ENDRICK NÃO PERDOOU! O QUE ACONTECEU COM O GAROTO DEPOIS DA CONFUSÃO QUE PAROU O JOGO E CHOCOU O BRASIL
Uma virada por 4 a 2 contra a Austrália deveria sugerir paz, mas o roteiro na Oceania entregou chiliques teatrais, bate-boca com arbitragem, a revolta de Galvão Bueno contra o calendário da CBF e o constrangedor episódio em que Carlo Ancelotti precisou berrar da beira do gramado para que seu principal craque não fugisse da marca da cal.Quem olha apenas para a frieza do placar no Suncorp Stadium corre o risco de comprar uma ilusão conveniente. Vencer a Austrália por 4 a 2, depois de um empate indigesto por 1 a 1 que já havia deixado um gosto amargo na boca do torcedor, soa como dever cumprido. No papel, o time de Carlo Ancelotti reagiu, balançou as redes quatro vezes, promoveu estreias e arrumou as malas para a próxima escala de sua excursão internacional. Mas o futebol raramente se resume aos números gravados no telão.O que se viu em Brisbane não foi o desabrochar harmônico de um ciclo técnico promissor rumo à Copa do Mundo, e sim um compilado indigesto de sintomas crônicos: descontrole emocional em lances banais, descompasso defensivo alarmante, indignação generalizada na imprensa e, coroando a tarde, uma cena quase constrangedora na marca do pênalti, onde a maior estrela da companhia precisou receber uma ordem direta do banco de reservas para não abrir mão da responsabilidade.A Seleção Brasileira saiu de campo com a vitória, mas deixou no ar a sensação incômoda de uma equipe que ainda não sabe quem é, como deve se portar e, pior, contra quem deveria estar medindo forças.O grito de Galvão e o balcão de negócios da cartolagemO apito final mal havia soado quando as redes e as bancadas esportivas foram tomadas por um desabafo que resumiu o sentimento de quem consome a camisa amarela há décadas. A voz indignada de Galvão Bueno não poupou adjetivos para classificar o nível do espetáculo e, sobretudo, a condução institucional do futebol brasileiro.”Não pode, gente! Não pode! Não dá! Primeiro não pode jogar duas vezes com a Austrália. Depois não pode jogar com a Índia. Aí é CBF, não é o Ancelotti, aí é CBF!”, disparou o narrador, sintetizando um mal-estar que transcende as quatro linhas.A bronca de Galvão toca no nervo exposto da atual gestão da entidade máxima do nosso futebol. Enquanto as grandes potências europeias se digladiam em partidas de altíssima octanagem pela Nations League — com a França medindo forças contra a Bélgica e a Itália duelando em confrontos pesados diante de rivais cascudos como a Turquia —, o Brasil se submete a uma turnê caça-níqueis do outro lado do planeta. Enfrentar duas vezes a modesta equipe australiana e, na sequência, embarcar para a Índia sob a justificativa de “expandir a marca” é uma renúncia deliberada à competitividade em troca de cachês internacionais.O contraste com os vizinhos de continente torna a situação ainda mais constrangedora. Sob a batuta de Marcelo Bielsa, o Uruguai compete com faca entre os dentes em qualquer latitude, encara pancadaria, perde de 3 a 1 e responde enfiando 4 a 1 no jogo seguinte com intensidade de final de campeonato.A Seleção Brasileira, por sua vez, parece presa a uma vitrine artificial, disputando amistosos sem peso competitivo que pouco preparam o elenco para o choque de realidade que virá no Mundial. Não há laboratório tático eficiente quando a cobaia não oferece resistência à altura e os critérios de escolha dos adversários passam exclusivamente pelas planilhas financeiras da cartolagem carioca.O destempero de Endrick e a pilha errada de um amistosoSe fora de campo o planejamento beira o absurdo, dentro dele o time deu mostras preocupantes de fragilidade psicológica. O episódio que mais chamou atenção no segundo tempo envolveu justamente a joia mais badalada da nova geração: Endrick.O lance começou em uma disputa física rigorosa contra o zagueiro Harry Souttar e o lateral Aziz Behich. Em um lance truncado, o atacante brasileiro puxou a camisa do adversário, recebeu de volta um puxão no calção e partiu para o empurrão peito a peito. Até aí, nada além do atrito comum entre um jovem atacante explosivo e defensores acostumados ao choque da escola britânica. O problema veio nos segundos seguintes.Na tentativa de conter a confusão, um integrante da comissão técnica australiana esticou o braço para apartar o entrevero e acabou resvalando a mão no rosto de Endrick. Foi o estopim para uma encenação digna de cinema mudo: o atacante desabou no gramado com as mãos cobrindo a face, rolando como se tivesse sido vítima de um golpe desleal. A reação dos companheiros foi imediata e histérica, gerando um princípio de tumulto generalizado em que ninguém sabia ao certo o que estava defendendo.Nas análises pós-jogo, o comentarista e apresentador Thiago Asmar, o Pilhado, não mediu palavras ao classificar a atitude do jovem como uma “cena cretina”. E a crítica tem fundamento técnico. Não se trata de pedir que um atleta seja passivo diante de agressões reais, mas ver uma das maiores promessas do futebol global simular um nocaute inexistente em um amistoso festivo contra a Austrália acende um sinal de alerta vermelho sobre o amadurecimento dos atletas.Esse destempero não foi um ponto fora da curva. Minutos antes, Raphinha já havia protagonizado uma sessão desmedida de reclamações com o árbitro durante a checagem de um gol da Austrália. O lance decorreu de uma saída totalmente estabanada do goleiro Otávio na pequena área — uma falha técnica evidente de posicionamento —, mas o capitão da equipe gastou minutos preciosos gesticulando e pressionando o juiz, como se o erro da retaguarda pudesse ser anulado no grito.A soma desses episódios desenha o retrato de uma equipe com pavio curtíssimo. Se diante de um adversário de segundo escalão e sem torcida hostil o Brasil demonstra essa facilidade para perder o foco e entrar em guerras de nervos inúteis, o que esperar quando a pressão sufocante de uma quartas de final de Copa do Mundo bater à porta?O caso da marca da cal: quando o craque quis ser coadjuvanteNenhum lance da partida, no entanto, foi mais emblemático das dúvidas que cercam este grupo do que o pênalti assinalado a favor da Seleção na reta final do segundo tempo.Com o placar marcando 3 a 2 para o Brasil — após Bruno Guimarães desempatar com um belo chute construído a partir de jogada tramada pelo ataque —, a arbitragem assinalou penalidade incontestável. Era o momento de matar o confronto. Com Raphinha já fora de combate ou preservado em outros setores, a bola repousou naturalmente nas mãos de Vinícius Júnior.Esperava-se o gesto natural que separa os coadjuvantes de luxo dos líderes incontestáveis: ajeitar a meia, caminhar com soberania até a cal e assumir a responsabilidade diante de todo o estádio. Mas o que as câmeras da transmissão da TV Globo flagraram provocou perplexidade imediata na cabine de narração.Vinícius olhou para trás, apontou o dedo indicador para Bruno Guimarães e disparou a frase que reverberou em todos os debates esportivos do país:”Bate, bate, Bruno!”O camisa 7 estava pronto para terceirizar a cobrança. Não era uma disputa de egos; era o inverso, uma renúncia inexplicável de quem é apontado como postulante à Bola de Ouro. O constrangimento só não se consumou porque o banco de reservas acordou a tempo.Aos berros na área técnica, visivelmente contrariado com a gentileza descabida de seu comandado, Carlo Ancelotti e seus auxiliares gesticularam vigorosamente. A ordem vinda de fora foi categórica, sem margem para debate: “Vini, você vai bater!”. Forçado pela cobrança pública do próprio treinador, Vinícius pegou a bola de volta, colocou-a sobre o círculo de cal e converteu a penalidade com extrema categoria, batendo forte no canto para selar o 4 a 2.A comemoração veio com sorrisos, mas o estrago simbólico já estava feito. Na mesa redonda das transmissões, a pergunta ecoou uníssona: por que o principal jogador do país hesitou?Vinícius Júnior cobra pênaltis com frieza costumeira no Real Madrid, converte sob a pressão ensurdecedora de um Santiago Bernabéu em noites europeias e carrega o peso do maior clube do planeta. No entanto, ao vestir a amarelinha, parece relutar em carregar o fardo solitário da decisão. A memória coletiva do torcedor ainda sangra com as lembranças do Catar, quando na disputa de pênaltis contra a Croácia as lideranças técnicas não estiveram na linha de frente para abrir as cobranças. Ter que receber uma ordem disciplinar do banco para assumir a bola da vitória contra a Austrália expõe um déficit de postura que nenhuma finta em velocidade consegue mascarar.Na zona mista: o discurso da humildade versus a cobrança do protagonismoFindo o confronto, os dois protagonistas do lance tentaram colocar panos quentes no ocorrido, apresentando narrativas que buscaram transformar a indecisão em um suposto pacto de companheirismo e generosidade.Vinícius Júnior atendeu os repórteres ainda no gramado e explicou a conversa com Bruno Guimarães sob a ótica da divisão de funções:”O Bruno é o cara que bate o pênalti para nós quando o Rafa [Raphinha] não está em campo. Eu achei que ele queria bater, mas ele sabe que eu estava precisando de um pouco de confiança. Fazia alguns jogos que eu não marcava gol pela Seleção, e era importante voltar a balançar as redes. O importante foi vencer, ajustar o que tem que ajustar e agora descansar, porque a viagem para a Índia é longa e a torcida lá está esperando pela gente.”Instantes depois, foi a vez de Bruno Guimarães endossar a cartilha da união do grupo perante os microfones, tentando afastar qualquer ruído de vestiário:”Aqui na Seleção a gente não tem vaidade nenhuma. No último jogo o Ancelotti mandou bater, hoje ele mandou o Vini bater. O Vini estava precisando desse gol para recuperar o ritmo, vinha lutando muito e foi lá e bateu muito bem. Como eu sempre digo, o grupo está fechado e o que importa de verdade é o bem do Brasil.”As declarações soam politicamente corretas e mantêm a diplomacia interna preservada. Mas o futebol de alto rendimento não é gerido pela cortesia. Ao justificar que precisava do pênalti para “recuperar a confiança”, Vini Jr. admite implicitamente a vulnerabilidade psicológica que o afeta quando enverga a camisa da Seleção. Um atacante desse calibre não deveria depender da anuência do volante ou de uma ordem externa do treinador para saber que a bola decisiva pertence a ele por direito e obrigação técnica.A liderança não se divide por consenso de compadrio; ela se impõe pela autoridade do talento nos momentos em que a maioria prefere dar um passo atrás.O labirinto tático de Don Carlo: testes demais ou rumo de menos?Para além das questões comportamentais, o duelo em Brisbane ofereceu um panorama detalhado das dores de cabeça táticas que tiram o sono de Carlo Ancelotti neste início de trabalho. A virada sofrida ainda no primeiro tempo escancarou fissuras que não podem ser varridas para debaixo do tapete.Ao optar por uma linha defensiva recheada de modificações e testes com novos nomes, o treinador italiano viu seu setor de marcação colapsar diante de cruzamentos simples e jogadas de transição direta dos australianos. A facilidade com que o adversário infiltrou nas costas dos laterais e aproveitou a indecisão dos zagueiros mostrou que a compactação entre a primeira e a segunda linha ainda é praticamente inexistente.O meio-campo, outrora o coração pulsante do futebol brasileiro, continua sendo um setor de transição rápida, mas de pouca retenção e criatividade refinada. O time depende em excesso das arrancadas individuais de seus pontas. Quando Vinícius ou Raphinha são dobrados pela marcação adversária, a bola queima nos pés dos volantes, forçando lançamentos longos e improdutivos.A grande discussão tática que surge deste confronto diz respeito ao posicionamento ofensivo:A carência do camisa 9 de ofício: Sem uma referência fixa de área com capacidade de retenção, o Brasil muitas vezes preenche a área com volume tardio, facilitando o corte de defesas altas como a australiana.O aproveitamento de Raphinha: Voando sob o comando de Hansi Flick no Barcelona — onde atua flutuando por dentro, tabelando com nomes como Lamine Yamal e Pedri —, Raphinha precisa de liberdade para articular pelo centro, operando quase como um falso nove móvel, em vez de ficar preso às tarefas de recomposição pela ponta direita.A trinca no meio-campo: Para liberar o talento vertical de Vini e Endrick, a Seleção precisa de pelo menos três homens com capacidade real de distribuição por dentro. Escalar formações que isolam os atacantes da linha de meias sobrecarrega as individualidades e transforma a criação em um exercício de improviso.Ancelotti tem razão ao pontuar que o calendário está em fase embrionária e que a margem para testes precisa ser utilizada agora. Mas testes só têm valor quando produzem respostas conclusivas. Jogar com a defesa desmontada contra um adversário de pouca técnica ensina pouco sobre a solidez que será exigida contra os gigantes do futebol global.O balanço de Brisbane: luzes e sombras no gramado australianoUma leitura detalhada dos dois confrontos disputados na Oceania ajuda a separar a euforia do resultado das carências estruturais que permanecem sem solução na Seleção Brasileira.Aspecto ObservadoAvaliação em CampoImpacto Prático no CicloPoder de ReaçãoPositivo: buscou o empate e a virada após estar perdendo por 2 a 1Mostra poder de indignação e fôlego físico para reverter placares adversos no segundo tempoLinha DefensivaCrítico: sofreu 3 gols em dois jogos contra a modesta AustráliaFalta de entrosamento gritante, hesitação em bolas aéreas e cobertura deficiente dos lateraisControle EmocionalNegativo: encenações teatrais de Endrick e excesso de reclamações de RaphinhaTime com tendência a perder o foco facilmente sob o menor indício de provocação do adversárioLiderança TécnicaEm aberto: Vini Júnior precisou de intervenção do banco para assumir o pênaltiCamisa 7 precisa abraçar o papel de protagonista absoluto sem hesitar ou transferir a responsabilidadeNível dos RivaisInsuficiente: duelos contra Austrália e futura ida à ÍndiaCalendário comercial da CBF que afasta o Brasil do enfrentamento com equipes da elite europeiaPróxima parada: o circo segue para a ÍndiaEnquanto as federações europeias organizam suas competições com foco cirúrgico no aprimoramento técnico e tático de suas seleções, a CBF coloca a delegação brasileira em um avião rumo a Nova Déli. A justificativa oficial fala em prestigiar mercados emergentes e retribuir o carinho de uma massa gigantesca de torcedores apaixonados pelo futebol pentacampeão.Nos bastidores, todos sabem que se trata de mais um compromisso puramente financeiro, que espreme os atletas fisicamente em viagens transcontinentais exaustivas e entrega retorno técnico quase nulo. Vencer equipes fragilizadas em gramados irregulares pode render belos vídeos para as redes sociais oficiais e alimentar o apetite de patrocinadores internacionais, mas não resolve o abismo metodológico que separa o futebol sul-americano do topo da pirâmide mundial.O Brasil deixa Brisbane com a vitória por 4 a 2 devidamente anotada nas estatísticas, mas com a bagagem abarrotada de dilemas não resolvidos.Carlo Ancelotti terá trabalho de sobra para colocar a casa em ordem. Precisará estancar os vazamentos de uma defesa que treme diante de qualquer cruzamento na área, exigir equilíbrio emocional de jovens que se perdem em provocações estéreis e, acima de tudo, trabalhar a cabeça de suas principais estrelas para que compreendam a magnitude da camisa que vestem.A lição que a tarde australiana deixa é tão simples quanto implacável: para quem sonha em voltar a governar o planeta da bola, não basta vencer na base do talento individual quando a água bate no pescoço. É preciso ter hierarquia clara, coragem para assumir o protagonismo sem olhar para o banco de reservas e parar de fingir que amistosos de exibição do outro lado do mundo preparam alguém para erguer a taça mais pesada do futebol.