Uncategorized

EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UM JOVEM EM 1996

EX-COVEIRO RELATA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UM JOVEM EM 1996

Em 1996, eu trabalhava como coveiro no Cemitério Municipal de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Eu já tinha aprendido a conviver com o silêncio daquele lugar, com o som das pás, o vento passando entre as árvores e, principalmente, com a dor das famílias. Cada pessoa sofria de um jeito. Algumas choravam sem parar; outras permaneciam caladas, como se qualquer palavra pudesse fazê-las desabar. Depois de tantos anos naquele trabalho, eu acreditava que poucas coisas ainda seriam capazes de me surpreender. Mas a morte de um rapaz chamado Diego Fernandes Costa mudou essa certeza.

Diego tinha apenas dezoito anos. Lembro que soube do enterro na manhã daquele dia, quando um colega comentou que a família já estava a caminho. Não perguntei como o rapaz havia morrido. No cemitério, aprendemos a respeitar certos limites. Preparei a sepultura e esperei a chegada do cortejo.

A tarde estava tranquila. O céu tinha aquela aparência comum dos dias frios do Sul, e o movimento da rua podia ser ouvido ao longe. Quando a família chegou, percebi imediatamente a mãe de Diego. Duas mulheres a seguravam pelos braços. Ela parecia não conseguir caminhar sozinha. O rosto estava inchado de tanto chorar e os olhos carregavam uma tristeza que eu já tinha visto muitas vezes, mas que naquele dia parecia especialmente profunda.

O padre iniciou a cerimônia. Os familiares se aproximaram do caixão, alguns rezando, outros olhando para o chão. Eu permaneci um pouco afastado, atento ao trabalho que precisava realizar.

Foi então que notei um homem chegando pelo caminho do portão.

Ele não parecia fazer parte da família. Caminhava devagar, como se estivesse dividido entre entrar ou voltar para casa. Parou a alguns metros dos demais e ficou olhando para o caixão. Não disse nada. Mantinha as mãos nos bolsos e a cabeça baixa.

Eu não sabia quem era aquele homem.

A mãe de Diego, porém, sabia.

Quando seus olhos encontraram os dele, algo mudou completamente. A mulher que até então chorava em silêncio perdeu o controle.

— Vá embora! Você não tem esse direito!

Todos se viraram.

Ela começou a gritar que aquele homem havia abandonado a família e que não deveria aparecer justamente naquele momento. Sua voz atravessou o cemitério. O padre interrompeu a oração. Alguns parentes tentaram segurá-la, mas ela continuou.

— Você abandonou meu filho! Agora vem aqui fingir que sente alguma coisa?

O homem não respondeu. Apenas abaixou a cabeça.

Depois de alguns segundos, virou-se e foi embora.

Eu fiquei olhando até ele desaparecer pelo portão.

Não sabia quem era. Não sabia o que havia acontecido entre eles. Mas alguma coisa naquela cena permaneceu comigo.

O enterro continuou. Quando baixamos o caixão, a mãe se ajoelhou junto à sepultura. Chorava baixinho enquanto as outras mulheres tentavam consolá-la. Depois da última oração, os familiares começaram a sair.

Terminei de fechar a sepultura no fim da tarde. O cemitério ficou praticamente vazio.

Fui para casa, mas aquela discussão continuou em minha cabeça.

No dia seguinte, voltei ao trabalho normalmente. Por volta do meio da manhã, eu estava perto do túmulo de Diego quando um visitante entrou acompanhado de um cachorro. O animal caminhava tranquilamente entre as sepulturas até chegar próximo àquele túmulo.

Então parou.

O cachorro ficou rígido, levantou as orelhas e começou a rosnar.

O dono tentou puxá-lo pela guia, mas o animal não queria avançar. Continuava olhando fixamente para a sepultura. Depois de alguns segundos, o homem desistiu e tomou outro caminho.

Eu observei tudo de longe.

Tentei encontrar uma explicação simples. Cachorros percebem cheiros e sons que nós não percebemos. Talvez houvesse algum animal escondido ou algum cheiro diferente vindo do solo.

Mesmo assim, a cena me deixou inquieto.

Naquela noite, o vigia do cemitério me contou outra coisa.

Disse que, durante a madrugada, havia visto um rapaz caminhando sozinho entre os túmulos. Chamou algumas vezes, mas ele não respondeu. O vigia foi atrás e, quando chegou perto, não encontrou ninguém.

Segundo ele, o rapaz havia parado exatamente diante do túmulo de Diego.

Eu tentei não dar importância. Coincidências existem. Mas, depois de tudo que acontecera, comecei a pensar naquele lugar de maneira diferente.

Na tarde seguinte, uma senhora que costumava visitar o cemitério parou perto de mim. Ela era uma presença conhecida, alguém que aparecia quase toda semana para cuidar do túmulo de um familiar.

Olhou para a sepultura de Diego durante alguns segundos e disse:

— Tem alguma coisa aí que ainda não descansou.

Depois continuou caminhando.

A frase ficou comigo.

Naquele fim de tarde, decidi voltar sozinho ao túmulo. Não sabia exatamente por quê. Talvez quisesse apenas fazer uma oração pelo rapaz. Talvez estivesse tentando acalmar a própria consciência.

Ajoelhei-me diante da sepultura e comecei a rezar.

Pedi que Diego encontrasse paz. Pedi que a família encontrasse força. Não fiz uma oração bonita. Apenas falei com Deus como minha mãe havia me ensinado quando eu era criança.

Foi então que senti um aperto no peito.

A princípio pensei que fosse nervosismo. Continuei rezando. O desconforto aumentou. Minhas mãos ficaram frias e minha respiração mudou.

Continuei.

Foi quando ouvi passos atrás de mim.

Virei-me.

Era o mesmo homem que havia aparecido no enterro.

Ele estava parado a poucos metros da sepultura.

Perguntou o que eu estava fazendo ali.

Contei tudo. Falei sobre o cachorro, sobre o vigia e sobre a senhora que havia dito que alguma coisa naquele lugar ainda não descansara.

Ele ficou em silêncio.

Depois passou a mão pelo rosto.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

Finalmente, disse:

— Eu sou o pai do Diego.

Naquele instante, compreendi por que a mãe havia gritado com ele.

O homem contou que era muito jovem quando Diego nasceu. Não tinha maturidade, não tinha estrutura e acabou deixando a mãe do menino sozinha. Anos depois, já adulto e com a vida mais organizada, tentou se aproximar novamente.

Diego tinha dezessete anos.

O próprio rapaz procurou o pai escondido. Eles começaram a se encontrar algumas vezes. Tentavam reconstruir uma relação que havia sido interrompida quando Diego ainda era criança.

Quando a mãe descobriu, ficou assustada. Tinha medo de que o filho sofresse novamente. Procurou a Justiça e conseguiu impedir os encontros enquanto Diego ainda era menor de idade.

Pouco depois, Diego completou dezoito anos.

O pai esperava que eles pudessem finalmente se aproximar sem obstáculos.

Mas não houve tempo.

Diego morreu em um acidente de moto.

O homem soube da morte por meio de um parente. Mesmo sabendo que seria rejeitado, decidiu ir ao enterro.

— Eu precisava vê-lo uma última vez — disse.

Então tirou algo do bolso.

Era um pequeno carrinho de brinquedo, antigo e desgastado.

Ele havia comprado o presente anos antes, quando ainda acreditava que teria oportunidade de entregá-lo ao filho.

Nunca conseguiu.

Colocou o carrinho sobre a sepultura.

Ficamos em silêncio.

Depois ele se ajoelhou.

Começou a chorar.

Por alguns instantes, parecia um homem completamente destruído pelo arrependimento.

Então levantou os olhos para um ponto vazio diante dele.

Eu não vi nada.

Mas ele começou a chorar ainda mais.

— Ele me perdoou — murmurou.

Repetiu aquelas palavras algumas vezes.

Eu permaneci em silêncio. Não sabia se ele havia realmente visto alguma coisa ou se aquele momento era apenas a maneira que sua mente encontrou para suportar uma dor carregada durante tantos anos.

Mas havia algo profundamente humano naquele gesto.

Ele tinha passado anos esperando uma oportunidade para pedir perdão. E agora, diante de uma sepultura, finalmente encontrou coragem para dizer tudo aquilo que não conseguira dizer em vida.

Depois daquele dia, nada estranho voltou a acontecer perto do túmulo de Diego.

O cachorro nunca mais reagiu daquela maneira. O vigia não voltou a ver ninguém durante a madrugada. E eu também nunca mais senti aquela sensação pesada.

Anos se passaram.

Ainda penso naquele homem algumas vezes. Não sei se ele realmente viu Diego naquele momento. Não tenho como provar. Também não sei explicar o que aconteceu naquela tarde.

Mas aprendi uma coisa.

Algumas dores não desaparecem simplesmente porque o tempo passa. Às vezes, elas ficam escondidas dentro de nós, esperando uma oportunidade para serem reconhecidas.

O pai de Diego perdeu muitos anos ao lado do filho. Nenhuma palavra poderia devolver esse tempo. Nenhum presente poderia compensar a ausência. Mas naquele pequeno gesto, deixando um carrinho sobre a sepultura, ele finalmente entregou algo que havia guardado durante anos.

Talvez o perdão tenha acontecido apenas dentro dele.

Talvez tenha sido algo além daquilo que conseguimos compreender.

Eu não sei.

O que sei é que, depois daquela tarde, aquele túmulo deixou de parecer pesado.

E sempre que lembro daquela história, penso em quantas pessoas carregam arrependimentos semelhantes. Pais afastados dos filhos, irmãos que deixaram de conversar, amigos separados por orgulho. Muitas vezes acreditamos que teremos tempo para resolver tudo amanhã.

Nem sempre temos.

Por isso, se existe alguém que você ama e de quem se afastou, talvez valha a pena procurar essa pessoa enquanto ainda existe oportunidade.

Porque algumas palavras, quando chegam tarde demais, podem encontrar apenas uma lápide para ouvi-las.

E nenhuma saudade deveria precisar esperar pela morte para finalmente ser transformada em perdão.

Disclaimer: This story is fictional and created for entertainment purposes only. Any names, characters, places, or events are fictitious or used fictitiously. No real person or organization is intended to be portrayed.

You Might Also Enjoy