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O Escravo que Fugiu do Engenho e 15 Anos Depois Voltou para o Ajuste de Contas – 1807

 

O Escravo que Fugiu do Engenho e 15 Anos Depois Voltou para o Ajuste de Contas
Quinze anos é tempo suficiente para esquecer muitas coisas, mas Damião não conseguia esquecer o rosto de sua irmã Felícia, jogada em um buraco na mata sem cruz, sem uma prece ou qualquer gesto de despedida.
Em sua memória ainda ardia a lembrança dolorosa de que o dono do engenho havia abusado e matado a segunda pessoa mais importante de sua vida, e que, mesmo após tanta crueldade, o senhor continuava vivendo como um homem bom, sendo respeitado e dormindo em paz todas as noites.
Então, em 1807, Damião tomou uma decisão que mais ninguém ousava tomar naquele tempo: ele retornou, entrou na casa-grande e subiu até o quarto onde o senhor dormia.
E quando Gaspar abriu os olhos e viu quem estava ali com um facão na mão, ele entendeu que algumas dívidas nunca morrem de verdade.
Antigamente, aqueles que conseguiam fugir tinham apenas dois destinos: morrer na floresta ou desaparecer em um quilombo distante.
Voltar significava se entregar ao chicote impiedoso, mas Damião não se importava, pois ele havia construído uma nova vida, era um homem livre e tinha encontrado o amor de uma mulher e um quilombo que o acolhera.
Nada disso, porém, podia apagar a raiva que ardia dentro dele sempre que se lembrava do corpo de sua irmã sendo tratado como lixo.
Para entender como um homem fugitive teve a coragem de voltar ao inferno, precisamos voltar 15 anos no tempo, ao dia em que a fazenda São Sebastião deixou de ser um local de trabalho e se tornou um campo de caça.
No início de 1792, a vida na fazenda São Sebastião do Engenho Queimado seguia o mesmo ritmo de sempre.
Damião batia o ferro quente desde o amanhecer, Lucrécia, sua mãe, cozinhava na casa-grande, e Felícia, sua irmã, ajudava onde fosse necessário em uma rotina dura, mas previsível, até o dia em que tudo mudou.
Gaspar Velho de Almeida administrava aquela fazenda no interior da Bahia com a autoridade de quem nunca havia ouvido a palavra “não”, sendo um homem rico e ocupando o cargo de vereador na Câmara Municipal de Cachoeira, diante de quem todos abaixavam a cabeça e obedeciam.
Damião tinha 20 anos e Felícia acabara de completar 17, possuindo um jeito tranquilo que fazia com que as pessoas gostassem dela sem que precisasse se esforçar, mas as coisas começaram a mudar em fevereiro, quando Gaspar passou a pedir que ela trabalhasse na casa-grande com mais frequência.
A preferência dele era chamar a moça quando a mãe estava ocupada na cozinha e não podia vigiá-la, encarregando-a de pequenos afazeres domésticos que pareciam inofensivos à primeira vista.
Lucrécia, no entanto, sentia o perigo antes mesmo de conseguir explicá-lo: “A mãe sente essas coisas no corpo, um aperto no peito que avisa que algo ruim está chegando”, pensava ela ao ver o jeito como Gaspar olhava para Felícia com um olhar que congelava o sangue nas veias.
A mãe tentava manter a filha por perto fingindo precisar de ajuda, mas, quando Gaspar ordenava que a chamassen, não havia como recusar as ordens do senhor, que jamais eram questionadas.
As outras mulheres da senzala também começaram a notar algo estranho no ar e passaram a olhar para Felícia com piedade, pois conheciam aquele tipo de atenção e já haviam visto garotas voltarem da casa-grande com um silêncio pesado nos olhos que nunca mais ia embora.
Damião só percebeu que algo estava errado quando viu sua mãe chorando escondida no canto da senzala com as mãos no rosto, e, ao insistir para saber o motivo, ouviu Lucrécia dizer com os olhos vermelhos que ele não devia interferir e que o melhor era o silêncio para continuar vivo.
Em março, em uma tarde de ar pesado, o golpe final foi desferido quando Gaspar convocou Felícia para organizar papéis no escritório.
A jovem subiu os degraus da casa-grande como se pressentisse que sua vida mudaria para sempre, enquanto Lucrécia lavava os mesmos tachos três vezes na cozinha para abafar a angústia com orações que misturavam rezas de branco e de seu próprio povo.
A noite caiu e Felícia não retornou, fazendo com que Lucrécia corresse até o portão lateral da casa-grande para implorar ao feitor por notícias da filha, apenas para ouvir dele, com frieza total, que a jovem ficaria ali por ordem do senhor.
Sentindo o mundo desabar, Lucrécia tentou insistir mais uma vez, mas o feitor foi irredutível ao dizer que o senhor não queria ser incomodado e que ela deveria voltar para o seu lugar.
De pernas pesadas, ela retornou para as cinzas e encontrou Damião esperando, que entendeu tudo imediatamente ao ver o rosto da mãe e a ausência da irmã.
Aquela noite passou em claro na senzala sob o domínio do medo, enquanto, trancada em um quarto na casa-grande, Felícia sabia que sua antiga vida havia acabado para dar lugar a um novo e tenebroso começo.
Os meses se passaram com Lucrécia convivendo com a dor diária de ter a filha tão perto e tão inacessível, até que, em julho, durante um segundo de descuido em que a janela do quarto se abriu, ela viu o rosto magro e afundado de Felícia junto com sua barriga crescendo sob o vestido.
Sabendo exatamente como aquela história terminava para uma mulher grávida de um senhor de engenho, Lucrécia intensificou suas preces a todas as entidades possíveis, embora no fundo soubesse que orações não abriam portas trancadas nem curavam feridas de chicote.
Foi nessa época que o padre Inácio chegou à fazenda para suas visitas habituais, diferenciando-se dos outros por conversar com os escravizados e demonstrar verdadeira humanidade.
Acreditando que um homem da igreja poderia interceder, Lucrécia correu para alcançá-lo perto do pátio e, ajoelhando-se com desespero, contou-lhe sobre o cativeiro e a gravidez de Felícia.
O sacerdote ouviu tudo com tristeza e concordou em tentar falar com Gaspar, mas, ao sair da casa-grande após a tentativa, foi expulso aos gritos por um Gaspar enfurecido que rechaçou qualquer interferência em suas propriedades.
Vendo sua última esperança desaparecer, Lucrécia foi avistada por Gaspar, que, tomado pelo ódio, ordenou ao feitor que a levasse ao pelourinho para dar um exemplo a todos que ousassem questionar sua autoridade.
Damião retornava do trabalho quando ouviu o primeiro grito e correu para encontrar a mãe amarrada à coluna de pedra, com o feitor desferindo chibatadas que rasgavam suas costas e faziam o sangue correr.
Tomado por uma raiva explosiva, o rapaz conteve seu impulso de matar todos ali para salvar a si mesmo e à mãe, limitando-se a assistir impotente até o fim do castigo em que Lucrécia desmaiou pendurada nos grilhões.
Com o auxílio dos amigos da senzala, Damião cuidou dos ferimentos da mãe, que, ao recuperar a consciência por um breve momento, sussurrou para que ele cuidasse de si mesmo, pois ela já não conseguia.
Apesar de ter sobrevivido aos ferimentos físicos, Lucrécia carregava a alma marcada para sempre, enquanto Felícia continuava trancada e grávida.
Em dezembro, o calor sufocante trouxe os gritos de parto de Felícia no meio da noite, mas o feitor impediu qualquer socorro na senzala, deixando Lucrécia estendida no chão de terra a sofrer com cada gemido da filha até que o silêncio absoluto prevalecesse.
Ao raiar do dia, a visão de dois homens carregando um corpo ensanguentado enrolado em um lençol confirmou a tragédia: Felícia havia morrido no parto e o bebê nascera natimorto, sendo ambos jogados em uma cova rasa na mata sem cruz ou oração.
Compreendendo que seria o próximo alvo de um Gaspar determinado a apagar todas as testemunhas de seus crimes, Damião partiu na mesma noite para a floresta escura, deixando para trás a mãe adormecida e levando consigo apenas um corpo tomado pela sede de vingança.
Após três dias caminhando sem parar e quase morrendo à beira de um riacho, ele foi encontrado por homens do quilombo e levado para se recuperar sob os cuidados de Benedito, o líder da comunidade.
Ao despertar, Damião conheceu uma realidade inédita de pessoas negras vivendo em liberdade e, após relatar sua história a Benedito, recebeu a oportunidade de construir uma nova vida ali, trabalhando e aprendendo a se defender dos capitães-do-mato.
Com o passar dos anos, o corpo de Damião se fortaleceu através do trabalho árduo e do treinamento militar, tornando-o um dos guerreiros mais respeitados e temidos do quilombo.
Em 1798, ele conheceu Joana, uma mulher forte e alegre que havia fugido de uma fazenda no Rio de Janeiro, com quem logo passou a dividir a vida e a casa.
Apesar do amor de Joana e de ter se tornado o novo líder do quilombo após a morte de Benedito em 1806, Damião não conseguia encontrar paz, pois todas as noites os fantasmas do passado avivavam o desejo incontrolável de acertar as contas.
Em agosto de 1807, incapaz de continuar sufocando aquela dor, Damião anunciou a Joana que precisava retornar à fazenda onde tudo começara, ignorando os rogos e os avisos sobre a morte certa que o aguardava.
Após uma jornada solitária de quatro dias, ele alcançou a fazenda São Sebastião do Engenho Queimado e passou o dia inteiro escondido na mata, observando a imutabilidade daquele cenário de horror onde o pelourinho ainda exibia manchas de sangue antigo.
Com a chegada da noite, Damião cruzou o pátio silenciosamente e entrou na senzala, onde encontrou sua mãe envelhecida, de cabelos brancos e mãos trêmulas.
O reencontro foi marcado por lágrimas silenciosas e um abraço apertado, seguido imediatamente pelos rogos de Lucrécia para que ele fugisse antes que Gaspar o descobrisse e o matasse.
Apesar dos apelos da mãe, Damião manteve-se firme em seu propósito e obteve dela a informação crucial: todas as tardes, por volta das duas horas, Gaspar costumava tirar uma soneca em seu quarto no andar superior, ficando completamente vulnerável sem a proteção dos feitores.
Passando a noite acordado sob as estrelas e revivendo as memórias de sua família destroçada, Damião aguardou o momento oportuno do dia seguinte.
Quando o sol atingiu o zênite e o senhor recolheu-se aos seus aposentos, ele emergiu da mata, cruzou o pátio e entrou na casa-grande sem encontrar resistência.
Subindo as escadas de madeira que rangiam sob suas botas, ele alcançou a porta do quarto principal, empurrou-la vagarosamente e deparou-se com Gaspar deitado na cama, respirando pesadamente sob um lençol branco.
O barulho do assoalho sob os passos de Damião despertou o velho senhor, que, ao abrir os olhos e reconhecer o rapaz após quinze anos, compreendeu instantaneamente o motivo daquela visita e viu-se tomado por um pavor paralisante.
Enquanto Gaspar tentava balbuciar justificativas esfarrapadas e pedidos patéticos de clemência, Damião permaneceu em silêncio por alguns instantes, revivendo na mente a imagem da irmã trancada e da mãe açoitada.
Com uma voz calma e controlada pelo peso de uma década e meia de ódio, Damião enumerou os crimes do senhor, detalhando o sofrimento de Felícia e o martírio de Lucrécia.
Diante das súplicas desesperadas do velho que oferecia dinheiro e implorava pela própria vida, Damião recusou-se a aceitar o arrependimento falso que era motivado apenas pelo medo.
Aproximando-se da cama, ele pegou um travesseiro com ambas as mãos e pressionou-o firmemente contra o rosto de Gaspar, que, enfraquecido pela idade, debateu-se em vão até cessar todos os movimentos.
Com a morte confirmada, Damião ajeitou o lençol sobre o corpo sem vida, saiu do quarto com serenidade e atravessou o pátio para se despedir de sua mãe pela última vez.
Lucrécia abraçou o filho, compreendeu que ele precisava retornar ao seu refúgio para continuar vivendo e abençoou sua partida, sabendo que ela mesma permaneceria ali por ser o único lugar que conhecia.
Caminhando rapidamente de volta pela mata, Damião retornou ao quilombo quatro dias depois, onde foi recebido por Joana e percebeu que a raiva que o consumira por tantos anos finalmente havia dado lugar a uma profunda leveza.
Daquele dia em diante, deitado ao lado de Joana, ele pôde dormir em paz pela primeira vez, sabendo que sua irmã havia sido vingada e que a verdadeira justiça, aquela que os tribunais coloniais jamais entregariam, finalmente havia sido feita pelas mãos de quem sofreu a opressão.
A história de Damião escancara a face mais brutal do sistema escravocrata colonial, onde a lei protegia os senhores e a justiça oficial jamais puniria um homem poderoso pela morte de uma pessoa escravizada.
Ao retornar para ajustar as contas, Damião não buscou apenas a morte de um tirano, mas sim a expiação de uma dor insuportável que o corroía por dentro, demonstrando que, mesmo diante da opressão sistêmica, havia quem se recusasse a esquecer e a aceitar a impunidade.
Enquanto Lucrécia envelhecia com suas cicatrizes, mas com a alma lavada pela certeza da reparação, e Damião retomava sua vida em liberdade ao lado de Joana, a memória de Felícia pôde finalmente descansar na paz daqueles que lutaram contra o apagamento da história.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

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