem chegasse.
O julgamento durou cinco meses. O jornal Gazeta da Tarde publicou a história em oito partes, e o caso virou assunto em todo o império. O Dr. Valadares atuou como assistente de acusação; Amélia, Luzia, o tabelião Teodoro, o padre Gonçalo, o Dr. Pessanha e até Nicanor testemunharam. No fim, o barão foi condenado a seis anos de prisão por falsificação, cárcere privado e violência contra pessoa livre.
A soma de dinheiro que o velho barão deixara a cada um dos quatro filhos foi paga com juros da herança, que agora pertencia a Amélia, sem que ninguém precisasse pedir. Luzia guardou a maior parte, mas usou parte dela para pagar a carta de alforria de Damião — o que a irmã fez questão de assinar de graça, enquanto Luzia fazia questão de pagar; as duas discutiram por um dia inteiro até que Damião resolveu o assunto assinando os dois papéis.
Amélia ficou com Santa Clara; vendeu metade das terras para pagar as dívidas legítimas e, em dezembro daquele ano, antes que a lei chegasse por força própria, libertou todos os escravizados da fazenda. Os que quiseram ficar passaram a receber salário. Benta foi uma das primeiras a receber a carta, junto com o neto Tobias; continuou na cozinha da casa grande, mas agora a patroa a chamava de “dona Benta”. Por muito tempo, a velha não conseguia olhar nos olhos de Amélia; um dia, a sinhá disse: “Você me deu a hora certa no domingo, estamos quites”, e Benta chorou na cozinha uma tarde inteira.
Tomé abriu uma ferraria na vila de Vassouras; Felícia montou uma lavandaria com duas ajudantes; Zeca foi para a escola do padre Gonçalo e aprendeu a ler tão rápido que o padre passou a chamá-lo para ler as leituras da missa. Os três chamavam Amélia de irmã — no começo com jeito acanhado, depois naturalmente.
O coronel Prado voltou a Campinas na carruagem da esposa e não falou durante toda a viagem; dona Ambrosina mudou-se para um quarto separado. Ele morreu dois anos depois, sem filhos; as terras foram divididas entre os sobrinhos, exceto 50 alqueires de terra roxa perto do rio, que dona Ambrosina doou em vida, por escritura pública com assinatura sua e do tabelião Ramalho como testemunha, entregues a Luzia com um bilhete: “Para a moça que disse ‘não’ a mim no quarto daquele homem; ela merece mais do que terra.” A terra que o barão tanto desejara acabou nas mãos certas.
O casamento realizou-se na igreja de Vassouras numa manhã de abril. O padre Gonçalo celebrou sem cobrar nada e chorou durante toda a cerimônia. Luzia vestia um simples vestido branco, que ela mesma havia costurado; Damião usava um terno novo que Pompeu mandara do Rio, com uma camélia branca na lapela. Amélia, Tomé, Felícia e Zeca ocupavam o primeiro banco juntos.
O Dr. Valadares foi o padrinho e fez questão de dar um presente: uma caixinha de couro envolta em papel de seda. Dentro estava o colar de pérolas que Sinhá Amélia vendera por 300 mil réis; ele fora à joalheria, descobrira onde a joia estava e pagara o preço que o ourives pediu — três vezes mais —, simplesmente por teimosia. Luzia olhou para o colar por um longo tempo, depois foi até a irmã e colocou-o no pescoço dela.
“É de sua mãe”, disse Amélia.
“É da mãe que me criou”, replicou Luzia. “Não sua. Mas quero que fique com a senhora. Estou devolvendo porque agora posso.”
Amélia segurou as pérolas com as duas mãos, sem dizer nada; pela primeira vez em muitos anos, sorriu sem esforço.
No cartório, ao registrarem o casamento, o escrivão perguntou a Luzia qual sobrenome desejava usar. Amélia ofereceu o seu, Rosário, o mesmo do pai, que ambas tinham em comum. Luzia agradeceu, balançou a cabeça e disse:
“Quero o nome da minha mãe. Luzia Rita.”
O escrivão escreveu. Amélia observou a tinta secar no papel e compreendeu que a irmã acabara de lhe dar uma lição que levaria a vida inteira para aprender.
Após a festa, os dois recém-casados foram morar na terra que dona Ambrosina possuía. Damião construiu a casa com as próprias mãos, usando madeira de jacarandá e telhas vermelhas; na porta, entalhou um pequeno desenho: uma moça lendo e um carpinteiro ao lado.
Luzia abriu uma escola no paiol e ensinou quem quisesse vir — adulto ou criança, livre ou recém-liberto — a ler. Aos domingos, a irmã vinha de Santa Clara em carruagem de aluguel e ficava para o almoço; muitas vezes, Tomé, Felícia e Zeca vinham junto.
Anos mais tarde, quando uma menina chegou à escola perguntando por que a professora nunca tirava um anel de madeira do dedo, Luzia respondeu simplesmente: “Foi o primeiro presente que recebi sem precisar agradecer a ninguém”, e mandou a menina de volta para a lição.