O Abu$o na Casa Grande: A História do Homem que Não Podia Dizer Não.
O Abu$o na Casa Grande: A História do Homem que Não Podia Dizer Não.

O sol despontava como uma ferida aberta sobre os morros de Vassouras. Era uma claridade que não pedia licença, castigando a terra e fazendo o ar tremer sobre os cafezais sem fim. Naquela alvorada, Domingos despertou no breu habitual da senzala. Aos trinta anos, carregava um corpo forjado no eito e dois segredos guardados a sete chaves: lembrava-se da liberdade vivida no Recôncavo Baiano antes de ser trazido pelo coronel Jacinto de Albuquerque, e sabia ler. As letras lhe tinham sido dadas anos atrás pela menina Isaura, filha mais velha do sinhô, antes de ela se casar com um juiz e partir para a corte paulista. Debaixo da palha gasta do catre, ele tocou o livro surrado de poesias, sua única centelha de dignidade.
O sino tocou ríspido, rompendo a quietude matinal. Ao seu lado, Benedito se espreguiçou com um suspiro conformado, enquanto Maria das Dores, a lavadeira, benzia-se ao pé da porta. Domingos lavou o rosto na água do poço, engoliu a raiva miúda do cotidiano e seguiu para a lida. Ele fazia de tudo um pouco: consertava cercas, tratava da moenda e cuidava do maquinário. O coronel Jacinto valorizava sua destreza. Era um fazendeiro austero, seco como couro curtido, que raramente recorria ao chicote sem motivo, acreditando apenas cumprir a ordem natural do mundo. Mas o perigo real não vinha do homem da casa; vinha do tédio empoeirado da varanda.
Ali reinava Sinhá Mariana. Vinda do Rio de Janeiro ainda moça para desposar um viúvo vinte anos mais velho, Mariana parecia uma ventania presa em rendas e sedas caras. Dona de olhos verdes inquietos e cabelos muito pretos, passava os dias lendo romances franceses e suspirando contra o vazio daquelas colinas. Sentia-se tão cativa quanto os negros do terreiro, embora sua prisão fosse forrada de veludo. Naquela semana, o coronel viajara a negócios da Câmara, deixando a fazenda sob calmaria aparente.
Do alto do alpendre, o olhar ocioso de Mariana desceu até o poço. Domingos trabalhava no conserto de uma roldana quebrada; o mormaço o obrigara a despir a camisa de algodão cru. Ao ver a musculatura delineada e a pele escura brilhando sob o sol como bronze trabalhado, algo entorpecido acordou no peito da sinhá. Não era amor nem carinho; era uma fome repentina de domínio e de carne, o capricho de quem julgava ter posse sobre todas as almas daquelas terras.
Lá embaixo, Domingos sentiu um frio cortar-lhe a espinha. Ao erguer os olhos de soslaio, viu a mulher imóvel à balaustrada, devorando-o à distância. Apressou-se em recolher a camisa e sumiu por trás das tulhas de café, mas a semente da ruína já brotara. Naquela noite, o velho Joaquim do Rosário, cativo de cabelos alvos que cuidava da cocheira, notou o tormento do rapaz e avisou-o sem rodeios: quando o desejo sopra da Casa-Grande para a senzala, não deixa nada além de terra arrasada. O remédio era fazer-se invisível.
Domingos tentou o sumiço. Voluntariava-se para as capinas mais distantes e voltava de cabeça baixa no lusco-fusco. Contudo, a invisibilidade perde a força quando o senhor decide caçar. Dias depois, a mucama Luzia chegou ao estábulo trêmula, com a notícia de que a patroa ordenava a presença dele no casarão para reparar o fecho emperrado de uma janela.
Joaquim apenas baixou os olhos e pediu que os ancestrais o amparassem. Recusar a ordem de uma sinhá equivalia ao tronco ou à venda para as charqueadas do Sul. Com o peito pesado como pedra, Domingos subiu a escadaria nobre, sentindo nos ombros o olhar condolente dos companheiros do terreiro. A porta do quarto principal estava entreaberta. Mariana o aguardava deitada numa chaise-longue, envolta em uma camisola fina, com uma garrafa de vinho do Porto à mesa de cabeceira. O aposento exalava um perfume sufocante de jasmim.
O fecho da veneziana funcionava com perfeição. Ao perceber o ardil, Domingos tentou recuar em respeito ao coronel, mas Mariana encurtou o espaço, pousando as mãos em suas costas e cravando as unhas sem hesitação. Fez do poder a sua arma mais cortante: ou ele a servia na penumbra, ou o tronco o esperava ao alvorecer sob a alegação de rebeldia. Encurralado, o homem sucumbiu. Não houve paixão; houve vergonha, humilhação e uma amargura dilacerante. Enquanto ela tomava posse do que julgava ser seu por direito, ele mirava a fresta da vidraça, apegando-se à luz de uma estrela solitária para não perder o que lhe restava de alma.
Quando Mariana o dispensou com um gesto desdenhoso, Domingos desceu as escadas como um autômato. Atrás do paiol, caiu de joelhos e vomitou o fel daquela afronta. Não era mais um homem livre em espírito; tornara-se objeto de um capricho senhorial.
O pesadelo repetiu-se em cada ausência de Jacinto. O rapaz foi murchando por dentro. Escondeu o livro de Isaura no fundo da enxerga por sentir que os versos de dignidade agora zombavam da sua desgraça. Tornou-se arredio, perdeu o apetite e quase rompeu o laço com Benedito. Na senzala, a fofoca logo correu entre alguns que viam nele privilégios inexistentes, culminando numa briga amarga com Tobias na roça. Domingos buscou novo alento nos conselhos secos do velho Joaquim: resistir não com punhos, mas trancando a própria mente num sacrário onde as mãos dos donos jamais pudessem alcançar.
Três semanas se passaram quando o coronel partiu em nova jornada e os chamados cessaram de repente. O alívio, porém, durou pouco. Mariana começou a surgir na sacada lívida, trêmula, com enjoos constantes e a mão espalmada sobre o ventre. Todas as mulheres da casa decifraram o sinal: a sinhá estava prenhe.
A notícia caiu como raio no terreiro. Se o coronel desconfiasse da verdade, a honra da família seria lavada em sangue negro. Para Mariana, o antigo objeto de capricho tornara-se agora a prova viva do seu erro. O olhar da mulher mudou de fascínio para um ódio gélido e calculista. Ela precisava sumir com o problema antes do parto.
Jacinto retornou antes do previsto e mandou chamar Domingos imediatamente ao escritório. O fazendeiro polia uma pistola sobre o gaveteiro de jacarandá quando o cativo entrou. O silêncio da sala pesava mais que o chumbo. Sem levantar a vista, o coronel mencionou as conversas que chegavam aos seus ouvidos, as idas noturnas ao quarto de dormir e a palidez doentia da esposa. Ao sacar um chicote pesado da parede, exigiu a verdade crua.
Diante do estalo do couro e da certeza do próprio fim, a mordaça de Domingos arrebentou. Não por rebeldia tola, mas pelo cansaço intolerável de carregar aquela culpa postiça. Olhando nos olhos de Jacinto, narrou cada detalhe: as chantagens de Mariana, o pretexto da tranca da janela, as ameaças de castigo e o terror suportado noites a fio. Despejou as lágrimas guardadas por meses, afirmando sua condição de homem subjugado pela força daquela casa.
O rosto do coronel empalideceu em raiva contida; os nós dos seus dedos embranqueceram ao redor da coronha da arma. Sem dar sentença, mandou-o recolher-se à senzala e não abrir a boca para viva alma.
A madrugada foi de agonia. Da casa-grande, vazavam gritos histéricos de Mariana entremeados com o estrondo de louças quebradas e a voz tonitruante do patriarca ferido em seu brio. Perto das três da manhã, um tiro ecoou solitário pela escuridão da serra fluminense, seguido por uma calmaria tumular.
Ao romper da manhã, o feitor cruzou a soleira da senzala sem levantar os olhos e anunciou a partida: Domingos fora vendido às pressas para um tropeiro a caminho das charqueadas do Rio Grande, terra fria e de lida desumana onde poucos resistiam mais que alguns invernos. O tiro da noite anterior matara o orgulho da sinhá, não sua vida; mas a mancha precisava ser expurgada da fazenda.
Com a medalhinha da mãe Zefa no pescoço e o livro encadernado rente ao peito sob a camisa de algodão, Domingos despediu-se dos seus. Benedito chorou de soluçar, enquanto o velho Joaquim lhe tocou a fronte, pedindo que a força dos orixás e dos antepassados jamais o deixasse esquecer o próprio nome.
A carroça de ferro rangeu na terra vermelha. Ao passar pela última curva dos cafezais, Domingos ergueu o rosto e viu, na janela do quarto alto, a figura silente de Mariana com a mão sobre a barriga redonda. Não sentiu ódio, apenas a profunda tristeza de quem compreendia o maquinário daquele cativeiro cruel, onde corpos e destinos eram sacrificados para sustentar aparências e vontades mesquinhas. Subindo a serra a caminho do sul bravio, segurou firme o volume de poesia contra o coração batendo forte, determinado a manter-se homem até o último sopro da sua existência.