O Massacre do Rio: Onde 16 Membros do CV Foram Esquartejados em Uma Só Noite, 1987

**O Massacre do Rio: Onde 16 Membros do CV Foram Esquartejados em Uma Só Noite, 1987**
Nas primeiras horas de 23 de agosto de 1987, 16 homens entraram em uma casa abandonada na zona norte do Rio de Janeiro. Nenhum deles sabia que aquela seria sua última noite viva. O que aconteceu ali foi tão brutal que até os jornais da época evitaram publicar os detalhes completos. Esta é a história de uma das cenas mais sangrentas da guerra do tráfico no Rio, uma história que a cidade tentou esquecer, mas que moldou o Rio de Janeiro que conhecemos hoje.
O Rio de Janeiro em 1987 era uma cidade dividida. Enquanto a zona sul exibia suas praias e cartões-postais, as favelas viviam sob o domínio de três principais facções criminosas: o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando (TC) e o Amigos dos Amigos (ADA). Mas havia uma regra não escrita que todos respeitavam: a traição era paga com sangue. No Comando Vermelho, a maior e mais antiga dessas facções, essa regra era levada ao extremo.
Fundada em 1979 por presos políticos e criminosos comuns na prisão da Ilha Grande, a organização cresceu exponencialmente. Em 1987, controlava mais de 40 favelas e movimentava milhões em cocaína. Mas o crescimento rápido trouxe problemas internos. Dezesseis traficantes de médio escalão, responsáveis pela distribuição em várias comunidades da Leopoldina e do subúrbio, começaram a desviar dinheiro. Não era muito — cerca de 2 milhões de Cruzados — mas o suficiente para a cúpula do CV decidir pelo extermínio.
A liderança observou em silêncio por semanas. Em 22 de agosto, sábado, uma reunião urgente foi marcada para a manhã seguinte em uma casa abandonada na Penha, território neutro. O assunto oficial: reorganização das rotas de distribuição. Os 16 homens chegaram entre meia-noite e uma da manhã. Quando o último entrou, o ar já cheirava a pólvora e medo.
**A Conspiração**
O nome de cada um era conhecido, mas poucos o usavam. Para os rivais, eles eram “os traidores da Leopoldina”. Para os aliados, eram “os leais de sempre”. Mas naquela noite, todos eram apenas números.
O chamado veio de um homem que ninguém ousava nomear em voz alta: o “Dono do Jogo”, um dos fundadores mais antigos do CV, um dos poucos que ainda carregava o peso da Ilha Grande. Ele havia mandado uma mensagem codificada para cada um dos 16 — números escritos com giz na parede de uma boca de fumo na praça da Leopoldina, ou sussurrados por entregadores que usavam bonés sem marca. A reunião era “para reorganização”. Todos obedeceram. Porque desobedecer ao CV era como morrer antes de morrer.
O local escolhido era perfeito: uma casinha de tijolo aparente, quase no meio do nada, entre a Penha e o Alemão, território que ninguém reclamava, mas ninguém controlava de verdade. As paredes estavam rachadas, o telhado faltava em alguns lugares, e o chão era de terra batida, cheia de buracos que pareciam poços de sangue já secos. Do lado de fora, o silêncio era absoluto. Dentro, o cheiro de mofo e cigarro velho se misturava ao cheiro de suor e pólvora que ainda não havia chegado.
Os 16 chegaram um a um, como sempre acontecia em reuniões do CV. Primeiro, o “Corcunda”, 42 anos, com o rosto deformado por um soco que levara anos antes. Depois, o “Cão”, um gângster de rua que havia montado a maior boca de fumo da comunidade. Em seguida, o “Tubarão”, 28 anos, que vendia quilo de cocaína por 12 mil Cruzados e nunca perdia o sorriso. E assim por diante, todos conhecidos por apelidos que escondiam nomes de verdade.
Nenhum deles desconfiou. Ninguém sentiu o peso do olhar que os observava da sombra das paredes.
A cúpula já estava lá. Eram oito homens, armados até os dentes. O “Dono do Jogo” estava sentado numa cadeira de plástico quebrada, com um maço de cigarros na mão e um revólver .38 na cintura. Ao lado dele, o “Silêncio”, que nunca falava mais do que o necessário, e o “Bala”, que havia matado dez pessoas com uma só arma. Eles não precisavam de nomes. Todos sabiam quem era quem.
A reunião começou com o “Dono do Jogo” dizendo, calmamente:
— Irmãos, o tempo de desvio acabou. A gente não pode ter gente roubando o que o CV construiu com sangue.
Os 16 se entreolharam. Alguém pigarreou. O “Corcunda” foi o primeiro a falar:
— Chefe, eu só peguei 80 mil. Não foi nada. A minha boca tava cheia, os fornecedores tavam apertando…
Ninguém respondeu. O silêncio que se seguiu foi pior que qualquer grito.
Então as ordens vieram. Dois homens saíram, voltaram com sacos de pano cheios de tijolos, pedaços de madeira, serras, facas de cozinha e uma serrote. O “Silêncio” abriu o primeiro saco na frente de todos.
— Agora vamos mostrar o que a gente faz com traidor.
**O Massacre**
A primeira vítima foi o “Tubarão”. Ele tentou correr. Um tiro na perna o derrubou. Depois, as facas. Cortes limpos, precisos, como se os homens soubessem exatamente onde cortar para não quebrar os ossos. O “Corcunda” segurou a cabeça dele contra o chão enquanto o “Cão” enfiava a faca na barriga. O sangue espirrou na parede e formou uma mancha escura que nunca mais saiu.
— Isso é pra cada 80 mil que você roubou — disse o “Dono do Jogo”, sem emoção.
O “Tubarão” não gritou. Só ficou olhando o teto rachado, os olhos arregalados de choque.
Um atrás do outro, os outros 15 foram mortos. O “Cão” foi o segundo. Tentou usar uma cadeira como escudo. O “Bala” quebrou a perna dele com um golpe e depois enfiou a faca no peito. O “Capitão”, que liderava a boca de fumo da Vila Kennedy, foi o terceiro. Ele pediu perdão. O “Dono do Jogo” disse: “Perdão não existe no CV”.
As vozes se misturavam ao som de facas rasgando carne, serras cortando ossos, e o cheiro metálico do sangue. Ninguém parava. Não havia pânico. Era rotina. Era a lei não escrita.
Quando o último corpo foi encontrado — o do “Boca”, um jovem de 19 anos que ainda usava boné do time do Flamengo — já eram quase 4h da manhã. Os oito executores lavaram as mãos numa bacia de zinco que encontraram na cozinha. Ninguém limpou o sangue das paredes. Ninguém limpou os sapatos. Eles saíram devagar, um por um, como se tivessem acabado de sair de um filme.
A casa ficou em silêncio novamente. Só o vento batendo nas janelas quebradas e o gotejar constante da chuva que havia começado a cair.
**A Descoberta**
Aos poucos, os corpos começaram a ser encontrados. Primeiro foi a vizinha do “Corcunda”, que viu o cheiro estranho e chamou a polícia. Depois, o entregador que ia buscar o café e viu a porta entreaberta. O alarme da PM chegou às 6h. Quando os policiais abriram a porta, a cena era de um pesadelo.
Oito corpos dentro da casa. Dois no quintal, como se tivessem tentado fugir. E mais seis espalhados na sala e no quarto. Todos sem cabeça. Todos com cortes precisos. O “Corcunda” tinha o rosto quase separado do corpo. O “Cão” tinha o braço direito cortado logo abaixo do ombro. O “Tubarão” ainda segurava uma faca na mão, como se tivesse tentado se defender até o fim.
A imprensa da época falava em “chacina”. Mas ninguém ousava dizer as palavras reais. Esquartejamento. Tribunais do crime. Execução sumária.
Em dez dias, 13 dos 16 foram identificados. Os nomes completos foram revelados pela polícia em uma lista interna. O “Tubarão” era José Carlos da Silva. O “Cão” era Carlos Alberto de Oliveira. O “Capitão” era Antônio Ferreira. E assim por diante.
Todos eram conhecidos como traficantes de médio escalão. Todos controlavam bocas de fumo rentáveis. Todos tinham dívidas com o CV — ou simplesmente eram vistos como ameaça.
A polícia nunca provou que foi o CV. Nunca achou provas. Os corpos foram enterrados em cemitérios clandestinos nas favelas da Leopoldina. A casa foi demolida. A história foi enterrada junto.
**O Legado**
Mas o Rio nunca esqueceu.
Trinta anos depois, o CV continua sendo a facção mais poderosa do país. A guerra entre CV, TC e ADA continua sangrenta. E toda vez que um traficante é encontrado “esquartejado” ou “sem cabeça”, os moradores das favelas dizem: “É o mesmo jeito de 1987”.
A cidade que tentou esquecer o massacre do Rio nunca conseguiu. Porque aquele dia não foi só uma morte. Foi o momento em que a traição dentro do próprio CV mostrou que nem mesmo os mais poderosos estão seguros. Foi o dia em que a lei do sangue se tornou lei de verdade.