CUCA QUEBRA O SILÊNCIO E SOLTA A BOMBA: Neymar tem grande chance de voltar justamente contra o Flamengo

Embalado por uma sequência histórica fora de casa e pela marca mágica dos 41 pontos, o Peixe derruba o fantasma da Série B, vê Cuca abrir as portas para a reestreia do camisa 10 e se prepara para o tira-teima contra o Flamengo.
O futebol tem dessas reviravoltas que desafiam qualquer tentativa de previsão cartesiana. Há pouco mais de dois meses, os corredores do CT Rei Pelé cheiravam a tensão e incerteza. Carros de líderes de torcidas organizadas estacionavam no portão principal, dedos eram apontados em ríspidas cobranças presenciais, planilhas de rebaixamento circulavam em grupos de mensagens e a palavra de ordem era uma só: sobreviver. Ninguém falava em espetáculo, ambição continental ou grandes aspirações na tabela. Tratava-se apenas de estancar a sangria de um clube que teimava em flertar com seus piores fantasmas recentes.
Hoje, a fumaça dissipou. E o cenário que se descortina na Baixada Santista após a virada incontestável sobre o São Paulo no Morumbi é de pura metamorfose.
Ao cravar 2 a 1 na casa do rival, o Santos não apenas quebrou um incômodo tabu de meia década sem vencer no Morumbi. O time atingiu os 41 pontos na classificação do Campeonato Brasileiro, empurrou a probabilidade matemática de queda para um patamar irrelevante e, de maneira quase vertiginosa, mudou a chave do seu discurso. Nos microfones da sala de imprensa, o semblante antes sobrecarregado do técnico Cuca deu lugar a uma expressão serena, de quem sabe que o trabalho começou a dar frutos no instante mais crítico da temporada.
Mais do que o alívio na pontuação, a entrevista do treinador trouxe a notícia que todo santista esperava ouvir desde que a janela de contratações reabriu: a volta de Neymar aos gramados deixou de ser uma quimera distante e virou um plano operacional concreto para o duelo contra o Flamengo.
O mapa da virada: o pacto secreto de Cuca para o segundo turno
Para compreender como um time desacreditado transformou o medo do rebaixamento em uma arrancada com ares de campanha histórica, é preciso voltar a uma conversa de vestiário ocorrida antes do confronto contra o Botafogo, ainda nas primeiras semanas da segunda metade do campeonato.
Naquele dia, com o elenco pressionado e a tabela sufocante, Cuca reuniu o grupo no centro do vestiário e propôs uma quebra psicológica com o passado recente. O recado foi direto: esquecer o primeiro turno tenebroso, esquecer o acúmulo de pontos perdidos e encarar as dezenove rodadas finais como se fossem um campeonato totalmente novo, com tabela zerada.
— Quando reuni todo mundo antes de jogar contra o Botafogo, eu conversei com eles e falei: “Vamos tentar ser campeões do segundo turno. Vamos disputar um campeonato de um turno só”. E é exatamente isso que a gente tem feito. A gente tem pensado exclusivamente nesse returno — revelou o treinador alvinegro.
A provocação funcionou como um choque de ambição em atletas que pareciam conformados em apenas arrastar correntes até dezembro. O Santos comprou a ideia e transformou a obsessão de Cuca em números irrefutáveis. Hoje, o time divide a ponta simbólica do segundo turno justamente com o Flamengo, seu próximo adversário, sustentando um aproveitamento de postulante a título nacional.
Os reflexos dessa guinada atingiram em cheio o humor das arquibancadas. A atmosfera de velório deu lugar à autoconfiança. Cuca fez questão de lembrar esse contraste com a franqueza que lhe é característica:
— Modéstia à parte, o risco de rebaixamento hoje se tornou muito pequeno. Nós tivemos reuniões difíceis com as torcidas organizadas, cobranças pesadas porque ninguém queria ver o Santos cair de novo. E hoje a gente já está se autopressionando por uma vaga na Libertadores. Isso é o sintoma claro de um bom trabalho que vem sendo executado por todo mundo: pela diretoria, pelos jogadores, pela comissão técnica. Temos que jogar jogo a jogo. Estamos na co-liderança do returno junto com o Flamengo e vamos deixar tudo em campo para terminar da melhor maneira possível.
As pegadas de Pelé: o recorde de cinco vitórias consecutivas como visitante
O que mais salta aos olhos nessa caminhada santista não é apenas o acúmulo frio de pontos, mas a autoridade demonstrada longe da Vila Belmiro. Historicamente dependente do calor úmido de seu alçapão, o Santos em 2026 decidiu desmentir a própria fama e virou um visitante indigesto, frio e letal.
Com o triunfo diante do São Paulo, o Peixe alcançou a incrível marca de cinco vitórias consecutivas atuando fora de seus domínios pelo Brasileirão. É um feito tão raro que obriga os historiadores do clube a vasculharem arquivos empoeirados para encontrar paralelo semelhante nos tempos em que Pelé, Coutinho e Pepe desfilavam pelos estádios do continente na década de 1960.
O roteiro dessa sequência impressiona pelo peso dos adversários batidos em seus próprios caldeirões. O Santos calou São Januário ao bater o Vasco; suportou a pressão e venceu o Corinthians na Neo Química Arena; foi a Belém superar o Remo em condições climáticas adversas; calou o Beira-Rio ao passar pelo Internacional; e, por fim, silenciou mais de cinquenta mil são-paulinos no Morumbi em uma virada construída com inteligência e personalidade na etapa complementar.
— Essa nossa sequência fora de casa é maravilhosa. A gente tem que desfrutar muito, o torcedor precisa desfrutar de verdade, porque foram só jogos pesadíssimos — enfatizou Cuca. — Ganhar do Vasco em São Januário, do Corinthians em Itaquera, do São Paulo aqui no Morumbi, do Remo lá no Norte, do Internacional em Porto Alegre… E em nenhum desses jogos o resultado caiu do céu, nada foi achado. Em todos eles nós jogamos bola suficiente para vencer. Sem contar os dois jogos em casa contra a dupla mineira, em que também fizemos grandes partidas. O grupo está de parabéns pelo que vem demonstrando.
Ao somar essas façanhas longe de Santos aos triunfos na Vila contra Atlético Mineiro e Cruzeiro, o time estabeleceu uma casca competitiva que desarmou qualquer tentativa dos rivais de impor superioridade territorial. O Santos aprendeu a sofrer quando acuado e desenvolveu uma precisão cirúrgica para contra-atacar no momento exato em que o mandante vacila.
O retorno do Rei Menino: o plano traçado para a volta de Neymar
A grande faísca que acendeu as conversas esportivas pelo país após a rodada foi a declaração categórica de Cuca a respeito de Neymar. Afastado das últimas partidas para aprimoramento físico e controle de cargas musculares, o camisa 10 teve seu retorno praticamente sacramentado pelo treinador para o confronto do meio de semana contra o Flamengo.
Cuca descartou mistérios e detalhou o cronograma dos próximos passos do atacante:
— O Neymar talvez já esteja em condições plenas. Nós vamos trabalhar com muito cuidado esses três ou quatro dias que antecedem a partida para avaliar a resposta dele nos treinos, mas a chance de ele jogar contra o Flamengo é grande. Ele está se preparando muito bem, treinando com dedicação e intensidade.
A cautela médica, no entanto, dita que o astro não deverá começar entre os onze titulares. A estratégia desenhada pela comissão técnica prevê que Neymar inicie o clássico nacional sentado no banco de reservas, entrando no decorrer do segundo tempo. A meta é oferecer a ele minutos progressivos de jogo, permitindo que readquira ritmo competitivo sem expor suas articulações ao desgaste dos noventa minutos completos logo de cara.
Mesmo fracionada, a presença de Neymar muda completamente o patamar da partida. O Flamengo viaja a São Paulo sabendo que, além de encarar o ataque mais produtivo do segundo turno, terá de lidar com o peso psicológico de um adversário que ganha a liderança técnica de seu maior ídolo da era moderna. Para os atletas mais jovens do elenco alvinegro, a simples convivência com o camisa 10 no vestiário tem servido como um multiplicador de confiança.
O fenômeno Gabigol: 24 gols no ano e o mea-culpa de comentaristas
Enquanto Neymar prepara as chuteiras para o retorno, o dono absoluto do ataque santista atende pelo nome de Gabriel Barbosa. Se havia quem duvidasse da capacidade de o camisa 9 reinventar seu protagonismo no futebol brasileiro, as últimas semanas transformaram qualquer desconfiança em mero capricho retórico.
A atuação de Gabriel no clássico do Morumbi foi uma aula de oportunismo, provocação e eficiência. Mesmo após sofrer com um primeiro tempo de pouca participação em virtude do massacre inicial do São Paulo, o atacante precisou de apenas uma brecha no sistema defensivo adversário para balançar as redes, empatar o clássico e desestabilizar emocionalmente a equipe mandante.
O susto de sua saída no segundo tempo, quando pediu para ser substituído mancando levemente, foi prontamente desarmado por Cuca na entrevista coletiva:
— O Gabriel não preocupa em nada. Ele saiu de campo apenas porque estava esgotado fisicamente, sentiu o cansaço do jogo e pediu para ser substituído. Não tem problema nenhum de lesão, nada muscular grave. Ele vai para o jogo contra o Flamengo, com certeza.
A certeza do treinador é música para os ouvidos do torcedor. Os números de Gabriel Barbosa em 2026 alcançaram uma estratosfera que cala até os críticos mais ferozes. Com o gol anotado diante do Tricolor, o atacante chegou à marca de 24 gols na atual temporada.
Mais impressionante ainda é o seu recorte recente pelo Santos. Nas últimas cinco partidas em que esteve em campo — lembrando que ele ficou fora do duelo contra o Cruzeiro, na Vila Belmiro, por força de vínculo contratual —, Gabriel teve participação direta em nada menos que nove gols, anotando seis tentos e distribuindo três assistências decisivas. O Santos marcou onze gols nesse período; Gabriel esteve diretamente envolvido em nove deles.
O impacto desse rendimento tem forçado analistas esportivos de televisão aberta a engolirem o orgulho ao vivo. Comentaristas históricos que haviam decretado o fim da linha para o centroavante agora se veem obrigados a pedir perdão público pelas análises precipitadas. O apresentador e ex-jogador Neto, por exemplo, fez um mea-culpa contundente em seu programa diário, reconhecendo que as críticas ácidas feitas a Gabriel no início do ano foram movidas pela paixão e não pela razão, apelidando a reviravolta de uma das maiores retomadas técnicas de um atacante no país.
Gabriel tornou-se a bússola competitiva do Santos: atrai as faltas, irrita a zaga adversária, bate boca com a arbitragem quando necessário e não perdoa quando a bola sobra limpa dentro da grande área.
O quebra-cabeça do departamento médico: Coutinho, Rollheiser e o susto de Artur
Se o ataque voa e a pontuação tranquiliza, a montagem da equipe para encarar o Flamengo exigirá de Cuca um trabalho minucioso de engenharia humana. O clássico no Morumbi deixou cicatrizes físicas que movimentaram o departamento médico e a preparação santista nas horas seguintes ao jogo.
O caso mais impressionante envolveu Philippe Coutinho. O meia, que ficou quase dez meses sem atuar oficialmente por causa de lesões consecutivas e falta de ritmo, entrou em campo sob uma situação de pura emergência. O plano original da comissão técnica previa apenas quinze a vinte minutos para o veterano, apenas para que ele sentisse o calor de um clássico e ganhasse confiança gradativa.
Contudo, os imprevistos da partida mudaram tudo. Benjamín Rollheiser teve um mal-estar súbito ainda durante o deslocamento da serra até a capital paulista, sofrendo com forte desidratação e sintomas de infecção estomacal, o que o vetou do confronto de última hora. O meia Lima, escalado como titular na vaga do argentino, teve um rendimento abaixo da média na etapa inicial. Sem alternativas para mudar a dinâmica do meio-campo, Cuca chamou Coutinho no intervalo e perguntou se ele aceitaria o desafio de suportar o segundo tempo inteiro.
Coutinho não apenas topou o risco como foi determinante. Suportou os cinquenta minutos de uma etapa final tensa, ditou o ritmo das transições do Peixe, ajudou na recomposição defensiva e participou ativamente da jogada que culminou no gol da vitória. Ao final do jogo, o experiente apoiador admitiu a exaustão física, mas celebrou a superação. Ele aproveitou a folga geral do elenco para realizar trabalhos regenerativos específicos e estará disponível para somar minutos diante do Flamengo.
Outro ponto de atenção recai sobre Artur. O atacante sentiu uma forte pontada na região posterior da coxa durante uma arrancada e pediu substituição imediata. Por ser experiente, o atleta preferiu não forçar o músculo, justificando no banco que a dor poderia se tratar de uma cãibra severa ou de um princípio de estiramento. Exames de imagem foram agendados para o início da semana. No cenário mais otimista, trata-se de contratura leve; no pior, um edema muscular de grau um que o afastaria por cerca de dez dias, tirando-o do duelo contra o Flamengo, mas sem ameaçar o restante de sua temporada.
Já a situação de Rollheiser caminha para uma solução tranquila. O departamento médico investiga se o quadro foi decorrente de virose passageira ou de alguma contaminação alimentar para evitar recidivas, e a expectativa é de que o argentino treine normalmente a partir de terça-feira, reintegrando-se aos planos de Cuca para a armação de jogadas.
O veto milionário: por que Cebolinha não jogará contra o Flamengo
Se Cuca poderá contar com os retornos de Gabriel Bontempo (de volta após período servindo à seleção brasileira de base) e do zagueiro Luan Peres (que cumpriu suspensão automática por cartões amarelos), o treinador já sabe que terá uma ausência de peso na ponta-esquerda: Everton Cebolinha.
O atacante, que entrou muito bem no clássico do Morumbi e deu a assistência para o gol de Gabigol, pertence contratualmente ao Flamengo e está no Santos por empréstimo. Para poder escalá-lo no confronto direto entre as duas equipes, o Peixe teria de depositar uma quantia de R$ 2 milhões nos cofres do clube carioca, referente à cláusula de liberação prevista em contrato.
Em tempos de reestruturação financeira e corte rigoroso de despesas desnecessárias, a diretoria alvinegra bateu o martelo de que não desembolsará tal quantia por uma única partida. Sem a possibilidade de contar com Cebolinha e diante da provável ausência física de Artur, Cuca já estuda alternativas para montar o setor de ataque.
O desenho mais provável aponta para uma linha ofensiva formada por Gabriel Bontempo aberto pelo lado direito, o argentino Barreal explorando o corredor esquerdo, Benjamín Rollheiser articulando as jogadas por dentro e Gabriel Barbosa como referência central. Essa formação manteria a agressividade na marcação alta e a velocidade nas transições, reservando a Philippe Coutinho e Neymar o papel de peças de desequilíbrio para a segunda metade do confronto.
O espelho do Morumbi: o abismo entre o planejamento do Santos e o colapso tricolor
A vitória santista ganhou contornos ainda mais dramáticos quando colocada em perspectiva com a crise institucional que assola o rival batido. Enquanto o Santos celebra a quebra de tabus e a perspectiva de vaga na Copa Libertadores, o São Paulo mergulhou de cabeça em um dos momentos mais sombrios de sua história no Brasileirão.
O time treinado por Dorival Júnior completou quatorze partidas consecutivas sem vencer na competição — a última vitória tricolor aconteceu ainda em abril, contra o Mirassol. Com salários atrasados que já chegam a quase seis meses em alguns acordos de direitos de imagem, o elenco tricolor demonstrou em campo a fragilidade de quem joga desmotivado e sem comando diretivo firme.
As arquibancadas do Morumbi viveram momentos de fúria cega, com cobranças diretas aos ídolos Calleri, Luciano e Rafinha. Figuras públicas identificadas com o clube, como o apresentador Tiago Leifert, explodiram em transmissões ao vivo criticando a falta de brio e a postura covarde dos atletas diante de um Santos que atuava com reservas e improvisações no segundo tempo.
O contraste entre as duas realidades é pedagógico: o Santos, que no primeiro semestre também sofria com desorganização e cobranças nas portas do vestiário, soube encontrar na figura de Cuca um centro de gravidade. O treinador blindou o elenco, recuperou medalhões que estavam encostados, deu padrão tático rígido ao sistema defensivo e estabeleceu metas curtas e palpáveis. O resultado é um time que corre junto, celebra cada lateral ganho e não aceita a derrota como desfecho natural.
O grande teste do returno: o clássico interestadual que vale a liderança simbólica
Quando a bola rolar no meio de semana, o Santos estará diante de seu maior vestibular na temporada. O duelo contra o Flamengo reúne todos os elementos de uma grande decisão: o confronto direto entre os dois melhores times do segundo turno, o reencontro de Gabigol com o clube onde fez história e colecionou títulos, a iminência da volta de Neymar diante de um rival de apelo mundial e a confirmação definitiva de que o Peixe não é mais uma equipe que olha para baixo na tabela.
A matemática que antes assombrava agora seduz. Ao alcançar os 41 pontos, o Santos praticamente selou o passaporte da permanência. A média histórica do Campeonato Brasileiro indica que a barreira dos 45 pontos garante a salvação com folga absoluta; restam apenas quatro pontos em muitas rodadas por disputar.
Com a corda fora do pescoço, o time da Vila Belmiro ganhou o luxo mais raro do futebol brasileiro: o direito de jogar com alegria e sem medo do amanhã. A autopressão por uma vaga no G-4 ou na fase de grupos da Libertadores não é um peso paralisante, mas o combustível de quem reencontrou a própria identidade.
Se o retorno de Neymar confirmar as expectativas de Cuca e Gabriel Barbosa mantiver a pontaria afiada que assombra os adversários, o Santos não apenas vencerá mais uma batalha; mandará um recado sonoro a todo o continente de que o gigante da Baixada está de volta ao lugar de onde jamais deveria ter saído.