ESCÂNDALO NO TIMÃO: Craque Neto detona Diniz e revela o esquema que enterra 3 garotos de 51 gols — “eles vão embora baratinho e o Corinthians quebra!”
O Parque São Jorge vive aquele clássico paradoxo que consome a paciência de qualquer corinthiano lúcido: o time principal patina, flerta com a zona de confusão na tabela, sofre para furar retrancas e vê seu ataque viver um jejum de ideias constrangedor. Enquanto isso, do outro lado do muro, nas categorias de base, as redes balançam com uma frequência assustadora. Um trio de garotos do sub-17 empilhou cinquenta e um gols na temporada. Sim, cinquenta e um gols. Mas, sob a batuta de Fernando Diniz, os portões que levam ao gramado principal parecem trancados a sete chaves para quem pede passagem na base.
O assunto ganhou contornos de desabafo nacional no programa comandado por Craque Neto na televisão aberta. Indignado com a letargia do departamento de futebol e com a teimosia tática que prefere improvisar atletas experientes em funções alienígenas em vez de dar espaço a quem realmente tem fome de bola, o ex-camisa 10 não economizou nas críticas. O diagnóstico é tão claro quanto incômodo: o clube prefere sangrar a folha de pagamento bancando apostas caras, contratações obscuras e medalhões sem entrega do que olhar para a fartura que floresce dentro de sua própria casa.
Uma Goleada por Oito a Zero que Ninguém Quis Ver
O estopim para a discussão aconteceu logo após mais uma exibição de gala dos meninos alvinegros pelo Campeonato Brasileiro Sub-17. Na tarde em que o Sportv transmitia as partidas da categoria, o Corinthians simplesmente atropelou o Atlético Goianiense por um sonoro oito a zero. Foi um massacre esportivo que não deixou dúvidas sobre a superioridade coletiva e o faro de gol de uma safra que desponta como uma das mais talentosas do Terrão nos últimos anos.
No centro desse rolo compressor está Gabriel Moscardo — irmão de Gabriel Moscardo, volante vendido recentemente ao futebol europeu. O garoto anotou dois gols na goleada e chegou à marca individual expressiva de vinte bolas na rede na temporada. Ao lado dele, o atacante Luca Caramico não fica atrás, somando dezenove gols com a mesma camisa. Para fechar a conta do ataque avassalador, a ponta esquerda conta com a eletricidade de Rian Ladeira, autor de doze tentos e principal desafogo em velocidade pelos lados do campo. Juntos, os três somam cinquenta e um gols marcados.
Qualquer comissão técnica de clube grande, ao se deparar com números dessa magnitude em meio a uma crise ofensiva profunda no time principal, convocaria os jovens para treinar com os profissionais na manhã seguinte. Mas no Corinthians a lógica sempre caminha na contramão. O clube prefere insistir em soluções que já se provaram ineficazes no campo e caríssimas no orçamento.
A indignação ganha força ao colocar os números lado a lado. Enquanto a molecada do sub-17 destrói as defesas do futebol nacional de base, o torcedor é obrigado a assistir a Pedro Raul, que custou uma fortuna, recebe cerca de setecentos mil reais mensais e passou boa parte da temporada brigando com a bola e somando uma média de gols quase irrisória. A lista de gastos duvidosos não para por aí: folhas infladas com cifras milionárias para manter Vitinho, contratações questionáveis no mercado externo e testes com nomes sem nenhuma identificação com a camisa alvinegra.
O Ciclo Vicioso dos Balcões de Negócios e as Saídas Precoces
A cobrança de Neto e de outros ex-atletas presentes no debate, como Rosinei, tocou no ponto mais nevrálgico da política corinthiana: para onde vão esses meninos quando a oportunidade não surge?
O roteiro já é conhecido e se repetiu dezenas de vezes na última década. O jogador arrebenta nas categorias de base, não recebe espaço com a comissão técnica do profissional, completa dezoito ou dezenove anos sem ter tido uma sequência real na Arena e, de repente, surge uma negociação relâmpago nos bastidores. O atleta sai pela porta dos fundos, vendido a preço de banana para mercados secundários da Europa — como Ucrânia, Rússia ou Portugal —, intermediado por empresários que controlam fatias de seus direitos econômicos. Pouco tempo depois, o mesmo jogador explode no exterior, é revendido por centenas de milhões de euros e o Corinthians fica apenas com as migalhas do mecanismo de solidariedade da FIFA.
Casos emblemáticos não faltam na memória do torcedor. O atacante Gabriel Martinelli passou pela base alvinegra na infância, não teve o espaço merecido, rumou ao Ituano e, aos dezoito anos, já brilhava com a camisa do Arsenal, da Inglaterra, tornando-se peça constante na Seleção Brasileira. Zagueiros de nível mundial como Marquinhos e, mais recentemente, Murillo — hoje destaque absoluto na Premier League jogando pelo Nottingham Forest — mal esquentaram o banco no Parque São Jorge antes de serem despachados para cobrir buracos financeiros criados por más gestões.
A dependência crônica de agentes e intermediários que mandam e desmandam nas escalações e renovações contratuais do futebol brasileiro cria uma barreira artificial. Garotos com potencial gigantesco acabam travados porque não têm o empresário certo ou porque a diretoria precisa justificar o investimento milionário feito naquele atacante contratado a peso de ouro que ganha mais de um milhão de reais por mês. Se o menino da base entra e resolve, a diretoria passa vergonha perante a arquibancada por ter queimado o caixa em jogadores veteranos e improdutivos.
Entre as Invenções de Diniz e a Lógica dos Dezessete Anos
Se a política do clube trava o processo do lado de fora, dentro das quatro linhas as decisões de Fernando Diniz também ajudam a estrangular o surgimento de novos valores. Conhecido por suas convicções teimosas e por buscar soluções complexas para problemas simples, o técnico tem preferido reinventar a roda a olhar para as alternativas óbvias da base.
Nos últimos jogos, a torcida presenciou aberrações táticas no Parque São Jorge: o volante Raniele improvisado no miolo de zaga, o zagueiro Gustavo Henrique entrando no desespero como centroavante em finais de partida para tentar escorar bolas na área e o meio-campista Rodrigo Garro sendo recuado para atuar quase colado aos volantes na saída de bola, tirando o argentino do setor onde ele realmente é letal: a faixa central de criação, próximo aos atacantes.
Quando questionado sobre o uso dos garotos, o discurso comum nos bastidores é o de “proteger a joia” ou afirmar que atletas de dezessete anos ainda não possuem maturidade física e psicológica para encarar a pressão de um time que briga na parte de baixo da tabela. Trata-se de uma falácia histórica.
Grandes craques do futebol mundial e do próprio futebol brasileiro se firmaram justamente com dezessete anos. O Palmeiras colocou Endrick e Estêvão no time titular no olho do furacão, e os meninos decidiram títulos nacionais antes de completarem a maioridade. O próprio Neto relembrou que estreou como titular no time profissional do Guarani com apenas dezesseis anos, enfrentando zagueiros cascudos na década de oitenta e decidindo jogos na base da coragem.
Esperar o atleta completar vinte ou vinte e um anos nas divisões de base do Brasil é quase uma condenação ao ostracismo. Com essa idade, o jogador que tem talento de elite já deveria estar disputando campeonatos de primeira divisão ou já estaria na Europa. A idade de lapidar, lançar e dar cancha é o sub-17. É no calor da transição juvenil que o jogador ganha casca, aprende a ler o jogo no ritmo profissional e adquire a intensidade necessária para se tornar um ativo financeiro de dezenas de milhões de euros.
O Caso Iago Machado e o Abandono dos Talentos Defensivos
A negligência não se restringe aos artilheiros do ataque. O setor defensivo do Corinthians também guarda joias que sofrem para ter sequência enquanto a retaguarda do time principal bate cabeça. O zagueiro Iago Machado é o exemplo mais flagrante dessa miopia institucional.
Formado nas categorias amadoras do clube, o jovem defensor apresenta números físicos e métricas de desempenho que chamam a atenção de qualquer scout europeu. Relatórios internos de desempenho do clube já registraram que mais de dez por cento das ações de jogo de Iago são classificadas como ações de alto impacto físico — marca alcançada apenas pela elite dos defensores centrais do futebol mundial em termos de força nas divididas, impulsão e velocidade de recuperação. Trata-se de um zagueiro de imposição técnica e estatura, pronto para o combate.
No entanto, Iago e outros nomes da base, como o zagueiro Tchoca, enfrentam um processo de queimação contínua. Quando entram em campo esporadicamente, são escalados em equipes completamente desorganizadas taticamente, com a cabeça de área vulnerável e volantes que não cobrem os espaços. Ao sofrer o gol, a conta da derrota acaba sendo debitada na conta do jovem zagueiro recém-promovido, enquanto medalhões com atuações desastrosas seguem intocáveis na escala de preferências da comissão técnica.
Dois Modelos Opostos: A Lucidez de Quem Vende e a Cegueira Alvinegra
A miopia do Corinthians ganha proporções ainda mais dramáticas quando comparada à saúde financeira e esportiva dos dois maiores rivais do estado e do país nos últimos anos: Palmeiras e Flamengo. Ambas as equipes construíram hegemonias sustentáveis não apenas por terem poder financeiro, mas principalmente porque aprenderam a transformar suas categorias de base em usinas inesgotáveis de receita e retorno esportivo.
O Palmeiras vendeu Endrick, Estêvão, Danilo e tantas outras crias da Academia por quantias astronômicas, capitalizando o clube para manter um elenco competitivo e vencedor. O Flamengo faz o mesmo há anos, negociando suas promessas com os gigantes do continente europeu e usando o dinheiro para reforçar a equipe principal com jogadores tarimbados.
O Corinthians, por sua vez, vive em um regime de liquidação contínua. Ao final de mandatos presidenciais, a diretoria costuma promover verdadeiros saldões de jovens atletas para pagar contas do dia a dia, transferindo percentuais valiosos a intermediários e abrindo mão de receitas que poderiam sanar a dívida do clube. Estima-se nos bastidores que um trabalho sério, profissional e protegido de negociatas na base poderia facilmente gerar mais de um bilhão de reais em vendas no decorrer de duas gestões presidenciais. Mas para isso é preciso colocar a molecada para jogar. Ninguém compra quem fica escondido no banco de reservas do sub-20 assistindo a medalhões sem perna trotearem pelo campo.
O Futuro Bate à Porta e Pede Passagem
O Campeonato Brasileiro caminha para sua reta mais dramática, e o Corinthians não pode se dar ao luxo de abrir mão de soluções que estão ao alcance das mãos. O discurso de que o time precisa de descanso, de folgas prolongadas durante as paradas da Data FIFA ou de mais tempo para assimilar esquemas táticos mirabolantes não convence mais ninguém na arquibancada.
Gabriel Moscardo, Luca Caramico e Rian Ladeira não são promessas distantes: são realidades concretas no sub-17, empilhando gols, vitórias e mostrando uma fome de bola que anda em falta no elenco profissional. Não há justificativa técnica plausível para manter esses garotos longe do banco de reservas da equipe principal enquanto o torcedor roi as unhas vendo atacantes de salários milionários passarem noventa minutos sem acertar uma única finalização no alvo.
Fernando Diniz e a cúpula de futebol do Parque São Jorge precisam escolher qual caminho pretendem trilhar. Podem continuar reféns de convicções teimosas, bancando contratos inflacionados e esperando o time cair no abismo, ou podem finalmente ter a coragem de abrir as portas para os meninos do Terrão.
O Corinthians historicamente se reergueu de suas piores crises quando olhou para a sua base e confiou na coragem da sua molecada. Deixar cinquenta e um gols mofando nas divisões inferiores em nome de conveniências de vestiário não é apenas um erro tático; é um atentado contra o futuro do próprio clube.