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“SUMA COM A CRIANÇA” Disse Sinhá Entregando Filho Dela e Do Escravo Gigante Para Esconder Do Coronel

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“Suma com essa criança daqui”, falava a senhora enquanto entregava o próprio filho para a escrava. Uma mulher sem limites para a maldade, que se escondia atrás de máscaras de falsa virtude. Uma criança que deveria ter desaparecido para sempre, um segredo enterrado nas sombras de uma fazenda e quatro mulheres que arriscaram tudo para que a verdade viesse à luz. O que você faria se descobrisse que tudo em sua vida era uma mentira construída sobre traição e crueldade?
O envelope lacrado tremia nas mãos de Benedita enquanto ela observava pela fresta da porta. Dentro da sala de estar, dona Virgínia caminhava de um lado para o outro, o vestido de seda roçando no assoalho encerado. Aquele papel guardava segredos que poderiam destruir tudo: a reputação da fazenda Santa Cruz, o casamento recente com o coronel Augusto Mendes e, principalmente, a fachada de respeitabilidade que a sinhá construía há meses.
Três anos haviam se passado desde que Virgínia, viúva de um comerciante falido de Recife, chegara à fazenda como uma dama refinada em busca de recomeço. O coronel Augusto, viúvo também, com cinquenta e dois anos de vida dedicada à terra e aos negócios, vira nela a companhia que faltava em seus dias solitários. Casaram-se numa cerimônia discreta e, desde então, a fazenda ganhara novos ares: cortinas importadas, louças finas e bailes ocasionais com a elite local.
Mas Benedita conhecia a verdade. Desde o primeiro dia após a lua de mel, quando o coronel partira para verificar as colheitas nas terras do norte, Virgínia mostrara sua verdadeira natureza. As mulheres da casa grande sofriam castigos por motivos fúteis: uma xícara mal lavada, um olhar considerado insolente, um passo dado sem permissão. A sinhá sentia prazer em humilhar as mulheres mais bonitas, como se precisasse afirmar seu poder constantemente.
Naquela manhã de junho de 1851, Benedita limpava os candelabros da biblioteca quando ouviu a conversa. Virgínia recebera a visita de dona Matilde, esposa do juiz da comarca, e as duas tomavam chá enquanto discutiam os últimos acontecimentos da região.
“Augusto é tão previsível”, dizia Virgínia com um sorriso irônico. “Homem de bem, honrado, virtuoso demais para o próprio interesse. Deixa essa gente com regalias, permite folgas. Até repreendeu o feitor por exagerar nos castigos.”
Benedita apertou o pano de limpeza entre os dedos. Ela mesma escapara por pouco de uma punição severa naquela semana: Virgínia ameaçara açoitá-la por ter demorado dois minutos a mais para buscar água fresca do poço. Benedita tinha vinte e oito anos e trabalhava na casa grande desde criança. O falecido Coronel Mendes, pai de Augusto, tratara sempre seus trabalhadores com uma rigidez disciplinada, e Augusto herdara esses valores, aprofundando-os e tornando-se conhecido na região como um proprietário que buscava alguma decência e moderação.
Mas Virgínia era diferente. Ela via aquelas pessoas como objetos, extensões de sua vontade que deviam ser moldadas pelo medo. E era esperta: seus piores desmandos aconteciam sempre longe dos olhos do marido, durante as frequentes viagens de negócios dele.
O som de cascos no caminho de terra interrompeu os pensamentos de Benedita. Ela correu até a janela e viu três cavalos se aproximando, levantando poeira avermelhada sob o sol da tarde. O coronel voltara mais cedo, e não vinha sozinho.
Ao lado de Augusto Mendes cavalgava um homem que fez Benedita recuar dois passos por instinto. Ele era imenso: devia ter quase dois metros de altura, ombros largos como vigas de madeira e braços que pareciam capazes de arrancar árvores pela raiz. Sua pele era escura e reluzente, e mesmo de longe era possível perceber a força contida naquele porte.
“Sinhá, o coronel chegou!” gritou Benedita, cumprindo seu dever, mesmo sabendo que interromperia a conversa de Virgínia.
A reação foi imediata. Dona Matilde despediu-se às pressas e Virgínia correu para o quarto para se arrumar. Quinze minutos depois, descia a escadaria com um sorriso doce no rosto, a personificação da esposa dedicada e amorosa.
“Augusto, meu querido, que surpresa maravilhosa!” exclamou Virgínia, abraçando o marido com efusão calculada.
O coronel retribuiu o abraço com genuíno carinho. Era um homem alto, embora não tanto quanto o gigante que o acompanhava, com cabelos grisalhos bem aparados, bigode espesso e olhos castanhos que transmitiam integridade.
“Os negócios foram mais rápidos do que imaginei, querida, e tive sorte. Encontrei exatamente o que precisava”, respondeu Augusto, apontando para o homem que aguardava alguns passos atrás. “Este é Tobias. Assumi a posse de seus serviços de um fazendeiro da Bahia que estava liquidando bens. Tobias trabalhou em construções de engenhos, igrejas e fortificações. Com ele, poderei expandir o armazém e erguer a nova casa da administração.”
Virgínia examinou Tobias com olhos que Benedita conhecia muito bem. Era a mesma expressão que usava ao avaliar um tecido caro ou uma joia rara. Contudo, havia algo mais: um brilho perturbador que a criada não soube definir.
“Que aquisição impressionante, meu marido. Tenho certeza de que ele será muito útil.”
A pausa antes da última palavra foi quase imperceptível, mas Benedita notou. Tobias foi apresentado aos outros trabalhadores da fazenda naquela tarde. Falava pouco, respondia apenas o estritamente necessário e guardava no olhar marcas que ninguém ousava questionar.
Durante o jantar, Augusto falava entusiasmado sobre as obras.
“Tobias me garantiu que pode erguer estruturas para durar gerações. Ele aprendeu técnicas de alvenaria refinadas. Começaremos na próxima semana.”
“Que maravilha, querido. Você sempre pensa no futuro da fazenda”, respondeu Virgínia, sorrindo, mas mantendo os olhos cravados em Benedita enquanto a taça era servida.
Após o jantar, enquanto o coronel se recolhia ao escritório, Virgínia chamou Benedita ao quarto.
“Quero que você descubra tudo sobre esse Tobias: onde dorme, o que faz, com quem conversa. E não comente nada disso com ninguém. É uma ordem direta minha, entendeu?”
Benedita assentiu, sentindo um calafrio percorrer a espinha.
Nos dias seguintes, o talento de Tobias ficou evidente. Ele trabalhava do amanhecer ao anoitecer, alinhando paredes com rigor absoluto. Suas mãos manipulavam ferramentas e argamassa com maestria, e sua resistência parecia inesgotável.
Benedita, entretanto, notou outra movimentação: Virgínia começara a frequentar o canteiro de obras com uma insistência incomum. Criava pretextos diários: inspecionar o progresso, conferir os planos, checar os materiais. O coronel, confiante, elogiava a dedicação da esposa aos negócios.
Duas semanas após a chegada de Tobias, Benedita presenciou algo que confirmou suas maiores suspeitas. Era meio de tarde, o calor abafado esvaziava os pátios, e ela viu Virgínia conversando a sós com Tobias atrás do futuro armazém. Escondida atrás de pilhas de madeira, Benedita observou a cena. Não ouvia o teor das frases, mas os gestos eram nítidos: Virgínia invadia o espaço dele, tocava-lhe o braço ao falar e inclinava o rosto de forma insinuante. Tobias recuava, constrangido, de olhos baixos, mas a sinhá exercia com insistência o peso de sua autoridade.
A partir de então, ordens estranhas tornaram-se rotina: Tobias tinha de levar caixotes à casa grande fora do horário de trabalho, ajustar trincos no quarto de hóspedes, arrastar móveis pesados. Eram sempre atribuições para mantê-lo por perto, invariavelmente quando o coronel estava fora da sede.
Benedita tentou alertar as companheiras, mas o temor a Virgínia calava a todas. Maria, da cozinha, apenas meneou a cabeça com tristeza:
“Não podemos fazer nada, Benedita. Ela dita as regras aqui dentro. Como iríamos confrontar a palavra da sinhá diante do coronel? Ninguém nos ouviria.”
O tempo passou e, em setembro de 1851, a rotina de Virgínia se alterou. Passou a ter náuseas matinais, recusava certos pratos e repousava horas a fio. Benedita, que a vestia todos os dias, foi a primeira a notar a mudança sutil em seu corpo.
“Estou grávida”, anunciou Virgínia a Augusto numa noite chuvosa de outubro. “Vamos ter um filho, meu amor.”
O coronel levantou-se tão depressa que derrubou a cadeira. Abraçou a esposa com lágrimas de felicidade nos olhos. Ele tinha dois filhos adultos do primeiro matrimônio, que viviam fora, mas ser pai novamente, aos cinquenta e três anos, enchia-o de renovado propósito.
“Será o herdeiro de Santa Cruz! Darei a este menino o melhor que puder oferecer.”
Virgínia sorriu, mas quando seu olhar cruzou com o de Benedita por uma fração de segundo, a criada enxergou o terror absoluto por trás da encenação.
Durante a gestação, a crueldade de Virgínia aumentou drasticamente, como se descontasse nos outros o próprio desespero. Castigos brutais eram aplicados por qualquer deslize: Maria foi severamente repreendida por uma refeição morna, Josefa acabou trancafiada sem comida e a jovem Ana foi obrigada a esfregar o assoalho repetidas vezes sem descanso.
Preocupado com a esposa, o coronel reduziu as saídas, mas em novembro precisou viajar ao Rio de Janeiro para fechar contratos indispensáveis, uma jornada de três semanas.
“Cuidem bem de dona Virgínia. Ela carrega nosso futuro”, recomendou Augusto, dirigindo-se ao administrador João Marques. “Você responde por tudo na minha ausência.”
Na primeira noite sem o marido, Virgínia mandou chamar Tobias aos aposentos principais. Benedita ouviu a ordem categórica. O homem subiu os degraus lentamente e, por quase duas horas, murmúrios tensos ecoaram do quarto de hóspedes. Ao sair, seu rosto era a imagem viva do esgotamento. Benedita tentou consolá-lo, mas ele apenas abaixou a cabeça e apressou o passo de volta aos alojamentos.
Aquilo se repetiu por diversas vezes sob os pretextos mais frágeis: consertos urgentes, vigas estalando, mobílias fora de lugar. Tobias definhava dia após dia. O homem forte agora andava cabisbaixo, quase não se alimentava e chorava em silêncio à noite.
“Ele não vai resistir”, sussurrou Maria a Benedita. “Ela está destruindo a vida dele, e estamos de mãos atadas.”
Quando Augusto regressou em dezembro, cheio de presentes e júbilo pelos negócios, correu aos braços da esposa.
“Como está o meu filho?”
“Crescendo forte, querido. Sinto seus movimentos todos os dias”, respondeu Virgínia, acariciando a barriga evidente. “Será robusto como o pai.”
O coronel não reparou no olhar esquivo de Tobias nem no silêncio pesado que pairava entre os servidores. Estava radiante com a paternidade que se aproximava.
O Natal foi celebrado com festejos fartos, e todos comentavam a alegria contagiante de Augusto.
“Se soubessem de toda a verdade…”, pensava Benedita em silêncio.
Chegou 1852. O parto estava previsto para março. Havia quarto preparado, berço importado e a melhor parteira contratada. Virgínia, porém, beirava o descontrole. Passava horas diante do espelho fitando o ventre com expressão que oscilava entre pavor e rancor.
Em fevereiro, veio um chamado aflitivo: o primogênito de Augusto caíra enfermo em São Paulo e pedia a presença do pai. Hesitante, o coronel temeu ausentar-se.
“Não sei se devo partir agora, querida. O nascimento pode ocorrer a qualquer momento.”
“Vá, Augusto”, insistiu ela com firmeza inesperada. “Seu filho precisa de você. Ainda falta um mês inteiro. Há tempo suficiente para ir e voltar.”
Ele assentiu, beijou-lhe a fronte e partiu, prometendo retornar em duas semanas.
Três dias após a partida, as dores do parto começaram. No quarto, Virgínia agarrou o pulso de Benedita com força desesperada.
“Não! Agora não! É cedo demais!”
“Sinhá, preciso chamar a parteira imediatamente. A criança vai nascer!”
“Não chame ninguém! Espere!” gritou Virgínia entre as contrações.
O parto prolongou-se por seis horas difíceis. No fim da tarde, assistida apenas por Benedita e Maria, a criança veio ao mundo. Era um menino.
Ao limpar o recém-nascido, o peito de Benedita gelou. A pele do bebê não deixava dúvidas: tinha um tom bronzeado marcante, incompatível com a linhagem dos dois senhores da casa. E na lateral do pescoço exibia com nitidez uma mancha de nascença em forma de meia-lua, idêntica à que Tobias carregava. Os olhos, contudo, eram verdes como esmeraldas, a marca inconfundível de Virgínia.
Maria abafou um grito e derrubou a bacia de água. Virgínia, ao erguer os olhos para o bebê, perdeu a cor do rosto.
“Saia daqui, Maria! Agora!” ordenou Virgínia, num tom ameaçador. “E cale a boca sobre o que viu, se der valor à sua vida!”
Maria fugiu do quarto. Reunindo forças do próprio desespero, Virgínia levantou-se da cama e arrancou a criança dos braços de Benedita.
“Ele não pode ficar aqui! O coronel jamais pode pôr os olhos nisso!”
O recém-nascido chorava, desamparado, enquanto a mãe o segurava com frieza e desatino.
“Sinhá, o menino precisa ser agasalhado e cuidado”, disse Benedita, contendo o tremor da voz. “Ele mal acabou de nascer.”
“Cale-se!” cortou Virgínia. “Você vai cumprir as minhas ordens. Pegue essa criança e faça-a desaparecer. Não me interessa como: leve para longe, enterre, atire no rio, mas livre-se dela imediatamente!”
Benedita paralisou, horrorizada.
“Sinhá… é uma criança indefesa. Eu não posso cometer esse ato.”
“Pode e vai!” gritou a mulher, empurrando a criança contra ela. “Quando Augusto voltar, direi que caí da escada e perdi o bebê antes do tempo. Ele não pode ver essa prova viva da minha ruína! Se ele descobrir, estou acabada!”
O bebê chorava com mais força. Benedita o aconchegou contra o peito, observando aqueles olhinhos verdes tentando se abrir e a mancha que selava o seu destino.
“A senhora precisa de atendimento médico, está perdendo sangue…”
“Ninguém pode saber deste nascimento! Faça o que mandei e volte para limpar este quarto. Se me desobedecer, farei da sua vida um tormento sem fim!”
Benedita desceu a escadaria abraçada ao embrulho, o coração disparado no peito. A noite já caía na fazenda Santa Cruz; lampiões fracos clareavam as passagens, e o rumor das conversas noturnas subia ao longe.
Fitando a criança adormecida pelo cansaço, Benedita pensou nas ordens da sinhá, na crueldade do plano e na boa fé do coronel Augusto, que tanto sonhava em ser pai. Uma determinação firme tomou conta de seus passos: em vez de tomar o rumo da mata ou da correnteza, dirigiu-se aos fundos da fazenda, em direção ao velho silo desativado.
Lá dentro, sob a luz tímida de uma lamparina, estavam três companheiras: Catarina, Rosa e Joana. Elas se sobressaltaram quando Benedita entrou apressada.
“O que aconteceu, menina? O que faz aqui a esta hora?” perguntou Catarina, avistando o embrulho. “Meu Deus… de quem é essa criança?”
Benedita fechou a porta e desabafou em prantos. Contou cada detalhe: os abusos sofridos por Tobias, a gravidez forçada, a tentativa de dar fim ao recém-nascido e a mancha que comprovava tudo.
As três mulheres ouviram tomadas pelo espanto.
“O coronel precisa ser informado”, sentenciou Joana.
“Mas de que forma?” argumentou Benedita. “Ela me acusará de inventar calúnias, e a punição cairá sobre nós. E o que será do menino?”
Rosa acolheu o bebê nos braços, contemplando-o enternecida.
“Ele herdou os olhos dela… esse verde tão claro não deixa mentir. E a marca no pescoço é idêntica à do Tobias. Todos nós conhecemos.”
“A verdade está estampada nele”, completou Catarina, acariciando a mancha.
“Vocês vão me apoiar?” perguntou Benedita.
“Cuidaremos dele”, afirmou Joana com segurança. “Vamos mantê-lo a salvo aqui no silo. Rosa ainda tem leite e pode amamentar. Nos revezaremos até a chegada do senhor Augusto.”
“E o que direi a ela?”
“Diga que cumpriu o que ela mandou, que o deixou sepultado longe, na mata fechada. Ela não terá coragem de pedir provas nem querer ver o corpo; vai preferir fingir que essa criança nunca existiu.”
Benedita retornou à casa grande. Encontrou Virgínia enfraquecida, mas ainda implacável.
“Fez o que ordenei?”
“Sim, sinhá. Ficou enterrado no meio do mato, onde ninguém jamais há de achar.”
Virgínia soltou um suspiro profundo de alívio.
“Muito bem. Limpe os vestígios e troque a roupa de cama. Ao amanhecer, espalhe a notícia de que sofri uma queda e o parto não vingou.”
Nos dias que se seguiram, a fazenda Santa Cruz cobriu-se de luto fingido. Vizinhos prestaram condolências e Virgínia desempenhou com rigor o papel de viúva inconsolável da maternidade.
No silo esquecido, o menino era acolhido com carinho redobrado. Rosa o amamentava, Joana e Catarina o acalentavam, e Benedita vigiava qualquer movimento suspeito. A criança mostrava vitalidade admirável para alguém nascido antes do tempo.
Tobias, mantido afastado pela sinhá durante meses, soube da suposta perda por terceiros. Benedita viu-o chorar copiosamente, sozinho perto da construção inacabada, mas conteve-se: precisava aguardar a hora exata.
Cinco dias depois, uma carta avisou que Augusto regressaria no dia seguinte, desolado com a notícia da perda do filho.
“Amanhã”, avisou Benedita no esconderijo do silo. “Amanhã tudo se resolverá.”
Ao meio-dia seguinte, o som dos cascos anunciou a chegada do patrão. Augusto apeou com o semblante abatido. Virgínia, vestida de preto, foi ao seu encontro na varanda.
“Meu amor… eu tentei de tudo, mas não consegui salvar nosso pequeno”, lamentou ela, desmanchando-se em lágrimas falsas.
O coronel a envolveu com compaixão sincera:
“Não se culpe, querida. O mais importante é que você superou o perigo e está viva.”
“Vamos para a sala. Precisamos conversar sobre o nosso futuro”, sugeriu Virgínia.
Instantes depois de se acomodarem, Benedita atravessou a porta carregando o recém-nascido em mantas alvas.
Augusto ergueu-se de pronto, desconcertado.
“Benedita… que criança é essa?”
Virgínia empalideceu, perdendo totalmente a postura.
“O que você está fazendo aqui?!” balbuciou ela, tomada de pânico.
“Coronel”, começou a criada com voz firme, “este menino é filho da sinhá. Ele nasceu com vida há seis dias, enquanto o senhor viajava. Ela exigiu que eu tirasse a vida dele para esconder o nascimento e inventou a história da queda para enganar o senhor.”
“É mentira deslavada!” gritou Virgínia, levantando-se colérica. “Augusto, não dê ouvidos a essa mulher! Ela quer desonrar o meu nome! Mande prendê-la imediatamente!”
Augusto olhava atônito de uma para a outra.
“Benedita, essa acusação é grave demais. Por qual razão você diria isso?”
“Porque é a mais pura verdade, coronel. Venha ver com seus próprios olhos.”
Benedita afastou o cobertor do rosto da criança. Augusto fixou os olhos e perdeu a fala: eram os mesmíssimos olhos esmeralda de Virgínia, únicos em toda a comarca.
“Olhos claros não provam nada!” insistiu Virgínia, aos prantos de desespero. “Pode ser filho de qualquer pessoa! Você vai acreditar nela antes de acreditar em mim?”
“Então examine aqui, patrão.”
Benedita inclinou a cabeça do menino, exibindo a mancha escura de nascença no pescoço.
O chão pareceu fugir aos pés de Augusto. Ele via aquela mesma marca todos os dias no canteiro de obras: era a marca característica de Tobias.
“Não… não é possível…” murmurou o coronel, atordoado.
Virgínia tentou avançar sobre o bebê, mas Augusto segurou-lhe o braço com uma força que ela jamais vira nele.
“Virgínia”, disse ele com uma calma fria e assustadora. “Diga a verdade agora.”
“Eu estou dizendo! Esse bebê não é meu!”
“Olhe para esta criança!” trovejava a voz do coronel, ecoando pelos corredores. “Olhe para os seus olhos verdes e para a marca de Tobias! Admita que usou o seu poder para coagi-lo e depois tramou destruir uma vida inocente para acobertar sua conduta!”
Virgínia emudeceu. Suas defesas desmoronaram e não restou argumento algum. Augusto soltou o braço dela com repugnância.
“Eu abri as portas da minha casa para você, dei-lhe meu sobrenome e confiei plenamente na sua honra. E você cometeu tamanho ultraje.”
“Augusto, deixe-me explicar…”
“Explicar como forçou um homem indefeso a ceder à sua vontade? Explicar como pretendia me fazer criar o fruto dessa traição e depois ordenou o fim de uma criança indefesa?!”
João Marques, que assistia a tudo da entrada com outros funcionários, atendeu ao chamado imediato do patrão.
“Traga as autoridades do distrito”, determinou Augusto. “Dona Virgínia responderá formalmente perante a lei por tentativa de homicídio contra um recém-nascido. E retirem-na desta propriedade. Ela nunca mais pisará em Santa Cruz.”
“Augusto, tenha piedade! Para onde vou viver?!” implorou a mulher de joelhos.
“Deveria ter pensado no destino dos outros antes de agir com tamanha crueldade. Você não tem mais lugar sob este teto.”
Enquanto a mulher era conduzida para fora, Augusto virou-se para a criança nos braços de Benedita. Suas mãos tremiam ao receber o menino no colo. Lágrimas rolaram por seu rosto cansado ao fitar a face inocente daquele pequeno ser.
“Chamem Tobias aqui”, pediu com a voz embargada.
Minutos depois, o carpinteiro adentrou o recinto assustado, temendo represálias.
“Tobias”, disse o coronel com serenidade, estendendo a criança, “este menino é seu sangue.”
Tobias arregalou os olhos, em choque.
“Eu soube de tudo o que você passou”, continuou Augusto. “Peço-lhe perdão por não ter percebido o que acontecia e por ter falhado em protegê-lo de tamanho sofrimento.”
O homem ajoelhou-se em lágrimas. Augusto desceu à mesma altura e entregou a criança aos braços do verdadeiro pai. Ao segurar o filho, o peso de meses de silêncio e tormento deu lugar a uma comoção profunda.
Augusto ergueu-se e caminhou até o centro do salão, onde a comunidade da fazenda se aglomerava em silêncio. Diante de todos, o coronel dobrou os joelhos no chão.
“Peço o perdão de todos vocês”, declarou, visivelmente comovido. “Por minha cegueira diante do que ocorria dentro da minha própria casa e por permitir tanta dor. Eu falhei no meu dever de resguardo, e peço a indulgência de cada um.”
Fez-se silêncio absoluto. Foi Benedita quem deu o primeiro passo, ajoelhou-se ao lado do senhor e tocou-lhe o ombro com respeito.
“O senhor não sabia da verdade. Mas quando soube, agiu com justiça.”
Uma a uma, as outras pessoas se aproximaram, formando um círculo sereno de acolhimento.
“Nós conhecemos o seu caráter, coronel”, pontuou Catarina. “Sempre fomos tratados com consideração nesta casa. Estamos aqui com o senhor.”
Ajudaram-no a se reerguer. O coronel abraçou Benedita, enaltecendo sua integridade, e garantiu a Tobias todo o respaldo necessário para a criação do menino.
O tempo transformou a fazenda Santa Cruz. Virgínia enfrentou o julgamento legal e foi banida do convívio da sociedade. O menino, batizado de Miguel, cresceu saudável sob o cuidado amoroso de Tobias e das mulheres que lhe salvaram a existência.
Benedita teve sua alforria concedida em reconhecimento à sua coragem e permaneceu na propriedade como administradora do lar e conselheira de confiança de Augusto, que nunca voltou a se casar.
Miguel cresceu ciente de sua história e de que a dedicação daquelas mulheres superou o ódio e a covardia. Em uma época dura e de muitas sombras, Santa Cruz encontrou um caminho de honradez, provando que a verdade e a dignidade sempre prevalecem.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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