O Que Aconteceu Com As Esposas Dos Líderes Nazistas Após A Segunda Guerra Mundial?
O Que Aconteceu Com As Esposas Dos Líderes Nazistas Após A Segunda Guerra Mundial?
Quando o Terceiro Reich desmoronou, em 1945, os Aliados encontraram esposas de dirigentes nazistas tentando reconstruir a vida. Alguns maridos estavam mortos; outros, capturados ou desaparecidos. A pergunta era incômoda: eram apenas mães e donas de casa, ou haviam participado da engrenagem que destruiu milhões de vidas?
Não existia resposta única. Algumas defenderam abertamente o nazismo e permaneceram fiéis a Hitler; outras alegaram desconhecer os crimes dos maridos. O conforto doméstico, porém, não as tornava automaticamente inocentes quando os horrores aconteciam ao redor.
Gerda Bormann, nascida Gerda Buch em 1909, cresceu em uma família ligada ao movimento nazista. Seu pai, Walter Buch, aproximou-a de Martin Bormann, funcionário do partido que se tornaria um dos homens mais próximos de Hitler. Os dois se casaram em 1929. Com a ascensão do regime, Martin alcançou influência e Gerda passou a desfrutar dos privilégios reservados à elite nazista, enquanto criava os filhos segundo os ideais racistas que defendia.
Em 1945, Gerda fugiu com os filhos para o Tirol do Sul, na Itália, ajudada por antigos contatos nazistas. Martin separou-se da família durante a retirada e morreu nos últimos dias da guerra, embora isso só fosse confirmado mais tarde. Gravemente doente, Gerda foi localizada pelos britânicos e levada ao hospital. A cirurgia não a salvou. Aproximou-se do catolicismo e morreu em março de 1946, antes de completar 37 anos.
Magda Goebbels teve um destino ainda mais devastador. Nascida em 1901, passou parte da infância em Bruxelas e voltou à Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Após um casamento com o industrial Günther Quandt, conheceu Joseph Goebbels em um comício nazista. A eloquência agressiva do propagandista a impressionou, e ela aderiu ao partido. Em 1931, os dois se casaram, com Adolf Hitler como padrinho. Magda tornou-se uma figura pública do regime, apresentada pela propaganda como mãe exemplar e esposa dedicada.
Magda estava comprometida com o projeto nazista. Nos últimos dias do Reich, a família refugiou-se no complexo subterrâneo da Chancelaria, perto do bunker de Hitler. Em 30 de abril de 1945, Hitler e Eva Braun morreram. No dia seguinte, Magda e Joseph mataram os seis filhos e depois tiraram a própria vida. Os corpos foram queimados por ordem de Joseph, e soldados soviéticos encontraram os restos carbonizados. A tragédia das crianças não apaga a responsabilidade dos pais, que escolheram a morte em vez de enfrentar a derrota e o mundo que haviam ajudado a destruir.
Ilse Hess manteve devoção duradoura ao marido, Rudolf Hess. Conheceram-se em Munique, unidos pelo interesse pela cultura alemã e pela política nacionalista. Ela apoiou sua atuação no movimento e permaneceu ao seu lado após o golpe fracassado de 1923. Casaram-se em 1927 e tiveram um filho.
Em 1941, Rudolf voou sozinho para a Escócia, numa tentativa mal calculada de negociar a paz com o Reino Unido. Foi detido e tratado pelo regime nazista como traidor. Depois da guerra, tornou-se um dos réus dos julgamentos de Nuremberg e recebeu prisão perpétua. Ilse foi internada por um período, interrogada e libertada em 1948. Mais tarde, abriu uma hospedaria nos Alpes bávaros e visitou o marido na prisão de Spandau. Continuou defendendo-o e publicou livros que apresentavam Hess como prisioneiro da paz, sem reconhecer de modo convincente a natureza criminosa do regime ao qual ambos haviam aderido.
A história de Margarete Himmler mostra outra forma de proximidade com o poder. Enfermeira de formação e oito anos mais velha que Heinrich Himmler, ela o conheceu durante uma viagem de trem. A correspondência entre os dois tornou-se frequente, e acabaram se casando em 1928. Margarete vendeu parte de uma propriedade herdada para financiar o sonho de Himmler de se tornar agricultor. O projeto foi abandonado quando a carreira dele no Partido Nazista avançou: primeiro chefe da SS, depois chefe da polícia e um dos principais responsáveis pelo sistema de perseguição e extermínio dos judeus europeus.
Em maio de 1945, Heinrich tentou escapar da captura e morreu após morder uma cápsula de cianeto. Margarete e a filha, Gudrun, foram detidas pelos Aliados e passaram por campos de internamento. Durante os interrogatórios, Margarete afirmou que desconhecia os assuntos oficiais do marido. As autoridades, porém, consideraram que ela havia se beneficiado do regime e, em 1953, impuseram-lhe trabalho punitivo, além de retirar direitos civis. Depois disso, afastou-se da vida pública e morreu em 1967. Seu silêncio deixou perguntas sem resposta, mas não alterou o papel histórico do homem que ajudara a criar.
Gudrun Himmler cresceu cercada por privilégios e pela imagem idealizada do pai. Ainda jovem, foi interrogada pelos Aliados, que avaliaram seu conhecimento sobre as atividades da família. Mais tarde, em vez de romper com o passado, aproximou-se de grupos de extrema direita e apoiou organizações que auxiliavam antigos integrantes da SS. Também ajudou movimentos neonazistas e permaneceu fiel à memória de Heinrich Himmler até morrer, em 2018. Sua trajetória demonstra que a derrota militar não encerrou automaticamente a ideologia: ela sobreviveu em redes de solidariedade, nostalgia e negação.
Hedwig Höss, esposa de Rudolf Höss, comandante de Auschwitz, viveu com os filhos numa casa próxima ao campo. O jardim doméstico e a rotina familiar contrastavam brutalmente com a violência praticada a poucos passos dali. Alguns sobreviventes relataram ter visto Hedwig nas proximidades; também surgiram relatos de objetos e presentes que poderiam ter vindo de vítimas. A extensão exata de seu conhecimento é discutida, mas a proximidade física com Auschwitz torna difícil tratar a imagem de uma dona de casa completamente alheia como explicação suficiente. Após a guerra, ela foi interrogada, mas não recebeu condenação criminal. Morreu em 1989, mantendo grande parte do passado em silêncio.
Lina Heydrich, esposa de Reinhard Heydrich, não escondia sua adesão ao nazismo. Conheceu o oficial da Marinha em 1930 e compartilhava com ele o antissemitismo e a ambição de ascender socialmente. Quando Heydrich perdeu a carreira naval, Lina o incentivou a entrar na SS. Ele se tornou uma figura central do aparato de segurança nazista e um dos responsáveis pela perseguição e deportação de judeus. Foi morto em 1942, após um atentado na então ocupada Tchecoslováquia. No pós-guerra, Lina foi interrogada, mas não foi condenada por crimes nazistas. Obteve uma pensão relacionada ao serviço do marido e passou anos defendendo sua memória, inclusive em livros e entrevistas. Morreu em 1985.
Hermann Göring teve duas esposas. Karin apoiou sua ascensão e foi usada pela propaganda como símbolo de devoção; morreu em 1931. Em 1935, ele se casou com a atriz Emmy Sonnemann, que se beneficiou de sua posição e se tornou conhecida no regime. Após a guerra, Emmy foi condenada a um ano de prisão, perdeu parte dos bens e ficou proibida de atuar por cinco anos. Viveu em Munique até morrer, em 1973.
Eva Braun permaneceu ao lado de Hitler durante anos, apesar de ser mantida longe de boa parte da vida pública. Conheceram-se no estúdio do fotógrafo Heinrich Hoffmann, onde ela trabalhava. Hitler controlava a relação e evitava casar-se, enquanto Eva buscava atenção e reconhecimento. Duas tentativas de suicídio marcaram períodos de abandono emocional. Com o tempo, recebeu uma casa e acesso mais regular ao círculo privado do líder, mas nunca teve influência política comparável à das figuras que comandavam o regime.
Em abril de 1945, quando a derrota era inevitável, Eva foi para Berlim e casou-se com Hitler numa cerimônia breve dentro do bunker. Menos de quarenta horas depois, ambos estavam mortos. Segundo a versão mais aceita, Hitler se matou com um tiro e Eva ingeriu cianeto. Seus corpos foram levados ao jardim da Chancelaria e queimados. Durante décadas, a falta de informações públicas alimentou rumores de fuga, mas as evidências históricas confirmam que morreram em Berlim.
A irmã de Eva, Gretl Braun, também frequentava o círculo de Hitler. Casou-se com Hermann Fegelein em 1944. No ano seguinte, ele tentou fugir de Berlim, foi preso e executado. Gretl, grávida, pediu ajuda à irmã, sem sucesso. Após a guerra, deu à filha o nome de Eva Barbara e escolheu uma vida discreta e reservada. A filha morreu por suicídio em 1971; Gretl morreu em 1987.
Essas histórias não autorizam uma sentença igual para todas as mulheres, nem permitem transformar cada esposa em autora direta dos crimes do marido. As responsabilidades variaram, assim como as provas disponíveis. Ainda assim, mostram como o nazismo também se sustentou por meio de admiração, cumplicidade, conveniência e silêncio. Algumas mulheres defenderam abertamente o racismo e ajudaram a preservar a ideologia depois de 1945; outras procuraram esconder o que sabiam ou alegaram não ter sabido.
O fim do regime não apagou as escolhas feitas durante sua existência. A vida privada das famílias nazistas nunca esteve totalmente separada da política: seus privilégios vinham de um Estado criminoso, e algumas delas contribuíram para manter sua imagem e seus valores. Recordar essas trajetórias não significa ignorar as diferenças entre elas, mas recusar a ideia confortável de que a proximidade com o poder absolve alguém de responsabilidade. A história exige olhar para os atos, para os silêncios e para as consequências que continuaram muito depois da queda do Terceiro Reich.
