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Simples Reforma de Quintal — Até a Enxada Bater em Algo Enterrado Ali Desde 1947

Simples Reforma de Quintal — Até a Enxada Bater em Algo Enterrado Ali Desde 1947

Dorival Esteves comprou a casa na rua São Francisco, no bairro dos Salesianos, em março de 2020. Ele tinha 61 anos na época. Era aposentado pela companhia de água e esgoto do Ceará e havia escolhido Juazeiro do Norte por um motivo simples. O filho mais novo morava lá e Dorival queria ficar perto antes de ficar velho demais para dirigir sozinho na estrada.
A casa era de alvenaria, construída nos anos 50, com paredes grossas, tijolos maciços, janelas com gonzos de madeira escurecidos pelo tempo e um quintal nos fundos que ninguém tocava havia pelo menos duas décadas. O quintal tinha uns 12 metros de comprimento por seis de largura, com uma mangueira no canto esquerdo que devia ter 40 ou 50 anos de vida, uma treliça de madeira podre encostada no muro do fundo e o piso compactado de terra batida da cor de tijolo seco, parecendo farinha.
Dorival vinha adiando a reforma do quintal havia dois anos. Havia outras coisas para resolver. A pintura interna, a troca da encanação, a calçada da frente que estava rachada. O quintal ficou para março de 2022, com 63 anos completos no mês anterior e com uma disposição que ele próprio descrevia então como uma segunda juventude tardia, Dorival pegou uma enxada e foi para o quintal. A ideia era simples.
Revolver o piso, nivelá-lo, cimentar uma área de serviço externa, talvez plantar alguma coisa perto da mangueira. Dorival não tinha pressa. A manhã passou inteira com ele trabalhando devagar, quebrando a terra endurecida, empurrando a terra para os lados, avançando em fileiras regulares, como quem ara um campo pequeno. Na terceira fileira, a cerca de 3,5 metros do muro do fundo e aproximadamente a 1,20 metro do alinhamento central do quintal, a enxada bateu em algo. Dorival pensou que fosse pedra. Deu mais duas batidas e percebeu que o som era diferente, mais metálico, mais oco. Abaixou-se e começou a cavar com as mãos.
A terra ao redor estava mais compactada do que o resto, como se aquele ponto específico tivesse sido socado com mais força. A terra saía em blocos, não em farelos. Demorou cerca de 20 minutos até Dorival enxergar a primeira quina do objeto, um metal cinza escuro, oxidado, mas intacto, com a superfície levemente abobada. Era um baú de zinco, com comprimento aproximado de 50 centímetros, largura de 30, altura de 25.
Selado por fora com arame galvanizado, torcido duas vezes, ao redor de uma aba de metal que funcionava como fecho. O arame estava enferrujado, mas não havia rombos. O baú estava intacto. Dorival ajoelhou-se na terra por um tempo considerável, olhando para aquilo. Depois foi à torneira, lavou as mãos, pegou o telefone e chamou o filho.
A polícia civil chegou na tarde do mesmo dia. O delegado de plantão era o investigador Raimundo Façanha, de 38 anos, que trabalhara 3 anos em Fortaleza antes de pedir remoção para Juazeiro do Norte por motivos familiares. Façanha era metódico por formação e cauteloso por temperamento. Quando chegou ao quintal e viu o baú ainda na cova rasa, onde Dorival o havia desenterrado parcialmente, mandou fotografar tudo antes de tocar.
O baú foi aberto na delegacia com luvas, com máquina fotográfica, com dois investigadores como testemunhas. O que estava lá dentro era isto: um vestido infantil rosa desbotado, dobrado cuidadosamente e colocado por cima; embaixo do vestido, um par de sapatos de couro branco, tamanho aproximado para uma criança entre 4 e 6 anos. Abaixo dos sapatos, um terço de madeira escura com contas de sementes enroladas em círculo.
Sob o terço, no fundo do baú, um envelope de papel pardo grosso, lacrado com cera vermelha, que ali estava endurecida e rachada com os anos, mas ainda mantinha o envelope fechado. O envelope preservara seu conteúdo porque o baú de zinco, soldado nas bordas e vedado com arame, funcionara como uma câmara hermética em um solo semiárido com umidade muito baixa.
O ar interno havia secado completamente com as décadas passadas e, nessas condições, a polpa de papel sobrevivera sem apodrecer. No canto superior direito do envelope, escrito a tinta ferrogálica já amarronzada, mas ainda legível: fevereiro de 1947. E abaixo da data, um nome: Zumira. Façanha pediu à perícia do departamento forense do estado do Ceará que examinasse o conteúdo antes de abrir o envelope.
Os peritos chegaram na manhã seguinte. O vestido e os sapatos foram enviados para análise de fibras e couro. O terço foi fotografado e catalogado, e o envelope foi aberto com uma espátula cirúrgica, com câmera gravando cada milímetro. Dentro havia uma folha dobrada em três partes, manuscrita na mesma tinta ferrogálica, com letra regular e fina, daqueles que haviam aprendido a escrever por repetição e disciplina.
O texto tinha seis linhas e meia. Os peritos fotografaram a folha aberta. Façanha leu no monitor, de pé, sem se sentar, leu duas vezes, depois saiu da sala e foi ao bebedouro tomar água. A carta não será reproduzida aqui por completo, mas o seu conteúdo registrado no boletim oficial era o seguinte: a pessoa que escreveu a carta declarava-se responsável pela morte de Zumira Alencar, de 5 anos, filha de Osmar Alencar e Dilma Ferreira Alencar, residentes na mesma casa onde o baú fora encontrado. A morte ocorrera em fevereiro de 1947. O motivo declarado fora um castigo que passara dos limites. O corpo fora enterrado no quintal porque a pessoa que escrevera a carta estava com medo e não sabia o que fazer. A carta terminava com a frase: “Que Deus me perdoe, porque os homens não podem.” A carta não estava assinada.
Façanha tinha um nome, Zumira Alencar, e um endereço, Rua São Francisco, Salesianos, e um ano: 1947. O que ele não tinha era quase mais nada. O investigador passou a semana seguinte no cartório de registro civil de Juazeiro do Norte e no acervo da paróquia de Nossa Senhora das Dores, que mantinha registros de batismo desde o final do século XIX.
Em três dias de busca em livros velhos com páginas amareladas e tinta desbotada, Façanha encontrou o que procurava: o batismo de Zumira Ferreira Alencar, realizado em 11 de setembro de 1941. Filha de Osmar Benedito Alencar, pedreiro, e Dilma Ferreira Alencar, doméstica. Madrinha: Conceição Pedreira. Não havia certidão de óbito para Zumira em nenhum cartório municipal.
Não havia registro de desaparecimento. Não havia nada. Em algum momento entre o batismo de 1941 e o final da década, Zumira simplesmente deixara de existir nos registros, como se nunca tivesse existido após os 5 anos de vida. Façanha procurou herdeiros de Osmar e Dilma Alencar. Osmar havia morrido em 1973. Segundo o cartório, Dilma havia morrido em 1961.
Havia um filho mais velho, Benedito Alencar, nascido em 1938. Mas Benedito também havia morrido em 2004. Benedito tivera dois filhos. Um deles, Cláudio Alencar Nogueira, morava em Barbalha, a 17 quilômetros de Juazeiro do Norte. Cláudio tinha 64 anos quando a notícia chegou até ele em uma tarde de quarta-feira.
Ele era aposentado da prefeitura, viúvo. Vivia em uma casa pequena, na periferia de Barbalha, com um cachorro velho e um jardim bem cuidado na frente. Quando Façanha explicou o motivo da visita, Cláudio ficou em silêncio por um longo tempo. Depois disse:
— Eu já ouvi o nome Zumira uma vez. Meu pai mencionou, mas disse que a menina tinha morrido de febre quando era pequenininha e que nunca mais se falava nisso porque era uma dor antiga.
Cláudio nunca soube que havia uma tia enterrada no quintal da casa onde o pai crescera. No registro de batismo de Zumira, a madrinha fora identificada como Conceição Pedreira. Façanha puxou o sobrenome. Na mesma rua, do outro lado do muro do quintal onde o baú fora encontrado, havia uma família de sobrenome Pedreira registrada ali havia décadas.
Conceição Pedreira fora mãe de Antônia Pedreira Lima, a mulher que todos no bairro conheciam como Toninha. Toninha tinha 89 anos quando Façanha bateu à porta de sua casa. Ela morara ali a vida inteira. Nascera naquela casa em 1933, casara-se ali, criara filhos ali, envelhecera ali e fora vizinha da família Alencar por décadas, desde muito antes de qualquer um deles imaginar o que estava sob a terra do quintal ao lado. Toninha foi quem abriu a porta.
Tinha os cabelos brancos presos em um coque, avental azul, olhos ainda vivos e atentos apesar da idade. Quando Façanha se identificou e mencionou o nome Zumira Alencar, Toninha ficou completamente imóvel por aproximadamente três segundos. Depois deu um passo para trás, apoiou a mão na parede e disse em um volume quase inaudível:
— Eu sabia que um dia alguém viria aqui perguntar isso.
Façanha entrou, sentou-se na sala e ouviu. Toninha tinha 14 anos em 1947. Zumira tinha cinco. As famílias foram vizinhas por anos. E Toninha, por ser a filha mais velha dos Pedreira, responsável e séria desde criança, às vezes cuidava de Zumira enquanto Dilma ia à feira ou à missa.
Era natural. As mães do bairro se ajudavam assim, e Conceição fora madrinha de Zumira no batismo, o que tornava o vínculo entre as duas famílias ainda mais próximo. Na última semana de fevereiro de 1947, numa tarde muito quente, Toninha estava no quintal da própria casa quando ouviu os sons vindos do outro lado do muro.
Não era a primeira vez que os ouvia assim. Discussões, choro. O barulho que uma criança faz quando está assustada. Mas naquela tarde os sons duraram mais do que o normal. E então pararam de repente, de um jeito que não era o jeito normal de parar. Toninha subiu em um caixote de madeira que ficava no canto do quintal e olhou por cima do muro.
Ela viu o que havia acontecido. Não viu quem fizera aquilo na posição em que estava. Só viu parte do quintal dos Alencar. Mas viu o resultado. Viu Zumira no chão. Desceu do caixote, permaneceu de pé no próprio quintal por um longo tempo, com o coração batendo muito forte, sem saber o que fazer. Tinha 14 anos.
Naquela noite, à mesa do jantar, tentou contar à mãe. Conceição interrompeu-a antes que terminasse. Disse:
— Toninha, você não viu nada. Você é criança. Isso é assunto de família dos outros? Não, da nossa. Você não viu nada.
Toninha tinha 14 anos. Acreditou na mãe ou tentou acreditar. Nos dias seguintes, ninguém da casa dos Alencar falou sobre Zumira.
Ninguém perguntou pela menina. A família Alencar não saiu muito de casa por algumas semanas. Quando Dilma foi vista na rua novamente, parecia mais velha, mais curvada, com os olhos fixos no chão. Toninha cruzou com ela uma vez na calçada. Dilma não olhou para ela. Meses depois, quando alguém perguntava pela menina, Dilma dizia que tinha morrido de febre.
Ninguém pediu certidão. Ninguém foi ao cartório checar. Em Juazeiro do Norte, em 1947, a morte de uma criança pequena por febre era uma tragédia comum, dolorosa, encerrada com silêncio, de que as famílias pobres se utilizavam para sobreviver às perdas. Toninha cresceu, casou-se, teve filhos, envelheceu e carregou aquela tarde do caixote como uma pedra que não podia largar porque não sabia onde jogar.
Façanha ouviu tudo isso em uma tarde de abril de 2022, 75 anos depois. Quando Toninha terminou, olhava para as próprias mãos no colo. Façanha perguntou:
— A senhora sabe quem escreveu a carta?
Toninha disse que não. Disse que havia suspeitas. Disse o nome de uma pessoa, alguém que morara na casa por alguns meses em 1947, que saíra logo depois, que morrera muitas décadas atrás.
Mas Toninha frisou: era suspeita, não vira o rosto, só vira o resultado. A pessoa que ela nomeou morrera em 1978. Não havia mais ninguém para responsabilizar. A polícia concluiu a análise dos restos materiais do baú em junho de 2022. O vestido era de algodão com pigmento vegetal, compatível com o tecido nordestino artesanal da primeira metade do século XX.
Os sapatos de couro mostravam desgaste na sola compatível com o uso por crianças na fase de aprendizado. O terço era de sementes de lágrimas-de-nossa-senhora, enfiadas em linha de algodão com crucifixo de metal ferroso. A carta era autêntica, com composição de tinta e química de produção compatíveis com o período anterior a 1955. O baú não continha ossos.
Não havia restos de Zumira Alencar dentro do baú, apenas os pertences. O que estava no baú era uma espécie de túmulo simbólico, coisas da menina guardadas com cuidado, como se alguém tivesse feito o que queria ao mesmo tempo apagar o tempo e não pudesse apagar completamente. A pergunta que surgiu era imediatamente óbvia: onde estava o corpo de Zumira? Façanha solicitou um escaneamento por georradar de todo o quintal.
O escaneamento foi realizado em julho de 2022. Identificou duas anomalias subterrâneas. A primeira, na posição onde o baú fora encontrado, era a cova do próprio baú. A segunda anomalia ficava a 2,40 metros de distância, mais próxima ao muro do fundo, a uma profundidade de cerca de 80 centímetros. Escavaram a segunda anomalia em agosto de 2022, com equipe forense completa. Encontraram restos de esqueleto parcial, ossos pequenos de criança. O grau de fragmentação era elevado após 75 anos, mas o crânio estava presente e permitiu estimar a idade na morte entre 4 e 6 anos, compatível com Zumira. A causa da morte, segundo o laudo pericial, era indeterminável devido à ausência de tecidos moles e à fragmentação óssea.
Não havia como afirmar com certeza o que provocara a morte de Zumira Alencar. A carta dizia: “Castigo que passou dos limites.” Os ossos não podiam confirmar nem contradizer. Cláudio Alencar Nogueira foi ao quintal da Rua São Francisco em um dia de setembro de 2022. Era a primeira vez que voltava àquela casa desde a infância.
Ficou de pé à beira da escavação já coberta, onde os restos de Zumira haviam sido encontrados e depois retirados para exame. O quintal tinha aquela mangueira no canto esquerdo, grande, velha, com raízes que provavelmente passavam perto de onde Zumira estivera por 75 anos. Cláudio não disse nada por um tempo, depois falou:
— Ela é minha tia. Eu nunca soube que existia direito. Meu pai disse o nome dela uma vez. Uma vez na vida inteira.
Façanha estava por perto. Perguntou se Cláudio queria dizer algo para o registro. Cláudio pensou, depois disse:
— O que eu queria dizer não tem registro possível. O que aconteceu aqui não tem jeito de ser dito de um jeito que faça sentido.
Os restos mortais de Zumira Alencar foram sepultados no cemitério São Miguel, em Juazeiro do Norte, em outubro de 2022. Cláudio esteve presente. Toninha Pedreira também foi. A 89 anos de idade, apoiada em uma bengala, com a filha ao lado. Ela havia pedido para ir. Quando Cláudio soube que Toninha carregara aquilo por 75 anos, não disse nada por um tempo.
Depois apenas falou:
— Não era para ter caído nos seus ombros.
Toninha respondeu:
— Eu tinha 14 anos e minha mãe disse que eu não vi nada.
Não houve absolvição nessa troca, mas houve alguma coisa. Difícil nomear o quê. A investigação foi encerrada em novembro de 2022, sem indiciamento. A pessoa nomeada por Toninha como suspeita morrera havia 44 anos.
A carta não fora assinada. Não havia réu, não havia processo, não havia julgamento possível. O Ministério Público do Ceará recebeu o encerramento do inquérito e o arquivou. Zumira Alencar tem uma certidão de óbito emitida agora, em 2022, 75 anos após morrer. A causa declarada é morte por causas indeterminadas.
Há um túmulo com o nome gravado na pedra. Há um registro. Dorival Esteves ainda mora na casa da Rua São Francisco. Cimentou o quintal como planejado. Plantou dois vasos de manjericão perto da mangueira. Disse em entrevista a um portal local que não sentia nenhum desconforto morando ali. Disse:
— Ela está no cemitério agora. O quintal é só um quintal.
Toninha Pedreira morreu em fevereiro de 2023, cinco meses após o sepultamento de Zumira. Tinha 90 anos. A filha contou que ela havia dormido. Contou que nos últimos meses estivera mais quieta do que o habitual, mas pacífica. “Uma tranquilidade diferente”, disse a filha, como não via antes. Cláudio Alencar Nogueira vai ao cemitério em fevereiro de todos os anos. Leva flores. Não reza.
Diz que não sabe rezar para alguém que nunca conheceu. Mas vai. Fica por um tempo em silêncio, depois vai embora. O que aconteceu a Zumira não tem resposta completa. A carta existe, os ossos existem. 75 anos de silêncio existem. O nome gravado na pedra existe, mas o rosto de quem fez aquilo não tem nome certo.
O motivo que fez uma comunidade inteira, vizinhos, parentes, uma menina de 14 anos em um caixote, não perguntar, não olhar, não falar… esse motivo também não tem resposta fácil. Às vezes, o que uma enxada encontra não é o segredo de uma pessoa, mas um segredo que a Terra foi obrigada a guardar, porque ninguém ao redor quis guardá-lo de nenhum outro jeito.
Zumira tinha 5 anos, tinha um vestido de cor, era um terço de sementes que alguém lhe dera para guardar. Existiu por 75 anos apenas sob a terra de um quintal que mudou de mãos três vezes sem que ninguém soubesse o que se passava ali. Agora há um nome em uma pedra. Agora há fevereiro, todos os anos, com flores. Às vezes é o máximo que o tempo devolve.
E às vezes o máximo que o tempo devolve ainda é mais do que o silêncio que havia antes.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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